Artigo da seção termos e conceitos Vorticismo

Vorticismo

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Definição

Movimento artístico de vanguarda, 1914-1917, fundado em Londres por Wyndham Lewis (1882-1957), que se inspira nas sugestões do futurismo italiano e na defesa de um estilo puro e dinâmico capaz de trazer a ação e o movimento para a pintura e a escultura. O termo do latim vortice, "redemoinho" é cunhado pelo poeta Ezra Pound (1885 - 1972) com base na obra de Umberto Boccioni (1882 - 1916) e na idéia de que toda criação artística emana de um vórtice emocional. A exaltação da máquina e da "beleza da velocidade", associada ao elogio da técnica e da ciência - caras ao futurismo de Marinetti (1876 - 1944) -, torna-se emblemática da atitude estética vorticista. Trata-se da primeira expressão do abstracionismo em solo inglês, que se vale também das contribuições do cubismo e do espiritualismo abstrato do Der Blaue Reiter [O Cavaleiro Azul], de Wassily Kandinsky (1866 - 1944), Paul Klee (1879 - 1940) e Franz Marc (1880 - 1916). Reunindo escritores e artistas plásticos, o vorticismo visa romper com os modelos da tradição artística inglesa, por meio de uma síntese particular entre elementos do futurismo e do simultaneísmo de Robert Delaunay (1885 - 1941), que articula cor e movimento. Uma única exposição vorticista é realizada em Londres, em 1915.

A história da criação do movimento remonta às desavenças em um grupo de artistas ligados às Oficinas Omega - de produção de objetos cotidianos de qualidade -, sobretudo as ocorridas entre Roger Fry (1866 - 1934) e Wyndham Lewis. Este e outros dissidentes vão formar, em 1914, o Centro Rebelde de Arte, matriz do grupo vorticista. As linhas mestras do vorticismo têm origem em uma resposta de Lewis ao manifesto Arte Inglesa Vital de Marinetti, de junho de 1914. Da réplica - apoiada no uso indevido do nome de artistas ingleses por Marinetti - nasce um artigo do pintor, escritor e crítico inglês, editado no primeiro número da revista Blast: Review of the Great English Vortex [Explosão: Revista do Grande Vórtice Inglês], de 1914, que figura como manifesto do vorticismo. Podem ser observados, além de discordâncias pontuais, os débitos da nova proposta em relação ao ideário futurista.

Pound e Lewis estão entre os principais artistas associados ao grupo. O poeta, envolvido com o imagismo literário mais ou menos na mesma época, defende uma poesia dotada de precisão, clareza e economia de linguagem, construída com base no ritmo musical. Seus poemas sintéticos, elaborados a partir de uma única imagem - como o célebre In a Station of the Metro - traduzem os princípios de sua estética modernista imagista. Discordâncias dentro do grupo literário, especialmente com Amy Lowell, conduzem-no a uma aproximação com os artistas plásticos nos dois números da revista Blast, com a qual colabora também T. S. Eliot (1888 - 1965). Lewis, em 1911, desenvolve uma obra de corte semi-abstrato, com base em formas angulares, que se assemelham a máquinas e engrenagens. A impessoalidade das imagens de Lewis, suas linhas retas, cortadas em ângulos, reaparece nos trabalhos sobre a guerra, na qual ele serve como artilheiro e artista oficial. Apesar de sistematicamente comparado ao cubismo e ao futurismo, Lewis não poupa críticas a esses movimentos. À sofisticação visual cubista faltaria "matéria espiritual"; as "qualidades vitais" futuristas não viriam acompanhadas das "qualidades plásticas" cubistas. Além de pintor, Lewis é autor de romances - Tarr, 1918 - e de ensaios críticos. Suas telas mais conhecidas são os retratos das décadas de 1920 e 1930 (os de Edith Sitwell e de Elliot, por exemplo).

O escultor e desenhista francês Henri Gaudier-Brzeska (1891 - 1915), radicado em Londres desde 1911, é um ativo participante do grupo. Ele desenvolve um estilo escultórico pessoal, em que se observa a tentativa de simplificação das formas, próxima à empreendida por Brancusi (1876 - 1957). O anseio pela captação de energia, força e movimento em suas esculturas, de acordo com os preceitos vorticistas, se faz notar em trabalhos como Dançarino Vermelho em Pedra, 1913. Sir Jacob Epstein (1880 - 1959) é outro escultor ligado ao grupo, autor da obra A Broca de Rochas, 1913/1914, figura robótica montada sobre enorme broca. Entre os pintores destacam-se Christopher Richard Wynne Nevinson (1889 - 1946), que realiza imagens das trincheiras da guerra, baseadas em protótipos cubistas e futuristas; William Roberts (1895 - 1980), autor de figuras estilizadas com formas geométricas simples que produz em toda sua vida, como Os Vorticistas no Restaurante da Torre Eiffel, 1961/1962, e Edward Wadsworth (1889 - 1949), responsável por composições abstratas durante o período vorticista.  A obra de Roberts aproxima-se da de David Bomberg (1890 - 1957), pelo corte geométrico das figuras em movimento como em Dançarino, 1914.

O vorticismo tem vida curta. O empenho de Lewis em reeditá-lo com a criação do Grupo X, em 1919, não obtém sucesso. Não obstante, o movimento tem forte influência no modernismo britânico, em obras de artistas como Henri Moore (1898 - 1986), Francis Bacon (1909 - 1992) e Ben Nicholson (1894 - 1982). Não é possível aferir uma leitura brasileira do vorticismo. Mais fácil é observar desdobramentos do futurismo no Brasil. Os modernistas reunidos na Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, por exemplo, recebem imediatamente a alcunha de "futurista" em virtude das propostas estéticas renovadoras e das intervenções estéticas de vanguarda.

Fontes de pesquisa (4)

  • ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução Denise Bottmann, Frederico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
  • CHILVERS, Ian (org.). Dicionário Oxford de arte. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  • LA NUOVA ENCICLOPEDIA DELL'ARTE GARZANTI. Milão: Garzanti Editore, 1986. 1112p. il. p&b, color.
  • ZACH, Natan. "Imagismo e vorticismo". In: BRADBURY, Malcom & MCFARLANE, James. Modernismo. Guia geral. Tradução Denise Bottmann. São Paulo: Cia. das Letras, 1998, 556p.

Como citar?

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  • VORTICISMO . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo4696/vorticismo>. Acesso em: 27 de Jun. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7