Artigo da seção termos e conceitos Pintura Documental

Pintura Documental

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  
Imagem representativa do artigo

Vista da Ilha do Itamaracá , séc. 17 , Frans Post
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Definição

A pintura documental, o termo indica (documento, do latim documentum, "que serve a instruir e ensinar"), tem um compromisso primeiro com o registro e com a descrição de cenas de época, acontecimentos históricos, fatos cotidianos, costumes, tipos humanos e paisagens. Em sentido mais amplo, seria possível estender a designação a todo o realismo artístico, que se volta para o enfrentamento direto e imediato da realidade. No limite, toda arte realista possui uma face documental, o que leva a que seja frequentemente utilizada como material iconográfico pelos historiadores. Ajustando um pouco mais o foco, seria possível pensar no caráter documental da pintura histórica que registra batalhas, cenas de guerra, personagens célebres, fatos e feitos de homens notáveis, a partir da documentação disponível, como, no contexto do neoclassicismo francês, as telas do pintor Jacques-Louis David (1748-1825), A morte de Marat e A morte de Bara, 1793, e os trabalhos de Jean-Antoine Gros (1771-1835), como A Batalha de Eylau, 1808. Na Espanha, pinturas históricas são realizadas a partir do século XVI por diversos artistas. Cenas de batalhas são executadas pelos pintores da corte de Filipe IV, comprometidos com a representação da invencibilidade do exército espanhol. Nesse contexto, Francisco de Zurbarán (1598-1664) realiza A defesa de Cádiz, e Diego de Velázquez (1599-1660), A rendição de Breda, 1634-1635, ambas glorificando os triunfos do reinado de Filipe IV.

Se os grandes atos e seus heróis são narrados em tom grandioso pela pintura histórica, acontecimentos domésticos, o cotidiano e os personagens anônimos, são registrados pela pintura de gênero, que se desenvolve nos Países Baixos, sobretudo em sua porção holandesa protestante. Este estilo sóbrio e realista - voltado para a descrição de cenas rotineiras, de temas da vida diária, de homens envolvidos com seus ofícios, de mulheres no interior da casa e de festas comunitárias, no campo e na cidade - tem evidente caráter documental. Aí, as imagens mostram-se em grande riqueza de detalhes, executadas com precisão e apuro técnico, numa tentativa de registro fiel do que o olho humano é capaz de captar. Esta "arte da descrição", nos termos da historiadora de arte Svetlana Alpers, pode ser apreciada em obras de Pieter Brueghel (ca.1525-1569), O Velho - por exemplo em Um casamento aldeão, 1565 - nas telas humorísticas de Jan Steen (1625/6-1679) - A festa de São Nicola, s/d, A festa na osteria, 1674, e A festa de batizado, 1664 - e nos célebres quadros de Jan Vermeer (1632-1675), como A leiteira, ca.1660, Mulher lendo diante da janela, ca.1657, Jarro de vinho, ca.1658-1660, A lição de música, ca.1662-1665, entre outras.

Em acepção mais estrita, a pintura documental faz referência à produção dos artistas viajantes, que integram expedições artísticas e científicas com o propósito de documentar pela arte. Todo o processo de ocupação européia dos novos continentes ao longo da história vem acompanhado do registro detido da fauna, flora, povos e modos de vida, a cargo de profissionais especialmente destacados para esse fim. No caso do Brasil, vasta iconografia é produzida desde a chegada dos portugueses no século XVI até o século XIX: os registros pictóricos descrevem as novas paisagens físicas e humanas projetando imagens variadas da terra e do homem americano. Dentre os mais célebres artistas que documentam o país encontram-se os holandeses Albert Eckhout (ca.1610- ca.1666) e Frans Post (1612-1680), que integram a comitiva do Conde Maurício de Nassau (1604-1679), como documentaristas. O período de Nassau em Pernambuco, de 1636 a 1645, é responsável pelas significativas fontes da época iconográficas. Paisagens são preferencialmente realizadas por Post, entre 1637 a 1644. De sua vasta obra documental é possível lembrar Engenho de açúcar, s/d, Vista da Ilha de Itamaracá, 1637, e Mocambos, 1659. Eckout realiza telas de grandes dimensões, além de desenhos e esboços. Fauna, flora e tipos humanos são por ele registrados em Homem mestiço, s/d, Dança dos Tarairiu (Tapuias), s/d, Índia Tupi, 1641, Abacaxi, melancias e outras frutas, s/d., entre outros.

A abertura dos portos brasileiros em 1808 por D. João VI traz consigo a alteração do rigoroso estatuto colonial que restringe as viagens de estrangeiros pelo país. A partir daí, diversas expedições científicas são realizadas com o propósito não apenas de registrar espécimes naturais e objetos, como também de coletá-los. O zoólogo Johann Baptist von Spix (1781-1826) e o botânico Karl Friedrich Philipp Von Martius (1794- 1868) integram a primeira expedição alemã realizada no Brasil entre 1817 e 1820. Nomeados pelo rei da Bavária, Maximiliano José I, para compor o séquito da arquiduquesa D. Leopoldina (que vem se casar com o príncipe Dom Pedro de Alcântara), a equipe Spix e Martius deixa registradas imagens minuciosas da natureza e da vida social brasileira em sua Viagem pelo Brasil (cujos três tomos são editados em 1823, 1828 e 1831, respectivamente, e cuja edição brasileira, promovida pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro data de 1938). Outra importante expedição do ponto de vista da produção de pinturas documentais é aquela organizada pelo barão Georg Heinrich Von Langsdorff (1774-1825), entre 1824 e 1829. Durante trajeto de 17.000 km, os artistas contratados produzem rico acervo iconográfico. O desenhista topógrafo Hercule Florence (1804-1879) é responsável por diversas aquarelas mostrando o ambiente natural e social do Brasil da época; o pintor Rugendas (1802-1858) registra o périplo em Viagem Pitoresca pelo Brasil, 1834; o pintor Adrien Taunay (1803-1828), por sua vez, realiza diversas paisagens e registros da vida social bororo.

A Missão Artística Francesa, que chega ao Rio de Janeiro em 1816, conta com a participação de diversos artistas estrangeiros, entre eles Jean-Baptiste Debret (1768-1848). Professor de pintura histórica na Academia Imperial de Belas Artes (Aiba), Debret é responsável por descrições detalhadas da vida social brasileira, em suas múltiplas dimensões: a vida na corte, o trabalho escravo, a cidade do Rio de Janeiro, o cotidiano, a família etc. Sua Viagem pitoresca e histórica do Brasil, de 1834 (1ª edição brasileira, 1840) é um dos mais importantes exemplos de pintura de valor documental realizados no país, amplamente utilizada como fonte iconográfica para o estudo da vida social brasileira no século XIX e, mais recentemente, interpretada do ponto de vista de seus desafios propriamente pictóricos, como expressão das dificuldades de aclimatação do modelo neoclássico entre nós.

Representação (7)

Fontes de pesquisa (5)

  • ALPERS, Svetlana. A arte holandesa no século XVII. Tradução Antonio de Pádua Danesi, São Paulo, EDUSP, 1983, 432 pp. il. p&b. color [Coleção Texto e Arte]
  • BELUZZO, Ana Maria de Moraes. O Brasil dos viajantes: um lugar no universo. São Paulo: Metalivros, 1994, v. 2, 168 pp. Il. color.
  • FITTKAU, Ernest Josef. Johann Baptiste Ritter Von Spix: primeiro zoólogo de Munique e pesquisador do Brasil. Seção História, Ciências, Saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, vol. 8, 2000. Disponível em: http://www.scielo.br/. Acesso em: 20 dez. 2006.
  • KOMISSAROV, Boris. Expedição Langsdorff: acervo e fontes históricas. Tradução Marcos Pinto Braga. São Paulo: Unesp : Hucitec, 1994. 126 p., il. p&b. (prismas).
  • LA NUOVA ENCICLOPEDIA DELL'ARTE GARZANTI. MILÃO: Garzanti Editore, 1986. 1112p. il. p&b, col

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • PINTURA Documental. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3915/pintura-documental>. Acesso em: 27 de Mai. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7