Artigo da seção termos e conceitos Universalismo Construtivo

Universalismo Construtivo

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Definição

O termo universalismo construtivo remete diretamente à produção do grupo Cercle et Carré [Círculo e Quadrado], criado em Paris, no ano de 1929, pelo pintor uruguaio Joaquín Torres-García e pelo crítico e artista gráfico belga Michel Seuphor. A associação e o jornal de mesmo nome têm como objetivo primeiro instaurar um debate sobre as idéias construtivistas e divulgar a arte abstrata, como revela a exposição realizada em 1930 na Galeria 23, em Paris, reunindo Jean Arp, Vassily Kandinsky, Fernand Léger, Le Corbusier, Piet Mondrian, entre outros. Ao dar o destaque das pesquisas às idéias de estrutura e construção, o grupo recusa o irracionalismo e as motivações inconscientes preconizados pelo surrealismo, de forte penetração na época. Mesmo conectado ao abstracionismo geométrico e às tendências construtivas da arte moderna - sobretudo ao neoplasticismo de Mondrian, Theo van Doesburg e Georges Vantongerloo -, o universalismo construtivo, sistematizado por Torres-García em diversos escritos e testado em toda a sua obra, adquire caráter próprio ao sublinhar o valor simbólico da forma. O lugar e a dimensão dos símbolos no interior da estrutura do quadro definem-se pela tentativa do pintor em obter uma síntese entre idéia e forma.

Formado em Barcelona, onde trabalha com Antoni Gaudí e conhece Julio González, Torres-García percorre diversos países europeus, e passa por Nova York até chegar a Paris, em 1926. O acervo do Museo del Prado, o contato com Joán Miró em 1918, o simbolismo de Puvis de Chavannes, o muralismo de Davi Alfaro Siqueiros e, principalmente, o contato com o ideal de harmonia universal postulado por Mondrian (a quem, não por acaso, dedica o livro Universalismo Construtivo), em 1928 e 1929, são fontes fundamentais para o construtivismo de Torres-García, que começa a se esboçar nas cenas de ruas, casas e portos projetadas em 1916 (por exemplo, Rua de Barcelona) e nos brinquedos construídos a partir de 1918. Mas é no período parisiense que sua pintura adquire conotação arquitetônica e as tendências construtivas se evidenciam. Também começa a fazer uso de símbolos bem delineados, situados em campos de pouca profundidade que tomam o quadro. As cores variam ora apresentam-se reduzidas ao negro, branco e cinza, ora resumem-se às cores primárias (amarelo, azul e vermelho), algumas vezes aproximam-se dos tons terra empregados pela cerâmica pré-colombiana, que tanto impressiona o pintor. O princípio construtivo da obra de Torres-García tem claro sentido metafísico, como ele mesmo indica no livro Razão e Natureza, 1932. Unificar o tempo, o espaço e a cultura, alcançar um sentido de harmonia, assim como representar visualmente o homem universal (com sua dimensão física, intelectual e espiritual), seriam as ambições maiores de Torres-García.

Totalidade, ordem e unidade são termos empregados por Torres-García para definir seu projeto pictórico, que conhece desdobramentos no período uruguaio, a partir de 1935. Na Associação de Arte Construtiva, criada em Montevidéu - e na qual são lançados dez números da revista Círculo e Quadrado entre 1936 e 1938 -, o artista amplia e divulga os ideais plásticos do universalismo construtivo, definidos no período anterior. As diversas obras criadas entre 1930 e 1940 como Composição Cósmica com Homem Abstrato, 1933, Construção com Signos Estruturados, 1932, Porto com Quatro Figuras Universais, 1942 e Ritmo Construtivo na Cidade, 1943, evidenciam as linhas mestras de seu programa. O espírito de síntese, a imagem a comandar a representação do essencial, a unidade da composição, o equilíbrio e a idéia filosófica de totalidade - compreendendo a unidade entre o artista construtor e a ordem cósmica do universo - são transpostos para a tela ou para a pedra, no caso do Monumento Cósmico, parque Rodó, 1935, com o auxílio de um vocabulário extremamente variado. Grafismos primitivos, formas tiradas da natureza, elementos do cotidiano, números, palavras, signos fenícios e outros, retirados de civilizações variadas, compõem o alfabeto pessoal e simbólico de Torres-García. Peixe, sol, lua, relógio, âncora, chave, flecha, casa, barco e outras, cada uma dessas formas remete a uma idéia precisa: à vida moderna, ao universo cósmico, à dualidade masculino/feminino, à transcendência. A inclusão de números alude às formas geométricas: quadrado, triângulo, pentagrama. As palavras vida, terra, emoção, magia e outras definem os planos físico, espiritual e intelectual da vida e do homem universal.

Na França, o Cercle et Carré dá origem, em 1931, ao grupo Abstraction-Création. Em Montevidéu, a Associação de Arte Construtiva, 1935-1942 e o Taller Torres-García, 1943-1962 formam uma série de artistas no léxico do universalismo construtivo como Gonzalo Fonseca, José Gurvich, Héctor Ragni, Augusto Torres, Rosa Acle e outros.

Fontes de pesquisa (4)

  • CHILVERS, Ian (org.). Dicionário Oxford de arte. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  • DUNCAN, Barbara. Joaquin Torres-García. Cronologia. Tradução do inglês John Wheat. Austin: Universidad de Texas, 1975, 155 pp. il p&b. color.
  • JARDÍ, Enric. Torres García. Barcelona: Ediciones Polígrafa, S.A., s/ data, 286 pp. il p&b. color [Biblioteca de Arte Hispánico]
  • RAMIREZ, Mari Carmem. El Taller Torres-García. The School os the South and its legacy. Austin: University pf Texas Press, 1992, 395 pp. il. p&b.color.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • UNIVERSALISMO Construtivo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3850/universalismo-construtivo>. Acesso em: 14 de Abr. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7