Artigo da seção termos e conceitos Transvanguarda

Transvanguarda

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Definição

O termo transvanguarda entra no vocabulário artístico com o livro A Transvanguarda Italiana, 1980, de Achille Bonito Oliva, para designar uma tendência da arte italiana exemplificada por artistas como Francesco Clemente, Mimmo Palladino, Enzo Cucchi, Sandro Chia e Nicola de Maria. A nova orientação deve ser lida no interior do chamado neo-expressionismo internacional dos anos 1970, sobretudo em suas faces alemã e norte-americana. Na Alemanha, destacam-se os trabalhos de Jörg Immendorff, George Baselitz, A.R. Penck e Anselm Kiefer. As memórias da guerra, as marcas deixadas pelo nazismo no país e a tematização de certa identidade nacional problemática são referências para os quatro artistas, ainda que os temas conheçam inflexões distintas em cada um deles. Nos Estados Unidos, os nomes de Julian Schnabel, Robert Longo e Jonathan Borofsky podem ser lembrados como representantes de uma leitura particular do neo-expressionismo.

Na Itália, o desenvolvimento de uma tendência neo-expressionista na arte é tributária de sugestões inscritas na arte povera, sobretudo do destaque que confere às forças primárias da natureza e à tematização do lugar do homem como um elemento, entre outros, da natureza mais ampla. Os trabalhos reunidos na transvanguarda - em geral, pinturas e esculturas -, mesmo que apresentem dicções distintas, e defendam a vitalidade dessas diferenças como um valor, compartilham algumas preocupações e orientações. De modo geral, os artistas realizam trabalhos figurativos em que o corpo humano tem presença destacada. Não é à toa que Clemente sublinha sua admiração por aqueles que "pensam com seus corpos". Os corpos que povoam essas telas ora se apresentam em primeiro plano de forma vigorosa - como em certos trabalhos de Sandro Chia, O Carregador de Água, 1981, por exemplo -, ora se esvanecem dando lugar a figuras algo fantasmáticas como em Não Deve Ser Dito, 1981, de Cucchi. Nota-se também em vários desses trabalhos um movimento entre os tons irônico e trágico, que o Pequeno Diabo e Filho do Filho, 1981, ambos de Chia, exemplificam de modo nítido. As telas construídas de modo geral com cores e pinceladas vigorosas abrigam, volta e meia, zonas de escuridão, deixando entrever a tentativa de equilibrar tendências opostas, na forma e no conteúdo. Contra a idéia de plano e projeto, assim como de uma tendência a pensar a história da arte como evolução linear, os artistas borram as hierarquias entre diferentes linguagens, entre "alta" e a "baixa" cultura, não conferindo privilégio a nenhum estilo e recuperando, até mesmo, perspectivas descartadas. As obras tendem à fragmentação e à combinação eclética, de distintas referências. O Carregador de Água, alude simultaneamente às alegorias barrocas, à face decorativa da obra de Marc Chagall, às gravuras japonesas e aos trabalhos de Cy Twombly, o que revela a combinação de tendências e períodos diferentes da história da arte.

Cuchi e Palladino se aproximam pelas referências mais diretas à Itália, sua arte e paisagem, ainda que certas obras de Palladino apresentem semelhanças com a "abstração figurativa" de Vassily Kandinsky e Paul Klee - por exemplo, O Grande Cabalista, 1981. De Maria tende mais diretamente à abstração em parte dos trabalhos - por exemplo, as formas vermelhas sobre fundo azul da tela Sem Título, de 1981. Em outros, a figuração prevalece e o título adquire função central para explicitar tensões dramáticas como no interior vazio e de tons amainados intitulado The Slaughter-House of Poetry, 1980/1981. Clemente leva ao limite as idéias de fragmentação, multiplicidade, falta de hierarquia e dispersão. Suas Myriads, 1980, apontam nessa direção. Dezenove pastéis de distintos formatos e tamanhos, que combinam temáticas e estilos diferentes, fazem parte de um grupo maior de 85 trabalhos, também não guardam sentido de unidade. Nenhum centro, nenhuma porta de entrada preferencial para o conjunto, apenas imagens dispostas, uma ao lado da outra, formando conjuntos e séries paradoxalmente dispersas. Como indica o artista: "Minha estratégia ou visão como artista é aceitar a fragmentação e ver o que sai daí, [...]. Tecnicamente, isso significa que eu não arranjo meios e imagens. Não trabalho com nenhuma hierarquia de valor. Uma imagem é tão boa quanto a outra". Vale lembrar que, no caso de Clemente, os fragmentos foram produzidos em meio aos sucessivos deslocamentos do artista entre Itália, Estados Unidos, Japão, Afeganistão e Índia. O contato específico com as religiões indianas traz uma idéia explorada nos trabalhos de que a espiritualidade está posta nos detalhes.

No Brasil, parece difícil apontar influências diretas da transvanguarda embora seja possível notar um número significativo de obras tributárias do neo-expressionismo, por exemplo, os trabalhos dos artistas da Casa 7 - Nuno Ramos, Paulo Monteiro, Fábio Miguez, Rodrigo de Andrade e Carlito Carvalhosa -, as pinturas de Daniel Senise, Jorge Guinle e Cristina Canale, assim como parte das obras de Leda Catunda e Omar Pinheiro.

Fontes de pesquisa (2)

  • FINEBERG, J. Art since 1940: strategies of being. New York: Harry N. Abrams, Inc., Publishers, 1995. 496p. il. color.
  • OLIVA, Achille Bonito. Trans avant garde internacional. Milano: Giancarlo Polete Editore, 1982, 319 p. il. p&b. color.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • TRANSVANGUARDA . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3849/transvanguarda>. Acesso em: 29 de Mai. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7