Artigo da seção termos e conceitos Pintura Sacra

Pintura Sacra

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  
Imagem representativa do artigo

Apóstolo São Paulo , 1869 , Almeida Júnior
Reprodução fotografica Romulo Fialdini

Definição
Convenciona-se chamar de pintura sacra aquela que representa assuntos ou personagens religiosos. Uma parcela significativa dessa produção é realizada sob encomenda para decorar forros das igrejas e capelas. Nesse sentido falar em pintura sacra significa referir-se a praticamente toda a história da arte cristã pois é na religião, nas cenas e figuras bíblicas, que os pintores vão buscar a maior parte de seus temas. Algumas representações transformaram-se em verdadeiros tópicos da pintura sacra, trabalhadas pelos artistas em diferentes períodos: a virgem; a virgem com o menino, a santa  ceia, a crucificação, a conversação sacra (onde a virgem, o menino e os santos estão dispostos numa única cena). Desde que o imperador Constantino estabelece a Igreja Cristã como um poder do Estado, no ano 311 d.C., o relacionamento entre religião e arte se redefine. Trata-se de pensar a partir de então os lugares de culto e o modo de decorá-los, o que dá origem a uma série de disputas. Afinal, seria lícito colocar imagens esculpidas e pintadas no interior das basílicas? O papa Gregório Magno, que vive em fins do século VI, tem grande importância na história da arte sacra na medida em que defende o uso de imagens nas igrejas, por seu sentido didático. As imagens são úteis para ensinar a palavra sagrada aos leigos. Diz ele: "A pintura pode fazer pelos analfabetos o que a escrita faz pelos que sabem ler". Isso leva a que a arte apele para métodos narrativos, contando e explicando os episódios da história bíblica (por exemplo, O Milagre dos Pães e dos Peixes, ca. 520 d.C., mosaico da Basílica de Santo Apolinário, o Novo, em Ravena, Itália).

A arte cristã da Idade Média se beneficia da arte grega e romana, misturando processos e métodos, o que pode ser aferido pelo modo de representação das figuras humanas nos manuscritos e nas ilustrações da Bíblia em várias partes da Europa. Mas antes de conferir verossimilhança à imagem representada, o artista medieval visa transmitir de forma convincente a mensagem da história sagrada. A busca de clareza na apresentação dos conteúdos acompanha a arte religiosa desse período: iluminuras, calendários, esculturas, tapeçarias etc. Se a longa Idade Média é o tempo das catedrais isso quer dizer que a arquitetura é a arte mais importante de todo o período, prevalecendo na maior parte da Europa dos séculos XI e XII com o estilo românico e, entre os séculos XII e meados do XVI, com o gótico. Tendo a França como fonte de irradiação, toda a primeira fase do novo estilo gótico pode ser definida como a linguagem artística da sólida estrutura monárquica francesa e do poder da Igreja, que se via como depositária das ciências e das artes, além de mediadora entre Deus e os homens. A proeminência da Igreja é enfatizada pela intensificação do culto à Virgem Maria, que assume o primeiro plano na iconografia sacra. Se é na arquitetura religiosa que o gótico vai predominar ao longo dos séculos XII e XIII - dialogando de perto com a escultura na decoração das catedrais -, entre os pintores o nome de Giotto (1266 ou 1267 - 1337) se destaca por lograr traduzir para a pintura as figuras realistas da escultura gótica. A obra do pintor florentino representa um corte em relação às convenções da tradição bizantina pela introdução de novos ideais naturalistas e pelo novo sentido atribuído ao espaço pictórico. Entre os trabalhos a ele atribuídos estão os afrescos da Capela de Arena, em Pádua (provavelmente concluídos em 1306). As idéias de Giotto influenciariam pintores como Simone Martini (ca.1284 - 1344) e Lippo Memmi. O retábulo representando a anunciação é pintado por ambos, em 1333, para a catedral de Siena. Nota-se a predileção por formas delicadas, corpos esguios, pela graça de movimentos e harmonia da composição, de acordo com os ensinamentos do gótico.

Mas é ao longo do Renascimento, primeiro na Itália e depois no resto da Europa, entre os séculos XIV e XVI, que a pintura assume lugar destacado entre as artes e, com ela, os temas bíblicos, que se associam muitas vezes às figuras da mitologia greco-romana. Os ideais de perfeição, harmonia, equilíbrio e graça - representados com o auxílio dos sentidos de simetria e proporção das figuras - definem a orientação geral da arte do período e também da pintura sacra. Em Florença, Masaccio (1401 - 1428) efetua uma revolução na representação pictórica. A proximidade com arte escultórica de Donatello (ca.1386 - 1466), leva-o a projetar figuras vigorosas e robustas, que rejeitam a elegância gótica. Em sua breve trajetória, Masaccio deixa três obras reveladoras de seu estilo: um políptico, 1426, para a Igreja Carmelita de Pisa; um ciclo de afrescos sobre a vida de São Pedro (Capela Brancacci de Santa Maria dela Carmine, Florença, ca.1425/1428) e um afresco da Trindade em Santa Maria Novella, Florença, ca.1428. Marcas da pintura de Masaccio - sobretudo a representação pictórica da perspectiva arquitetônica - podem ser encontradas nas obras de Fra Angelico (ca.1400 - 1455), por exemplo, na Anunciação, ca.1435 (Museu Diocesano, Cortona). As obras mais famosas desse frei dominicano estão em São Marco, Florença (hoje Museu de Angelico), onde ele pinta mais de 50 afrescos. Um dos maiores pintores do Quattrocento, responsável por vigorosas pinturas sacras, é Piero della Francesca (ca.1415 - 1492), que imortaliza um estilo em que se combinam grandeza, naturalidade, cor e luz. A série de afrescos sobre A Lenda da Verdadeira Cruz, ca.1452/ca.1465, no coro da Igreja de S. Francesco, em Arezzo, é considerada uma de suas maiores obras. Entre as imagens sacras que realiza estão: Flagelação, 1455 e Nossa Senhora e o Menino com Federico da Montefeltro, ca.1475.

Leonardo da Vinci (1452 - 1519) é autor de ampla obra artística e científica, célebre por seus escritos, pelos retratos e pela invenção da técnica do esfumato ("fumo", "fumaça"), em que se vale da justaposição de tons e cores diferentes, de modo que se misturem "sem limites ou bordas, à maneira da fumaça". Com isso Leonardo logra suavizar os contornos característicos da pintura do início do XV, revelando as potencialidades da tinta a óleo. Ele é autor de grandes obras da pintura com temas religiosos: Anunciação, ca.1475, em Uffizi, o retábulo A Adoração dos Magos (encomendado em 1478 e inacabado), A Virgem dos Rochedos, iniciada em 1483, Última Ceia, ca.1495, entre outras. As imagens de Rafael (1483 - 1520) dão plena expressão aos valores da arte renascentista, destacando-se pela beleza projetada segundo os padrões idealizados do universo clássico. A seu período florentino remontam célebres representações da virgem com o menino e pinturas da sagrada família, em que os personagens bíblicos são representados como seres humanos. Datam do período florentino, algumas de suas mais famosas imagens da Virgem com o Menino [Madona Sistina], ca.1512/1514. As obras de Michelangelo Buonarroti (1475 - 1564), exemplificam em várias modalidades mais uma realização bem-sucedida do modelo clássico. O afresco para o forro da Capela Sistina, 1508/1512, está entre as mais importantes obras da pintura sacra e da arte pictórica em geral. Executa para Paulo III suas últimas pinturas: a Conversão de S. Paulo e a Crucificação de S. Pedro, 1542/1550, afrescos na capela Paolina, no Vaticano. Na escola veneziana, o nome de Ticiano (ca.1488 - 1576) deve ser lembrado pela execução de uma série de obras-primas da pintura religiosa: a Assunção, 1518, a Virgem Aparecendo a São Francisco e a Santo Alviso, 1520 e a Apresentação da Virgem no Templo, 1534/1538.

Falar em pintura sacra fora da Itália é referir-se imediatamente a Matthias Grünewald (ca.1480 - 1528), pintor alemão que se concentra exclusivamente em temas religiosos, em particular no tópico da crucificação. Sua mais famosa representação do tema é o painel central do retábulo para a igreja do hospital de Isenheim, Alsácia - A Crucificação, ca.1515. O pintor neerlandês Hieronymus Bosch (ca.1450 - 1516), imortaliza episódios bíblicos, representados de forma alegórica e não-convencional. Cenas da vida de Cristo e dos santos são narradas em parte de suas telas como base em representações do mal e das tentações (As Tentações de Santo Antão, por exemplo). Na escola espanhola, El Greco (1541- 1614) amadurece um estilo próprio em telas repletas de figuras alongadas pintadas com cores frias. A execução do retábulo-mor da Igreja de S. Domingo El Antiguo leva-o a Toledo, em 1577, onde realiza a famosa Ascensão da Virgem, 1577. Outro retábulo célebre é o El Espolio [Cristo Despojado de Suas Vestes], 1577/1579, da catedral de Toledo. Diego Velázquez (1599 - 1660), com A Imaculada Conceição, ca.1618 e a Adoração dos Magos, 1619, cria uma arte religiosa naturalista, em que as figuras, menos do que tipos idealizados, são retratos.

O barroco talvez seja a última expressão contundente da pintura sacra. Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571 - 1610), mais original e influente pintor italiano do século XVII, é responsável por duas encomendas públicas em seu segundo período romano (1599-1606) - decoração da Capela Contarelli, em S. Luigi dei Francesi (Vocação de S. Mateus e Martírio de São Mateus, 1599/1600) e duas pinturas para a Capela Cerasi em Santa Maria del Popolo (Crucificação de São Pedro e Conversão de São Paulo, 1600/1601) - a partir das quais se dedica quase que exclusivamente à pintura de obras religiosas de grande porte, entre elas: o Sepultamento, 1602/1604 (Vaticano), a Virgem de Loreto, 1603/1605 (S. Agostino, Roma), a Virgem dos Palafreneiros, 1605 (Galeria Borghese, Roma) e a Morte da Virgem, 1605/1606. Oriundo de Bolonha, Annibale Carraci (1560 - 1609) realiza obras religiosas, como o retábulo da virgem chorando sobre o corpo do Cristo morto (Pietá, 1599/1600), que não oferece os horrores da morte e da dor - como em Grünewald - mas uma cena plácida a ser contemplada. Guido Reni (1575 - 1642) flerta com o estilo de Caravaggio em várias obras religiosas, por exemplo na Crucificação de São Pedro, 1603 (Vaticano).

Ainda que seja difícil definir os marcos temporais exatos, é possível verificar o declínio da pintura sacra a partir do fim do século XVII e início do século XVIII, explicável em função da redefinição da sociedade européia, no interior da qual a Igreja - e com ela a arte religiosa - perde progressivamente a importância. As transformações econômicas, políticas e sociais em curso se aprofundam nos séculos posteriores, originando uma "era das revoluções", nos termos empregados pelo historiador inglês Eric Hobsbawn para fazer referência ao período compreendido entre 1789 e 1848. Assiste-se ao triunfo da indústria capitalista, da sociedade burguesa liberal e do Estado moderno e, com eles, à crença na idéia de progresso, de conhecimento científico e à crescente laicização da sociedade. Nesse contexto transformado, os temas religiosos prevalentes na pintura até então perdem força, ainda que a pintura sacra se mantenha como um gênero, entre outros, concorrendo com a pintura histórica, a pintura de gênero, a pintura documental etc.

No Brasil, o barroco e o rococó são fontes privilegiadas da produção de arte religiosa. No campo da pintura sacra especificamente, destaca-se o nome de Manoel da Costa Athaide (1762 - 1830), um dos mais talentosos pintores barrocos, responsável, entre outros, pela pintura ilusionista do teto da nave (1802) da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Penitência, de Ouro Preto, Minas Gerais. Da chamada "escola baiana de pintura" destacam-se José Joaquim da Rocha (1737 - 1807) - responsável pelo óleo Coroação de Nossa Senhora, ca.1790 - e Teófilo de Jesus (1758 - 1847), autor de O Sumo Sacerdote Melquisedeque e Jesus Institui a Eucaristia, ambas de 1793, obras pertencentes ao acervo do Museu de Arte Sacra, em Salvador.

Obras de Pintura Sacra: (1) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (6)

  • ARGAN, Giulio Carlo. Clássico e Anticlássico. O Renascimento de Bruneleschi a Bruegel. Introdução, tradução e notas Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, 497 pp. Il p&b. color.
  • CHASTEL, André. A arte italiana. Tradução Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1991, 738 pp. il. p&b.
  • CHILVERS, Ian (org.). Dicionário Oxford de arte. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 584 p.
  • GOMBRICH, E.H. A história da arte. 15.ed. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1993, 543 pp. il. p&b. color.
  • HOBSBAWN, Eric. A era das revoluções. 2.ed. Tradução Maria Tereza Lopes Teixeira, Marcos Penchel. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, 343p., il. p&b
  • La Nuova enciclopedia dell'arte Garzanti. Milano: Garzanti Editore, 1986, 1112 p. il. p&b. color.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • PINTURA Sacra. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3823/pintura-sacra>. Acesso em: 15 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7