Artigo da seção termos e conceitos Pintura Mitológica

Pintura Mitológica

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Definição
A expressão indica um gênero pictórico - caracterizado pela representação de personagens e cenas da mitologia greco-romanas - que tem um longo trajeto na história da arte. Nasce na Grécia e em Roma, como pintura religiosa, e se desenvolve no Ocidente, sobretudo no Renascimento e no neoclassicismo, ora como exaltação da antiguidade, ora com sentido alegórico (por exemplo, Vênus como representação da beleza; Minerva, da sabedoria; Marte como personificação da guerra e assim por diante). Mas o que é chamado de mitologia grega?, pergunta-se o helenista Jean-Pierre Vernant. "Trata-se de um conjunto de narrativas que falam de deuses e heróis, ou seja, de dois tipos de personagens que as cidades antigas cultuavam". Além disso, continua ele, "a mitologia constitui, para o pensamento religioso dos gregos, um dos modos de expressão essenciais". Composta por uma pluralidade de deuses, sem igrejas, especialistas, nem textos sagrados, a religião grega se alimenta de narrativas míticas que não tem caráter de obrigação. Compreendem, em sua origem mesma, uma dimensão de "ficção" (mito, em grego, significa "fábula"), o que as relaciona também à literatura. Nesse sentido, a teologia antiga é essencialmente uma poesia: os relatos míticos contam aventuras lendárias e acontecimentos dramáticos que marcam a carreira dos deuses. Os deuses gregos são objeto de culto desde o século XV a.C. até o século IV da era cristã, quando o cristianismo se torna a religião oficial do Império Romano. A conquista e apogeu romanos, entretanto, não alteram os contornos mais gerais da produção artística. A maior parte dos artistas que trabalham em Roma é grega; em Pompéia, notam-se fortes marcas da arte helenística.

Se as religiões de Grécia e Roma desapareceram, as divindades do Olimpo permanecem nas artes e na literatura, clássicas e também modernas. Os enredos mitológicos servem de inspiração aos poetas em seus cantos (IlíadaOdisséia, de Homero), aos autores dramáticos na elaboração de suas tragédias (Sófocles, por exemplo) e às belas-artes em geral. Os frisos dos vasos gregos estão repletos de personagens e cenas mitológicos, assim como a estatuária, relevos, mosaicos, capitéis, pinturas murais e elementos decorativos de templos e construções antigos. A obra do escultor grego Fídias (ca.500 - ca.432 a.C.) é reveladora do interesse por tal repertório: sua estátua de Zeus, no templo dedicado ao deus em Olímpia, com 12 metros de altura, situa-se entre as grandes realizações artísticas da época. As obras mitológicas de Praxíteles (Hermes com o Jovem Dionisio, 350 a.C., e Vênus de Milo, século I a.C.), permitem aferir a liberdade grega nas representações dos corpos nus (de acordo com a idéia de que "o corpo é o espelho da alma") e o ideal de beleza, perfeição, harmonia e graça que os artistas procuram atingir pela simetria e proporção das formas.

A idéia de um renascimento ocorrido nas artes e na cultura relaciona-se, justamente, à revalorização do pensamento e da arte da Antigüidade clássica e à formação de uma cultura humanista, o que se dá entre os séculos XIV e XVI na Itália, no bojo do movimento intelectual e artístico conhecido como Renascimento ou Renascença. À concepção medieval do mundo se contrapõe uma nova visão, empírica e científica, do homem e da natureza. Do ponto de vista artístico, as representações se orientam agora pelos parâmetros ditados pelo Belo clássico. As temáticas mitológicas estão entre os tópicos preferenciais dos artistas do período, seja em detalhes de composições maiores - por exemplo, Estudo para uma das Sibilas no teto da Capela Sistina - ou em esculturas como Baco (Bargello, Florença, ca. 1496/1497), ambas de Michelangelo Buonarroti (1475 - 1564). A realização do modelo clássico e de seus padrões de beleza por meio da representação de personagens mitológicos conhece exemplos variados na produção renascentista: A Ninfa Galatéia, ca.1514, de Rafael (1483 - 1520); O Nascimento de Vênus, ca.1482, de Sandro Botticelli (ca.1444 - 1510) - autor de outras célebres pinturas mitológicas, como Palas e o Centauro, ca.1483 -; as composições mitológicas de Ticiano (ca.1488 - 1576), realizadas entre 1518 e 1523, Adoração de Vênus e Baco e Ariadne. Ainda em solo italiano, é possível mencionar os personagens mitológicos de Caravaggio) - O Jovem Baco, ca.1595, as paisagens mitológicas de Niccolò dell'Abate (ca.1509 - 1571) - a Paisagem com a Morte de Eurídice - e obras de Paolo Veronese (1528 - 1588), como Vênus e Adônis, ca.1580. Os ideais renascentistas encontram seguidores por toda a Europa, o que significa a disseminação de temas mitológicos em obras como as do alemão Albrecht Dürer (1471 - 1528), do flamengo Jan van Scorel (1495 - 1562), do holandês Jacob Jordaens (1593 - 1678), entre muitos outros. Da escola espanhola, a obra tardia de El Greco (1541- 1614) e o célebre Laocoonte, ca.1610.

Se as expressões do barroco contrariam os ideais renascentistas, isso não quer dizer que tenham descartado a mitologia. Ela reaparece, por exemplo, em trabalhos do artista flamengo Peter Paul Rubens (1577 - 1640) - Diana e Suas Ninfas Surpreendidas por Sátiros, ca.1635/1640, e O Julgamento de Páris, ca.1638/1639 - e do escultor italiano Gianlorenzo Bernini (1598 - 1680): O Rapto de Prosérpina, 1621/1622, e Apolo e Dafne, 1622/1625. Não há como esquecer, além disso, as célebres obras mitológicas de Diego Velázquez (1599 - 1660): O Triunfo de Baco, 1629, a Forja de Vulcano, 1630, Vênus e Cupido, ca.1648, A Fábula de Aracne, ca.1656/1658, entre outras. Mas é no contexto do neoclassicismo que a pauta clássica e a arte antiga, especialmente greco-romana, são retomadas, como modelo de equilíbrio, clareza e proporção. A Luta entre Teseu e o Minotauro, 1781/1783, constitui o tema daquela que é considerada a primeira grande obra do escultor Antonio Canova (1757 - 1822). O nome de John Flaxman (1755 - 1826) pode ser lembrado pelas gravuras realizadas para a Ilíada e a Odisséia, 1793, que lhe valem fama internacional. Se o centro irradiador da escultura neoclássica é Roma, na pintura, o epicentro do neoclassicismo desloca-se para a França. Aí, diante da Revolução Francesa, o modelo clássico adquire sentido ético e moral, associando-se a alterações na visão do mundo social, flagrantes na vida cotidiana, na simplificação dos padrões decorativos e nas modas despojadas. Do ponto de vista das temáticas retiradas da mitologia, a obra de Nicolas Poussin (1594 - 1665) se destaca pelos personagens de Céfalo e Aurora, Midas, Selene (Diana), além de ninfas e sátiros, que povoam as suas telas. O pintor, gravador e designer francês François Boucher (1703 - 1770), ligado ao rococó nos primeiros tempos, adere ao neoclassicismo e aos temas mitológicos no fim da carreira: O Triunfo de Vênus, 1740 e O Descanso de Diana, 1742.

A pintura mitológica deixa rastros em toda a história da arte, associando-se freqüentemente à pintura alegórica, ao grotesco e à pintura histórica. Uma das "pinturas negras" de Francisco de Goya (1746 - 1828), em que figuram cenas de pesadelo em tons escuros, volta à mitologia em sua face trágica e grotesca: Saturno Devorando os Seus Filhos, 1820. Na Inglaterra, a obra do ilustrador e designer inglês Walter Crane (1845 - 1915) lança mão de motivos e personagens mitológicos, como Pandora Abre a Caixa e Belerofonte no Pégasus.

No século XX, temas mitológicos são retrabalhados sobretudo por artistas ligados ao simbolismo. A "pintura literária" de Gustave Moreau (1826 - 1898), por exemplo, focaliza civilizações e mitologias antigas (A Galatéia). Odilon Redon (1840 - 1916), que na década de 1890 se volta para a pintura, explora, vez ou outra, cenas mitológicas (Nascimento de Vênus, ca.1912). Nas obras metafísicas de Giorgio de Chirico (1888 - 1978), personagens mitológicos reaparecem em composições irônicas e patéticas, como manequins (Heitor e Andrômaca, 1917).

A pintura mitológica - entendida como a representação de personagens e cenas da antiguidade e mitologia greco-romanas - não conhece grande desenvolvimento na arte brasileira. No período colonial, encontram-se exemplos esporádicos desse gênero de pintura em residências particulares, como no forro do Solar do Ferrão, em Salvador, de autor anônimo. Vale lembrar também as esculturas Ninfa Eco e Caçador Narciso, realizadas por Mestre Valentim (ca.1745 - 1813) para ornamentar o Chafariz das Marrecas, no Rio de Janeiro. Entretanto, se a noção de mito for ampliada para englobar mitologias religiosas africanas e indígenas, seria possível pensar na mitologia dos orixás tal como representada na chamada arte afro-brasileira ou nos mitos indígenas incorporados ao folclore e à arte nacional.

Fontes de pesquisa (7)

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  • LEVEY, Michael. Pintura e escultura na França, 1700-1789. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Cosac & Naify, 318 p. Il p&b. Color [Yale University Press/ Pelican History of Art].
  • VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política. Tradução Cristina Murachco. São Paulo: Edusp, 2001, 517 p.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • PINTURA Mitológica. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3822/pintura-mitologica>. Acesso em: 24 de Mai. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7