Artigo da seção termos e conceitos Pintura Animalista

Pintura Animalista

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Definição
Como prática, a pintura animalista é uma das recorrências plásticas e gráficas mais antigas da história conhecida da humanidade. Seus exemplos mais precoces datam de dezenas de milhares de anos antes da era Cristã, como aqueles existentes em diversas cavernas europeias. As mais afamadas são Chauvet (ca.30.000 a.C.) e Lascaux (ca.15.000 a.C.), na França, e Altamira, na Espanha (ca.16.500 a.C.). Nesses lugares a representação isolada de animais está ligada a rituais de caça.

Depois, em regiões como a Assíria e o Egito, é atrelada a cultos religiosos, com imagens de gatos, crocodilos, escaravelhos, cachorros e falcões, que são elevados à categoria de divindades. Posteriormente, na Etrúria, durante os séculos VIII ao I a.C.; na Grécia, especialmente entre o século VII e IV a.C.; em pinturas de vasos do II e I milênios a.C.; e em Roma, dos séculos I a.C. ao I d.C., outros animais são objetos de culto, admiração ou ornamentação. Entre eles estão peixes, cavalos, touros, águias, leões, aves e suínos. A mesma recorrência é encontrada na pintura chinesa antiga, também anterior à era Cristã, cuja cultura artística continua influente séculos depois no Oriente, já que mantida como tema frequente e independente pela pintura japonesa a partir dos séculos XVI e XVII.

Se a periodização e influência unívocas da representação de animais como prática torna-se quase impossível, uma vez que todas as civilizações parecem ter se dedicado à criação dessa iconografia, o mesmo não ocorre com a sua identificação como um gênero artístico. Aceitar sua autonomia e sua história, é, ao menos na pintura ocidental, bem mais recente.

Ainda que animais continuem a ser pintados com frequência em países europeus desde a antiguidade, a maioria das imagens mais recentes esteve por muito tempo subordinada à tradição de representação da figura humana e de suas ações narradas na Bíblia.1 Exemplos nesse sentido podem ser vistos em diversas pinturas ou mosaicos em Ravena, como Sacrifício de Isaac (século VI); em Palermo, com Natividade (século XII); em Terni [Ferentillo], com Adão Nomeando os Animais (fim do século XII); em Assis, com São Francisco Entrega seu Manto (ca.1300), afresco de Giotto (1266-1337); e em Constantinopla, atual Istambul, com Viagem à Belém, na Igreja de Kahrié-Djami (século XIV), onde se encontram imagens de mulas, carneiros e vacas ligadas às passagens da vida de Cristo, da Sagrada Família ou dos santos.

Já a partir do século XV, mesmo sem se apresentar como tema central, animais passam a assumir recorrente valor de alegorias, além de figuração direta, destacando-se do velho e novo testamentos. Há imagens da serpente como uma alusão à tentação, do cordeiro como sacrifício ou inocência, do pombo como o Espírito Santo e do leão como coragem ou solidão, entre outras. São bastante conhecidos os exemplos de Jan Van Eyck (c.1395-1441) com o Políptico: A Adoração do Carneiro Místico (1426-1432) ou o Retrato dos Arnolfini (1434); O Casamento de Santa Catarina (1479), de Hans Memling (1430-1494); São Gerônimo em Sua Sala (1450-1479), de Antonello da Messina (1430-1479); e A Disputa do Santo Sacramento (1509), de Rafael (1483-1520), no Vaticano, entre outros.

É a partir do século XVII, todavia, que surge a construção de uma iconografia independente, que toma os animais como seu principal objeto de figuração. Se na França, nesse período, a criação da Academia Real de Pintura e Escultura manteve, como na pintura italiana precedente, uma hierarquia que concebia a pintura de animais como um gênero menor, abaixo da pintura histórica, religiosa, de gênero, do retrato e da paisagem, nos países baixos, em especial na Holanda, a formação de uma tradição artística laica, partindo da paisagem, se desdobrará em subgêneros independentes, com cenas de florestas, do inverno, de estradas, rios e, finalmente, de animais. Assim, não é possível separar a valorização da pintura animalista, como gênero, da valorização inicial da pintura de paisagem, sendo essa uma de suas expressões visuais.

Segundo Seymour Slive (1920), coube a Roelandt Savery (1577-1639) a popularização da tendência holandesa da pintura de animais e pássaros numa paisagem.2 Na pintura de Aelbert Cuyp (1620-1691), os rebanhos de vacas “podem ser vistos como alusões ao orgulho que os holandeses tinham de sua celebrada e lucrativa indústria de laticínios”.3 Na obra de outro holandês importante, Paulus Potter (1625-1654), como na de Cuyp, “vistas da natureza e de animais são apresentadas por seu valor intrínseco, e não como pano de fundo para a atividade humana”.4

A partir do século XVIII, percebe-se sua consolidação também em outros círculos artísticos, como na Inglaterra e mesmo na França. Neles surgem outras intenções representativas, promovidas por uma postura tradicionalmente rotulada como romântica que, em suma, considera em algumas de suas vertentes a força da natureza e de seus elementos como expressão da vontade e potência divinas, ou ainda como metáfora das interações humanas. São exemplares os trabalhos do pintor inglês George Stubbs (1724-1806), cuja fama liga-se ao interesse na representação de animais selvagens, contudo domados, como cavalos. Os do também inglês Edwin Landseer (1802-1873), especializado na pintura de animais domesticados e dignos, a exemplo de seus donos, como cachorros e gatos, ou mesmo os do escultor francês Antoine-Louis Barye (1795-1875), famoso por suas esculturas e pinturas de animais ferozes, atacando uns aos outros em ações que remetem à sobrevivência e à dominação, em alusão a valores sociais humanos.

A valorização do gênero animalista permanece contínua até o fim do século XIX quando, em diversos circuitos artísticos ocidentais, começam a ser repensadas as diretrizes formais e temáticas dos gêneros pictóricos.

Notas
1 Tradição motivada sobretudo pela Igreja Católica a partir de Roma e Bizâncio, logo nos primeiros séculos D.C.
2 SLIVE, Seymour. Pintura holandesa, 1600-1800. São Paulo: Cosac Naify, 1998. p.177-78.
3 Idem. Ibidem. p. 208.
4 Idem. Ibidem. p. 210.

Fontes de pesquisa (7)

  • ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução Denise Bottmann, Frederico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. xxiv, 709 p., il. color.
  • COOK, Clarence; WHEATON, Francis. Animal-painting as a specialty. The Monthly Illustrator, v. 5, n. 17, Sep., 1895, p. 338-344.
  • HUGUES, N. Animales en el arte. Paris: Buenos Aires: Editorial Larousse, 1952.
  • KULTZEN, Rolf. Justus Sustermans as an animal painter. The Burlington Magazine, v. 119, n. 886, Jan., 1977, p. 37-40.
  • POTTS, Alex. Natural order and the call of the wild: the politics of animal picturing. Oxford Art Journal, v. 13, n. 1, 1990, p. 12-33.
  • SKIIRA, Albert (org). Les grande siècles de la peinture. Suisse: Albert Skira, 1953. 11 v.
  • SLIVE, Seymour. Pintura holandesa, 1600-1800. São Paulo: Cosac Naify, 1998.

Como citar?

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  • PINTURA Animalista. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3820/pintura-animalista>. Acesso em: 27 de Mar. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7