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Neoconcretismo

  • Análise
  • Definição
    A ruptura neoconcreta na arte brasileira data de março de 1959, com a publicação do Manifesto Neoconcreto pelo grupo de mesmo nome, e deve ser compreendida a partir do movimento concreto no país, que remonta ao início da década de 1950 e aos artistas do Grupo Frente, no Rio de Janeiro, e do Grupo Ruptura, em São Paulo. Tributária das correntes abstracionistas modernas das primeiras décadas do século XX - com raízes em experiências como as da Bauhaus, dos grupo De Stijl [O Estilo] e Cercle et Carré, além do suprematismo e construtivismo soviéticos -, a arte concreta ganha terreno no país em consonância com as formulações de Max Bill, principal responsável pela entrada desse ideário plástico na América Latina, logo após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

    O contexto desenvolvimentista de crença na indústria e no progresso dá o tom da época em que os adeptos da arte concreta no Brasil vão se movimentar. O programa concreto parte de uma aproximação entre trabalho artístico e industrial. Da arte é afastada qualquer conotação lírica ou simbólica. O quadro, construído exclusivamente com elementos plásticos - planos e cores -, não tem outra significação senão ele próprio. Menos do que representar a realidade, a obra de arte evidencia estruturas e planos relacionados, formas seriadas e geométricas, que falam por si mesmos. A despeito de uma pauta geral partilhada pelo concretismo no Brasil, é possível afirmar que a investigação dos artistas paulistas enfatiza o conceito de pura visualidade da forma, à qual o grupo carioca opõe uma articulação forte entre arte e vida - que afasta a consideração da obra como "máquina" ou "objeto" -, e uma ênfase maior na intuição como requisito fundamental do trabalho artístico. As divergências entre Rio e São Paulo se explicitam na Exposição Nacional de Arte Concreta, São Paulo, 1956, e Rio de Janeiro, 1957, início do rompimento neoconcreto.

    O manifesto de 1959, assinado por Amilcar de Castro, Ferreira Gullar, Franz Weissmann, Lygia Clark, Lygia Pape, Reynaldo Jardim e Theon Spanudis, denuncia já nas linhas iniciais que a "tomada de posição neoconcreta" se faz "particularmente em face da arte concreta levada a uma perigosa exacerbação racionalista". Contra as ortodoxias construtivas e o dogmatismo geométrico, os neoconcretos defendem a liberdade de experimentação, o retorno às intenções expressivas e o resgate da subjetividade. A recuperação das possibilidades criadoras do artista - não mais considerado um inventor de protótipos industrais - e a incorporação efetiva do observador - que ao tocar e manipular as obras torna-se parte delas - apresentam-se como tentativas de eliminar certo acento técnico-científico presente no concretismo. Se a arte é fundamentalmente meio de expressão, e não produção de feitio industrial, é porque o fazer artístico ancora-se na experiência definida no tempo e no espaço. Ao empirismo e à objetividade concretos que levariam, no limite, à perda da especificidade do trabalho artístico, os neoconcretos respondem com a defesa da manutenção da "aura" da obra de arte e da recuperação de um humanismo.

    Uma tentativa de renovação da linguagem geométrica pode ser observada nas esculturas de Amilcar de Castro. Os cortes e dobras feitos em materiais rígidos como o ferro, evidenciam o trabalho despendido na confecção do objeto. Do embate entre o ato do artista - que busca traços precisos - e a matéria resistente, nasce a obra, fruto do esforço construtivo, mas também da emoção. Nas palavras de Castro: "Arte sem emoção é precária. Max Bill queria uma coisa tão fabulosamente pura, sem emoção". Nas séries dos Bilaterais e Relevos Espaciais, 1959, de Hélio Oiticica e nos Trepantes realizados por Lygia Clark na década de 1960, por exemplo, as formas conquistam o espaço de maneira decisiva para, logo em seguida, romper as distâncias entre o observador e a obra, como nos Bichos, criados por Lygia Clark e nos Livros, de Lygia Pape. A arte interpela o mundo, a vida e também o corpo, atestam o Ballet Neoconcreto, 1958, de Lygia Pape e os Penetráveis, Bólides e Parangolés criados por Oiticica nos anos 1960. A cor, recusada por parte do concretismo, invade as pesquisas neoconcretas, por exemplo nas obras de Aluísio Carvão, Hércules Barsotti, Willys de Castro e Oiticica. Estudos realizados sobre o tema frisam o lugar do movimento neoconcreto como divisor de águas na história das artes visuais no Brasil; um ponto de ruptura da arte moderna no país, diz o crítico Ronaldo Brito.

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Fontes de Pesquisa

BRITO, Ronaldo. Neoconcretismo: vértice e ruptura do projeto construtivo brasileiro. 2. ed. São Paulo: Cosac & Naify, 1999. 110 p. (Espaço da arte brasileira).

CASTRO, Amilcar de. Amilcar de Castro: depoimentos. Belo Horizonte: C/Arte, 1999. 95 p., il. color. (Circuito atelier, 5).

INSTITUTO ITAÚ CULTURAL. Abstracionismo: marcos históricos. São Paulo: Instituto Cultural Itaú, 1993. 39 p., il. color. (Cadernos história da pintura no Brasil, 4).

TASSINARI, Alberto (org.). Amilcar de Castro. Texto Rodrigo Naves; ensaio Ronaldo Brito; versão em inglês Oswaldo S. Costa; apresentação Alberto Tassinari. São Paulo: Tangente, 1991. 175 p., il. p&b. (Goeldi).