Artigo da seção termos e conceitos Neocolonial

Neocolonial

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  
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Reabertura do Largo da Memória (São Paulo, SP) , 1922 , Guilherme Gaensly
Romulo Fialdini/Itaú Cultural

Definição
"Não procurem ver, meus senhores, nesta veneração tradicionalista, diluída em nostálgica poesia do passado, uma manifestação de saudosismo romântico e retrógrado. Com efeito, para criar uma arte que seja nossa e de nosso tempo cumprirá, qualquer que seja a orientação, que não se pesquisem motivos, origens, fontes de inspiração para muito longe de nós próprios, do meio em que decorreu o nosso passado e no qual terá que prosseguir o nosso futuro". Essas palavras, proferidas em 1914 pelo engenheiro português Ricardo Severo na conferência A Arte Tradicional no Brasil, realizada na Sociedade de Cultura Artística de São Paulo, constituem o marco inaugural do movimento neocolonial, que tenta propor novas bases para a modernização da arquitetura no Brasil. A orientação nacionalista do movimento se explicita, entre outros aspectos, na defesa das manifestações artísticas tradicionais como expressões da nacionalidade e elementos de constituição da arquitetura brasileira. Por meio do rastreamento das origens portuguesas da cultura brasileira, Severo defende o estudo da arte colonial para a "perfeita cristalização da nacionalidade". O culto à tradição e a exaltação das raízes culturais e étnicas portuguesas estão na base da defesa de uma arte brasileira e de um "renascimento arquitetônico", nos termos de Severo. Contrapondo-se ao ecletismo arquitetônico reinante nos séculos XIX e XX, o movimento neocolonial propõe uma arquitetura de cunho nacional cujas raízes remontam ao Brasil colônia. Reação nacionalista que se quer, ao mesmo tempo, tradicional e moderna.

O interesse renovado pelo estilo colonial nas primeiras décadas do século XX pode ser observado não apenas no Brasil, mas em diversos países da América Latina, de modo geral associado às comemorações dos movimentos de independência nacional. No México, Peru, Colômbia, Venezuela e países da América Central nota-se a retomada - utópica e, de certo modo, nostálgica - de motivos decorativos, elementos ornamentais e estilos presentes na tradição e cultura dos povos autóctones (incas, maias, astecas etc.), numa tentativa de substituir o vocabulário eclético importado da Europa no século XIX. No Brasil, a ausência de uma arquitetura indígena que pudesse ser resgatada impõe a retomada do barroco e do rococó. Severo prega a necessidade de um retorno às obras de Mestre Valentim e de Aleijadinho, bem como às construções do século XVIII português. O Palacete Numa de Oliveira, 1916, na avenida Paulista, projetado por Severo, é considerado um dos primeiros e mais importantes exemplares da arquitetura residencial em estilo neocolonial. Entre 1920 e 1924, Severo projeta ainda a Casa Lusa, também em São Paulo, e a Casa Praiana, no Guarujá. Em 1926, é responsável pelos planos da Beneficência Portuguesa de Campinas e de Santos, além da Casa José Moreira, edifício comercial localizado na avenida São João, em São Paulo. A última obra neocolonial importante de Severo é o edifício da Faculdade de Direito de São Paulo, inaugurado em 1939.

A campanha neocolonial - impulsionada por publicações como o jornal O Estado de S. Paulo e a Revista do Brasil - encontra ampla acolhida num contexto intelectual fortemente marcado pelo nacionalismo, reverberando em eventos posteriores importantes como a Exposição do Centenário da Independência no Rio de Janeiro (alguns dos pavilhões foram projetados no espírito do neocolonial) e a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, ambas ocorridas em 1922. Escritores como Monteiro Lobato, Ribeiro Couto, Manuel Bandeira e Mário de Andrade, além artistas e arquitetos como Wasth Rodrigues, Alexandre Albuquerque, Adolfo Pinto Filho, Ernesto da Cunha Araújo Vianna, Heitor de Melo, Archimedes Memória, Rafael Galvão, entre outros, aderem de imediato ao movimento. Nesse grupo destacam-se o médico e historiador da arte José Mariano Filho - segundo algumas fontes, o responsável pela denominação neocolonial - e Lucio Costa, que se liga ao movimento entre 1917 e 1930, e depois se engaja no chamado movimento moderno da arquitetura brasileira.

A atuação de Mariano Filho à frente da campanha neocolonial é intensa. Na condição de presidente da Sociedade Brasileira de Belas Artes, patrocina viagens de arquitetos às cidades mineiras (Costa visita Diamantina; Nestor de Figueiredo, Ouro Preto; e Nereu Sampaio, São João Del-Rey e Congonhas do Campo). Além disso, sua influência no governo faz com que o neocolonial vire uma espécie de pauta obrigatória nos concursos e construções oficiais, como mostra, entre outros, os projetos dos pavilhões do Brasil na Exposição da Filadélfia, 1925, e na Exposição de Sevilha, 1928, diretamente inspirados na arquitetura tradicional brasileira. Costa adere ao neocolonial ainda estudante e, entre 1921 e 1924, concebe cinco projetos afinados com o estilo, entre eles o Pavilhão das Grandes Indústrias da Exposição do Centenário da Independência, no Rio de Janeiro, o plano de Portão, Banco e Solar Brasileiro, realizado para o concurso do Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB, e a Residência Raul Pedrosa, em parceria com Fernando Valentim. O francês Victor Dubugras é outro nome consagrado do movimento neocolonial, responsável pela reurbanização do largo da Memória, em 1919 - primeira obra pública do arquiteto em estilo tradicional -, e por diversos monumentos projetados para o Caminho do Mar, em 1922, ambos em São Paulo, considerados obras-primas da arquitetura neocolonial no Brasil.

A despeito das controvérsias interpretativas que mobilizam os estudiosos do assunto - que ora enfatizam o corte abrupto do movimento moderno com o neocolonial, ora vêem o neocolonial como uma transição e etapa necessária para o moderno -, o fato é que tanto o neocolonial quanto o movimento moderno estão envolvidos nas tentativas de recuperação da tradição e nos impasses nela implicados. Como conciliar tradição e modernidade é o desafio colocado pelos dois movimentos e seus adeptos.

Obras de Neocolonial: (3) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (4)

  • SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil: 1900-1990. São Paulo: Edusp, 1998, 224 pp, il. p&b.
  • AMARAL, Aracy (org). Arquitetura neocolonial. América Latina, Caribe, Estados Unidos. São Paulo ; México : Memorial da América Latina ; Fondo de Cultura Económica, 1994, 334 pp. il. p&b.
  • LIRA, José Correia Tavares. Mocambo e cidade. O regionalismo na arquitetura e ordenação do espaço habitado. 1996. 433p. Tese (Doutorado) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - FAU/ USP, São Paulo, 1996.
  • SILVA, Joana Mello de Carvalho. Ricardo Severo: nacionalismo e tradicionalismo na arquitetura, Porto - São Paulo, 1884-1940. Relatório de Qualificação, Mestrado, Departamento de Arquitetura e Urbanismo, Escola de Engenharia de São Carlos, USP, 2003, 216 pp. il. p&b

Como citar?

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  • NEOCOLONIAL . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3809/neocolonial>. Acesso em: 18 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7