Artigo da seção termos e conceitos Pré-rafaelitas

Pré-rafaelitas

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  
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A Dança das Oréades , 1899 , Eliseu Visconti
Reprodução fotográfica Romulo Fialdini

Definição

Em 1848 um grupo de jovens artistas ligados à Royal Academy de Londres funda a Irmandade Pré-Rafaelita, são eles: John Everett Millais (1829-1896), William Holman Hunt (1827-1910) e Dante Gabriel Rossetti (1828-1882). Com o caráter de sociedade secreta, o grupo almeja realizar uma reforma na arte britânica mediante a recuperação do modelo dos pintores florentinos do Quattrocento. Em sua tarefa o grupo é conduzido pela mesma preocupação com a sinceridade e o mesmo incômodo em relação ao preciosismo da arte oficial, que leva na França os pintores do grupo de Barbizon e Courbet na direção do realismo. Ao contrário destes, os pré-rafaelistas propõem como solução ao artificialismo da arte acadêmica a retomada dos pintores anteriores a Rafael (1483-1520), para eles o responsável por toda a insinceridade da arte diante da natureza. Trata-se então de voltar ao tempo em que os artistas eram artífices "sinceros e fiéis à obra de Deus", a natureza, e se empenhavam em copiá-la de modo simples e direto, sem o filtro das formas pre-estabelecidas da pintura acadêmica.

Além dos artistas fundadores, integram a fraternidade o pintor James Collinson (1825-1881), o escultor Thomas Woolner (1825-1892) e os críticos W.M. Rossetti (1829-1919) e Frederick George Stephens (1828-1907). Desde o início, o movimento também tem pretensões literárias. Admiradores dos poetas John Keats e Alfred Lord Tennyson, o grupo lança em 1850 o periódico escrito em prosa e verso The Germ [O Germe]. A revista dura quatro números e termina no mesmo ano. Além de poemas, inclusive de membros da Irmandade, o órgão literário editado por W.M. Rossetti ajuda a divulgar as teorias do grupo. Dante Rossetti, um dos mais talentosos pré-rafaelitas, assim resume seus objetivos: "ter idéias genuínas para se expressar; estudar atentamente a natureza, de modo a saber como expressá-la; simpatizar com toda arte anterior produzida de modo direto, sério e sincero, e nunca com obras convencionais e ostentatórias ou com técnicas aprendidas de modo mecânico; e, o mais importante, produzir pinturas e estátuas consumadamente boas". Tais objetivos levam os artistas ao uso de uma técnica clara, brilhante e nítida. Com relação aos temas, posto que eram totalmente avessos à pintura de gênero, eles retomam os assuntos religiosos e elevados da arte medieval e do primeiro renascimento.

O quadro Ecce Ancilla Domini (1849-1850) de D.G. Rossetti revela bem a atitude dos pré-rafaelitas. Nessa pintura o artista busca apresentar o momento da Anunciação, usualmente representado segundo o modelo medieval. Contudo, o artista descarta esse modelo, negando a cópia pura e simples dos mestres medievais. Para ele, trata-se de recuperar o espírito desses mestres, que significa antes de tudo ler a narrativa bíblica com um coração devoto e visualizar a cena com sinceridade e singeleza, interpretando-a através de sua própria sensibilidade, mas com a máxima fidelidade e detalhismo.

As iniciais PRB (Pré-Raphaelite Broterhood - Irmandade Pré-Rafaelita) são usadas pela primeira vez na pintura A Infância de Maria Virgem de D.G. Rosssetti em 1849, e logo são adotadas pelos outros pintores. Ao se decifrar o significado da sigla em 1850, diversas críticas públicas são feitas aos pré-rafaelitas. Charles Dickens condena a rejeição explícita do grupo a Rafael, e enxerga a volta aos artistas italianos primitivos como um retorno à feiúra. Mas John Ruskin (1819-1900), o mais influente crítico de arte inglês do período, defende com êxito os pré-rafaelitas dos ataques grosseiros de Dickens.

Apesar de atrair diversos seguidores, a Irmandade se desfaz em 1853. Seus integrantes tomam caminhos diferentes e somente Rossetti leva adiante o nome do grupo, conquanto suas obras posteriores diferissem em essência de suas pinturas pré-rafaelitas. Hunt é o único que continua fiel aos ideais plásticos do movimento, publicando em 1905 o principal livro relacionado à fraternidade, a autobiografia Pré-Raphaelitism and the Pre-Raphaelite Brotherhood. Millais é o mais bem-sucedido entre eles já com uma pintura bem ao gosto popular: em 1885 torna-se o primeiro artista a receber o título de baronete e no ano de sua morte é eleito presidente da Royal Academy. Na década de 1860 há uma segunda vaga de pré-rafaelismo pseudo-medieval na Inglaterra, com pinturas que evocam imagens de uma Idade Média romântica. Um pintor como John Melhuish Strudwick (1849-1937) ainda pinta dentro dessa vertente no início do século XX.

No Brasil seria interessante investigar mais detidamente a relação de algumas obras de Eliseu Visconti (1866-1944) e Ismael Nery (1900-1934) com a estética pré-rafaelita.

Representação (2)

Fontes de pesquisa (3)

  • ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução Denise Bottmann, Frederico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
  • CHILVERS, Ian (org.). Dicionário Oxford de arte. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  • GOMBRICH, E.H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 1999.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • PRÉ-RAFAELITAS . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3744/pre-rafaelitas>. Acesso em: 24 de Abr. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7