Artigo da seção termos e conceitos Pintura ao Ar Livre

Pintura ao Ar Livre

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Definição
O termo faz referência à pintura feita ao ar livre que se populariza no século XIX com o desenvolvimento de novos equipamentos, como a bisnaga descartável para a embalagem de tinta, criada em 1841 e logo produzida comercialmente. A disponibilidade de tintas prontas encoraja os artistas a experimentarem novos tons e a saírem dos ateliês. Prática comum na segunda metade do século XIX, associada diretamente ao impressionismo - e aos nomes de Claude Monet, Pierre Auguste Renoir, Alfred Sisley, Frédéric Bazille, Camille Pissarro, Paul Cézanne, Edgar Degas, Berthe Morisot e Armand Guillaumin -, a pintura ao ar livre foi realizada anteriormente e suas raízes remontam ao interesse dos pintores pelas "paisagens reais", mais evidente a partir do século XVII quando a paisagem firma-se como gênero - ainda que "menor" - na hierarquia acadêmica.

O deslocamento dos artistas por meio de viagens frequentes estimula o registro feito da observação direta: desenhos, croquis e esboços. Esses estudos servem, no ateliê, para a composição das paisagens, em que elementos da observação se mesclam à imaginação e ao gosto do artista. O contato cada vez mais intenso com a paisagem observada de perto - e o simultâneo desinteresse pelas paisagens alegóricas e míticas - provoca uma renovação no gênero paisagístico, que se consolida no início do século XIX.

Os nomes de John Constable e Joseph Mallord William Turner são referências primeiras para a compreensão do desenvolvimento do gênero. Marcado pelos paisagistas holandeses do século XVII, Constable afasta-se das convenções pictóricas do paisagismo inglês do século XVIII ao representar na tela as mudanças de luz ao ar livre e o movimento das nuvens no céu, em telas como A Represa e o Moinho de Flatford, 1811. Sua pintura capta as variações da natureza, recusando assim a ideia de um espaço universal e imutável. Em suas palavras: "Não há dois dias iguais, nem mesmo duas horas; e nunca houve duas folhas iguais desde a criação do mundo". As referências de Turner são outras - a paisagem clássica de Claude Lorrain e as perspectivas de Canaletto -, mas em suas telas observa-se interesse idêntico pelo espaço atmosférico e pelo fenômeno da luz. Porém nos quadros de Turner - influenciado pela idéia de sublime -, a luz explode numa espécie de turbilhão, inundando a tela, como em Mar em Tempestade, 1840. O nome de Richard Parkes Bonington merece ser lembrado no paisagismo inglês, renovado por Constable e Turner, em razão de seu estilo espontâneo e de seus esboços a óleo feitos rapidamente para o registro dos fenômenos naturais (conhecidos como pochades).

O grupo de paisagistas franceses reunidos na Escola de Barbizon, a partir de 1830, usa sistematicamente a observação direta da natureza como recurso para as cenas que produz. Charles François Daubigny, Narcisse Virgile Diaz de la Peña, Jules Dupré, Charles Émile Jacque e Constant Troyon, com a liderança de Théodore Rousseau, exploram ao máximo os aspectos mutáveis do mundo natural. A intimidade e o convívio com a natureza nos arredores de Fontainebleau sinalizam a recusa do grupo ao artificialismo da vida urbana. Jean-Baptiste-Camille Corot, embora frequentemente associado ao grupo, se afasta sobretudo por sua dicção realista que descarta qualquer idealização romântica da paisagem natural. Gustave Courbet deve ser mencionado como mais um adepto da pintura ao ar livre, em sua defesa da pintura como arte da verdade, afastada de qualquer tipo de ilusionismo.

A renovação estilística empreendida pelo impressionismo encontra suas matrizes nos trabalhos precursores de Turner e Constable, nos artistas da Escola de Barbizon e nas paisagens de Corot e Courbet, partidários de novas formas de registro da natureza. Com os impressionistas, a pintura é realizada plenamente ao ar livre - e não apenas desenhos e esboços -, o que provoca uma alteração radical nas representações da natureza. Neles, observa-se uma preferência pela experiência contemporânea e pela observação da natureza com base em impressões pessoais e sensações visuais imediatas. A suspensão dos contornos e dos claros-escuros em prol de pinceladas fragmentadas e justapostas, assim como o aproveitamento máximo da luminosidade e o uso de cores complementares, favorecidos pela pintura ao ar livre, tornam-se-iam as marcas do novo estilo pictórico. As paisagens de Monet, que privilegiam o movimento das águas e seus reflexos, explorados em regatas, barcos e portos (por exemplo, a série de pinturas realizada em Argenteuil e La Grenouillère nas décadas de 1860 e 1870), são emblemáticas dos rendimentos da pintura ao ar livre.

No Brasil, Manuel de Araújo Porto-Alegre na metade do século XIX, propõe a pintura ao ar livre na reforma da Academia Imperial de Belas Artes - Aiba. Além disso, paisagistas de diferentes períodos e orientações - como Antônio Parreiras, Georg Grimm e Castagneto - exercitam a pintura ao ar livre.

Fontes de pesquisa (6)

  • ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução Denise Bottmann, Frederico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. xxiv, 709 p., il. color.
  • PERFIL da Coleção Itaú. Prefácio Olavo Egydio Setubal; curadoria e texto Stella Teixeira de Barros. São Paulo: Itaú Cultural, 1998. 256 p., fotos color.
  • CHILVERS, Ian (org.). Dicionário Oxford de arte. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 584 p.
  • DICIONÁRIO da Pintura Moderna. Tradução Jacy Monteiro. São Paulo: Hemus, 1981. 380 p., il. p.b.
  • FRASCINA, Francis, BLAKE, Nigel, FER, Briony. Modernidade e modernismo: a pintura francesa no século XIX. Tradução Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Cosac & Naify, 1998. 345 p., il. p&b., color. (Arte Moderna : práticas e debates, 1).
  • LA NUOVA Enciclopedia Dll´Arte Garzanti. Milano: Garzanti Editore, 1986. 1112 p. il. p&b. color.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • PINTURA ao Ar Livre. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3643/pintura-ao-ar-livre>. Acesso em: 27 de Jun. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7