Artigo da seção termos e conceitos Cartografia Colaborativa

Cartografia Colaborativa

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Definição
Em meados dos anos 2000 a internet passa por uma importante transformação das ferramentas disponíveis para a geração de conteúdo, busca e compartilhamento de arquivos e sociabilidade entre usuários. Um novo paradigma, chamado Web 2.0 - termo popularizado pelo empresário e ativista Tim O'Reilly (1954) -, surge com a acumulação de novas ferramentas e linguagens de programação que permitem uma experiência mais dinâmica na rede: as páginas, antes estáticas, podem receber atualizações em tempo real e disponibilizar novos conteúdos assim que os usuários entram em um ambiente virtual. Nessa mesma época surgem os primeiros smartphones, aparelhos móveis conectados à rede.

É neste novo ambiente que surgem as primeiras plataformas de cartografia colaborativa na internet: o termo surge para definir o mapeamento ou a exploração de uma região, feito de forma coletiva e descentralizada. Com essa possibilidade de escrita e visualização de mapas na rede, torna-se possível não só destacar regiões e incluir informações técnicas, históricas, culturais e críticas, como reinterpretar o território com base em perspectivas sensíveis às comunidades de interesse.

De acordo com o teórico de mídia e cultura, escritor e comunicador Douglas Rushkoff (1964) existiriam duas grandes vertentes da cartografia colaborativa: por um lado as plataformas criadas pelas grandes corporações como Google (Google Maps e Google Earth), Yelp e Apple, e de outro as iniciativas independentes que incluem experimentações artísticas e pesquisas sociais.

As iniciativas independentes são geralmente desenvolvidas por organizações não governamentais (ONGs), artistas, coletivos e núcleos de pesquisa tendo em vista obter o que o professor e pesquisador André Lemos (1962) chama de “geolocalização”, além de tornar possível “reescrever as cidades de um modo multidirecional”.1 Lemos, um dos principais interlocutores brasileiros nos debates do impacto social das tecnologias móveis e das novas práticas de mapeamento on-line, também desenvolve diversas plataformas experimentais de cartografia colaborativa, como Sur-Viv-All, em 2008, junto à designer e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Mari Fiorelli e o designer canadense Rob Shields. Wi-Fi Salvador é outro projeto no qual Lemos participa junto ao Grupo de Pesquisa em Cibercidade (GPC) da UFBA, mapeando de forma colaborativa os pontos de conexão à internet sem fio da cidade de Salvador, Bahia.

No Brasil, uma das pioneiras na experimentação artística com mapas digitais é a professora e artista Lúcia Leão (1963). Em 2002, na ocasião da Bienal Internacional de São Paulo, a artista exibe o projeto Plural Maps, uma plataforma construída em VRML [Linguagem para Modelagem para Realidade Virtual] em que usuários poderiam contribuir com imagens, sons e textos para a construção de um mapa sensível e labiríntico da cidade de São Paulo. Lúcia Leão persiste em sua pesquisa em cartografias colaborativas em 2005 com o projeto Hermenetka e em 2008 com Mapeando Lençóis.

Outra iniciativa inaugural no Brasil é o site Overmundo, que integra diversas ferramentas para o mapeamento colaborativo na geração de seu conteúdo. Lançado em 2006 pelo antropólogo Hermano Vianna (1960), o professor de direito Ronaldo Lemos (1976), o cientista político José Marcelo Zacchi (1975) e o produtor cultural Alexandre Youssef (1974), o Overmundo é um site de cultura brasileira cujas reportagens, recomendações e agenda cultural são geradas pelos próprios usuários. Com o objetivo de dar mais visibilidade ao calendário cultural fora das capitais, o site agrega em mapas eventos e produções de diversos estados do Brasil.

Uma proposta específica para o campo das artes visuais é a plataforma Arte Fora do Museu, criada em 2011 pelos jornalistas Felipe Lavignatti (1979) e André Deak (1978). Vencedor do edital Cartografias Colaborativas da Funarte, em 2012, o Arte Fora do Museu mapeia monumentos e obras de arte no espaço público de forma colaborativa, além de permitir a criação e o compartilhamento de roteiros por diversas cidades do Brasil, da América Latina, dos Estados Unidos e da Europa. Em sua fase inicial, o Arte Fora do Museu conta com o apoio do Instituto Tomie Ohtake, Pinacoteca do Estado de São Paulo (Pesp), Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP) e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie para que fosse criado um mapeamento compreensivo da cidade de São Paulo. Em sua segunda fase de desenvolvimento, o website passa a aceitar o ingresso de usuários para a criação de novos mapas, além de incluir um aplicativo próprio para celulares.

A característica de organização descentralizada e acumulativa de diversas plataformas de mapeamento on-line permite que as informações geradas também facilitem o ativismo político e o diálogo com o poder público. Websites como Canal Motoboy, Transporte Ativo, Estação Carijós e Protestos BR permitem a visualização de dados como violência urbana, condições das vias públicas e sistema de transporte, incidência de conflitos e problemas ambientais, entre outros, envolvendo as comunidades afetada na coleta, interpretação e divulgação pública dos dados.

Nota

1 LEMOS, André. Arte e mídia locativa no Brasil. In BAMBOZZI, Lucas; BASTOS, Marcus; MINELLI, Rodrigo. Mediações, tecnologia e espaço público: panorama crítico de arte em mídias móveis. São Paulo: Conrad, 2010.

Fontes de pesquisa (8)

  • DODGE, Martin, KITCHIN, Rob. Rethinking maps: progress in human geography,  2007; 31; 331. Disponível em: http://phg.sagepub.com/cgi/content/abstract/31/3/331. Acesso em 1 jun. 2011.
  • GUATTARI, Felix. Espaço e poder: a criação de territórios na cidade. Espaço e Debates, n. 16, ano V. São Paulo: Cortez, 1985.
  • LEÃO, Lucia. Derivas: cartografias do ciberespaço. São Paulo: Annablume, 2004.
  • LEIRIAS, Ana Gabriela. Novas cartografias on-line: arte, espaço e tecnologia.  Bolsa Funarte para Reflexão Crítica e Produção Cultural para Internet, Curitiba, 2011. Disponível em: http://issuu.com/cartografiasonline/docs/cartografiasonline. Acesso em: 13 jan. 2014.
  • LEMOS, André. Arte e mídia locativa no Brasil. In: BAMBOZZI, Lucas; BASTOS, Marcus; MINELLI, Rodrigo. Mediações, tecnologia e espaço público: panorama crítico de arte em mídias móveis. São Paulo: Conrad, 2010.
  • LEMOS, André; PASTOR, Leonardo; OLIVEIRA, Nelson. Wi-fi Salvador: mapeamento colaborativo e redes sem fio no Brasil. Intercom – RBCC. São Paulo, v. 35, n. 1, p. 183-204, jan.-jun. 2012.
  • ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental, transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina: Editora da UFRGS, 2007.
  • RUSHKOFF, Douglas. Honey, I geotagged the kids. The Feature Magazine, 2005. Disponível em: http://www.thefeaturearchives.com/101490.html. Acesso em: 13 jan. 2014.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CARTOGRAFIA Colaborativa. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo332/cartografia-colaborativa>. Acesso em: 13 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7