Artigo da seção termos e conceitos Nabis

Nabis

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Definição
O grupo de pintores franceses batizados como nabis (do hebraico, nabis "profetas") pelo poeta Henri Cazalis (1840 - 1909) atua em Paris na década de 1890, sob inspiração direta de Paul Gauguin (1848 - 1903) pelo uso expressivo da cor e dos padrões rítmicos que caracterizam sua obra. A criação do grupo dá-se em um contexto atravessado por releituras críticas do impressionismo, cujos grandes mestres - Claude Monet (1840 - 1926), Pierre-Auguste Renoir (1841 - 1919) e Edgar Degas (1834 - 1917) - mantêm-se em franca atividade. O simbolismo de Gustave Moreau (1826 - 1898) e Odilon Redon (1840 - 1916) surge paralelamente ao neoimpressionismo de Georges Seurat (1859 - 1891) e de Paul Signac (1863 - 1935) e ambos se apresentam como tentativas de superação da pura visualidade defendida pelo impressionismo. Enquanto a pintura de timbre espiritualista dos simbolistas almeja ser a expressão da vida interior, a pintura neoimpressionista explicita uma tentativa de fundar a pintura sobre leis científicas da visão.

Outra tentativa de ampliar o programa impressionista foi empreendida, um pouco mais tarde, pelo pós-impressionismo de Gauguin, Paul Cézanne (1839 - 1906) e Vincent van Gogh (1853 - 1890). Gauguin descobre o caráter original das obras de Cézanne, explorando, como ele, um estilo antinaturalista. Mas o faz pelo uso de amplas áreas de cores puras e planas, emolduradas por contornos precisos, que se revela nas pinturas realizadas em Pont-Aven. O sintetismo de Gauguin - com simplificação das formas e purificação expressiva - é descoberto por Paul Sérusier (1864 - 1927) em Pont-Aven, que tenta combiná-lo às formulações simbolistas em sua obra O Bosque do Amor e O Talismã, 1888, e no movimento nabis que funda com Maurice Denis (1870 - 1943), Pierre Bonnard (1867 - 1947) e Edouard Vuillard (1868 - 1940). Nesse sentido, o grupo dos "profetas" almeja alcançar uma síntese das principais correntes da época, combinando as soluções formais do cloisonismo de Gauguin com a  relação estreita entre poesia e pintura defendida pelos simbolistas. Trata-se de apresentar uma nova reação ao naturalismo impressionista, pelo uso emocional da cor e distorção da linha.

Os artistas que se reúnem no grupo nabis, muito diferentes entre si, têm na La Revue Blanche, com a qual colaboram freqüentemente, um de seus pontos de encontro. A primeira exposição conjunta, na galeria do marchand Le Barc de Bouteville, 1892, por sua vez, marca a existência de uma atuação conjunta. O principal teórico dos nabis é Denis, defensor de uma essência espiritual da arte e responsável pelo resgate da pintura religiosa. No artigo Definição do Neotradicionalismo, 1890, Denis diz ser a pintura "essencialmente uma superfície plana coberta de cores organizadas segundo uma certa ordem" o que constitui, paradoxalmente, uma das primeiras defesas "formalistas" da arte moderna. Vuillard também faz da obra de Gauguin uma inspiração primeira, tentando combiná-la à poética de Stéphane Mallarmé (1842 - 1898). É sobretudo um pintor de interiores íntimos, sensível à vibração das cores num espaço fechado - Interior com Mulheres e  Painel da Casa do Doutor Vaquez, 1896. A amizade com Vuillard leva Bonnard a se aproximar do círculo artístico-literário de Mallarmé (aprofundando as afinidades entre pintura e poesia) e a se interessar pelas cenas domésticas e espaços interiores. As composições de Bonnard, assinala Giulio Carlo Argan, fazem das relações visuais entre os elementos do quadro relações psicológicas que apelam aos processos da vida interior, ao "sentido profundo do tempo, da memória, da imaginação e da matéria" (entre outros, O Movimento da Estrada, 1905, A Toalete da Manhã, 1914, Nu no Espelho, 1933).                       

Aristide Maillol (1861 - 1944) expõe com os nabis antes de se dedicar à escultura A Noite, 1902. O músico Claude Debussy (1862 - 1918) também é ligado ao grupo, cujos membros atuam no teatro, na produção de pôsteres, vitrais e ilustração de livros. A exposição organizada com os simbolistas na galeria Durand-Ruel, em 1899, é a última apresentação coletiva dos artistas que se dispersam a partir de 1900. Apesar de sua curta existência, o grupo dos nabis deixa um legado que tem a ver com a consciência mais precisa da superfície pictórica, com a exploração da linhas sinuosas e com o jogo entre manchas de cor e contornos marcados que vão reverberar no estilo art nouveau. No Brasil, parece difícil falar em influências dos nabis. A menção dos críticos aos pós-impressionistas aparece de forma localizada na pintura de Zina Aita (1900-1967) ou nas cores de Anita Malfatti (1889-1964), aproximadas em certas leituras dos tons de Van Gogh e Gauguin.

Fontes de pesquisa (5)

  • ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução Denise Bottmann, Frederico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
  • CHILVERS, Ian (org.). Dicionário Oxford de arte. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  • DICIONÁRIO DA PINTURA MODERNA. Tradução Jacy Monteiro. São Paulo: Hemus-Livraria Editora, 198. 380p. il. p&b.
  • LA NUOVA ENCICLOPEDIA DELL'ARTE GARZANTI. Milão: Garzanti Editore, 1986. 1112p. il. p&b, color.
  • THOMSON, Belinda. Pós-impressionismo. São Paulo: Cosac & Naify, 2001, 80p. il. color. (Movimentos da Arte Moderna)

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • NABIS . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3289/nabis>. Acesso em: 21 de Abr. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7