Artigo da seção termos e conceitos Apropriação

Apropriação

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Definição
O termo é empregado pela história e pela crítica de arte para indicar a incorporação de objetos extra-artísticos, e algumas vezes de outras obras, nos trabalhos de arte. O procedimento remete às colagens cubistas e às construções de Pablo Picasso (1881-1973) e Georges Braque (1882-1963), realizadas a partir de 1912. Nesse momento do cubismo sintético, elementos heterogêneos - recortes de jornais, pedaços de madeira, cartas de baralho, caracteres tipográficos, entre outros - são agregados à superfície das telas. As apropriações, na base das colagens, representam um ponto de inflexão na arte do século XX, na medida em que libertam o artista do jugo da superfície. Desde esse momento, a técnica é largamente empregada em diferentes escolas e movimentos artísticos, com sentidos muito variados. Picasso encontra no novo recurso um instrumento de experimentação inigualável, que tem início com Copo e Garrafa de Suze, 1912.

Apropriações são feitas por Marcel Duchamp (1887-1968) em seus ready-mades, construídos com a utilização inusitada de elementos da vida cotidiana. Com esse procedimento, Duchamp transforma qualquer objeto escolhido ao acaso em obra de arte, em uma crítica radical ao sistema da arte, em consonância com o espírito do dadaísmo. Objetos utilitários sem nenhum valor estético em si são retirados de seus contextos originais e elevados à condição de obra de arte ao ganhar uma assinatura e um espaço em exposições, museu ou galeria. Por exemplo, a roda de bicicleta que encaixada num banco vira Roda de Bicicleta, 1913, ou um mictório que invertido se apresenta como Fonte, 1917, ou ainda os bigodes colocados na Gioconda [Mona Lisa], 1503/1506, de Leonardo da Vinci (1452-1519) que fazem dela um ready-made retificado, o L.H.O.O.Q., 1919 - lidas em francês essas letras formam a frase Elle lâche au cul. Os trabalhos de Kurt Schwitters (1887-1948) fornecem outro exemplo dos rendimentos que têm a apropriação em contexto dadaísta. Neles, a ênfase recai sobre elementos e materiais diversos - sobretudo lixo e sucata -, como mostram as obras Merz, 1919. "A pintura Merz", diz ele, "não utiliza só a cor e a tela, o pincel e a paleta, senão todos os materiais percebidos pelos olhos e todas as ferramentas necessárias".

Diversos artistas surrealistas fazem uso de apropriações. Colagens e assemblages, montadas com base em materiais heterogêneos, expressam a lógica de produção surrealista, amparada na idéia de acaso e de escolha aleatória, princípios centrais de criação para os dadaístas. A célebre frase de Lautréamont (1846-1870) é emblemática dessa direção dos experimentos surrealistas: "belo como o encontro casual entre uma máquina de costura e um guarda-chuva numa mesa de dissecção". A sugestão do escritor se faz notar na justaposição de objetos desconexos e nas associações à primeira vista impossíveis que particularizam as colagens e objetos surrealistas. Que dizer de um ferro de passar cheio de pregos, de uma xícara de chá coberta de peles ou de uma bola suspensa por corda de violino? O Camarão Telefone, 1936 - literalmente um aparelho telefônico com um grande camarão rosado posto sobre ele - de Salvador Dalí (1904-1989), é um dos muitos exemplos das apropriações surrealistas.

Nas décadas de 1950 e 1960, a apropriação torna-se um procedimento corrente nas artes visuais. As assemblages, orientadas por uma "estética da acumulação" (todo e qualquer tipo de material pode ser incorporado à obra de arte), se disseminam. A idéia forte que ancora as assemblages diz respeito à concepção de que os objetos díspares reunidos na obra, ainda que produzam um conjunto outro, não perdem seu sentido primeiro. Menos que síntese, trata-se de justaposição de elementos, em que é possível identificar cada peça no interior do arranjo mais amplo. Em 1961, a exposição The Art of Assemblage, realizada no The Museum of Modern Art (MoMA) [Museu de Arte Moderna] de Nova York, reúne obras de Jean Dubuffet (1901-1985), as combine paintings de Robert Rauschenberg (1925-2008) e a junk sculpture, o que leva a pensar que o recurso da assemblage é utilizado a partir dos anos 1950 e 1960, na Europa e Estados Unidos, por artistas muito diferentes entre si. As assemblages de Dubuffet incorporam areia, gesso, asas de borboleta e resíduo industrial às telas.

Na Itália, Alberto Burri (1915-1995) volta-se para pesquisas semelhantes explorando as potencialidades expressivas da matéria, com resultados distintos. Os trabalhos são fruto do ato de soldar, costurar e colar sacos, madeiras, papéis queimados, paus, latas e plásticos - Saco, 1953, Combustões, 1957 e Ferros, 1958. Suas pesquisas com lixo e sucata prefiguram a arte junk norte-americana e a arte povera na Itália. Em solo espanhol, a "pintura matérica" realizada por Antoni Tápies (1923-2012), no mesmo período, usa cimento, argila, pó de mármore, materiais de refugo (restos de papel, barbante e tecido), partes de móveis velhos etc. As combine paintings e as assemblages de Rauschenberg caracterizam-se pela aplicação de diversos materiais sobre a tela, sobretudo papéis e materiais planos. A partir de 1953, o leque de elementos utilizados pelo artista se amplia, como Bed, 1955 e Canyon, 1959.

As chamadas junk sculptures - que vêm à luz por meio dos trabalhos pioneiros de David Smith (1906-1965) usam refugo industrial, sucatas e materiais descartados. Os conjuntos evocam o ambiente caótico das cidades, o fluxo desordenado das ruas dos grandes centros, por exemplo H.A.W.K, 1959, de John Chamberlain (1927-2011), construído com carcaças de automóveis, ou os trabalhos de Ettore Colla (1896-1968), que realiza suas obras com componentes de máquinas, sucatas e objetos quebrados, ou ainda as obras de Mark di Suvero (1933), com resíduos industriais, como Mohican, 1967.

A arte pop de Richard Hamilton (1922-2011), Rauschenberg, Jasper Johns (1930), entre outros, concede nova importância aos objetos comuns e à vida ordinária, numa tentativa de comunicação direta com o público por meio de signos e símbolos retirados do imaginário que cerca a cultura de massa e a vida cotidiana. A apropriação de materiais impressos do mundo comercial, histórias em quadrinhos, publicidade, imagens televisivas e cinema torna-se um procedimento usual.

Ainda que o termo apropriação obrigue a retomada das experiências realizadas nas primeiras décadas do século XX, como visto, sua incorporação ao vocabulário crítico parece se relacionar preferencialmente a certos artistas norte-americanos dos anos 1980, sobretudo Sherrie Levine (1947) e aqueles reunidos no grupo Neo-Geo, particularmente, Jeff Koons (1954). Em seus trabalhos, Levine usa outras obras de arte, por exemplo, pinturas de Claude Monet (1840-1926) e Kazimir Malevich (1878-1935), com o objetivo de criar situações e sentidos com base em imagens conhecidas. Os trabalhos de Koons, lançam mão de canos, tubos frouxos, formas verticais rígidas e outras similares, além de objetos como aspirador de pó, secos e molhados, que ele exibe dentro de caixas de plástico com luz fluorescente, no decorrer dos anos 1980. A apropriação como procedimento artístico coloca em pauta as questões da originalidade, da autenticidade e da autoria da obra de arte, questionando a natureza da arte e sua definição.

Largamente utilizada pela arte moderna em todo o mundo, a apropriação se faz notar na produção brasileira em algumas fotomontagens de Guignard (1896-1962), Jorge de Lima (1893-1953) e Athos Bulcão (1918-2008) e em obras de Farnese de Andrade (1926-1996), Waldemar Cordeiro (1925-1973), Aloísio Magalhães (1927-1982), Nelson Leirner (1932), Wesley Duke Lee (1931-2010) e Rubens Gerchman (1942-2008). Mais recentemente se torna uma prática recorrente em artistas como Rochelle Costi (1961), Leda Catunda (1961), Rosângela Rennó (1962) e Leonilson (1957-1993) entre outros.

Fontes de pesquisa (6)

  • ARCHER, Michael. Art Since 1960. Londres: Thames and Hudson, 1997. 224 p., il. color., p&b. (World of art).
  • ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução Denise Bottmann, Frederico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
  • ARTE híbrida. Texto Aracy Amaral, Sérgio Romagnolo. Rio de Janeiro: Funarte, 1989. 44 p., il. color, p&b.
  • CHILVERS, Ian (org.). Dicionário Oxford de arte. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  • FINEBERG, J. Art since 1940 - strategies of being. New York: Harry N. Abrams, Inc., Publishers, 1995. 496p. il. color.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Arte contemporânea. Curadoria geral Nelson Aguilar; curadoria Nelson Aguilar, Franklin Espath Pedroso; tradução Arnaldo Marques, Ivone Castilho Benedetti, Izabel Murat Burbridge, Katica Szabó, John Norman. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo : Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000.

Como citar?

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  • APROPRIAÇÃO . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3182/apropriacao>. Acesso em: 23 de Ago. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7