Artigo da seção termos e conceitos Arte Incomum

Arte Incomum

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  
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Arca do Araguaia , 1983 , Antonio Poteiro
Reprodução fotográfica Romulo Fialdini

Definição
"Arte Incomum" foi o nome dado a um dos módulos da 16ª Bienal Internacional de São Paulo, realizada em 1981. Walter Zanini, seu curador geral, a define como "múltiplas manifestações individuais da espontaneidade de invenção não redutíveis a princípios culturais estabelecidos"1. Os curadores Annateresa Fabris (1947) e Victor Musgrave (1919-1984) concebem uma mostra de obras criadas por 35 artistas brasileiros e estrangeiros que não participam do circuito artístico oficial, marginalizados tanto por não possuírem uma educação artística formal como por se tratar, muitas vezes, de doentes mentais. O catálogo da mostra traz tanto reproduções das obras e biografias dos artistas como entrevistas, críticas e trechos de textos de autoria dos próprios artistas com a intenção de divulgar essa produção.

A ideia de uma "arte incomum" aproxima-se do conceito de art brüt2, criado na década de 1940 pelo artista francês Jean Dubuffet (1901 - 1985) para definir uma arte que se origina da espontaneidade do indivíduo, sem interferência da tradição e dos sistemas artísticos, produzida principalmente por doentes mentais e crianças. Para Dubuffet, art brüt se oporia à noção de "arte cultural", hegemônica, e contestaria a importância do ensino formal, opressor e contrário ao papel da individualidade na criação artística. Segundo ele, a art brüt diferencia-se ainda da arte naïf, ou ingênua, pois apesar de criada em geral por artistas autodidatas, busca se assemelhar à arte cultural. A dedicação de Dubuffet ao tema, que influenciou sua própria produção artística, deu origem ao Musée de l'Art Brut, instalado em Lausanne, Suíça no ano de 1976.

Essa visão de Dubuffet seria compartilhada por Flávio de Carvalho, que, segundo Fabris, antecipa as ideias do artista francês, realizando em 1933 uma exposição de desenhos de pacientes psiquiátricos e crianças, em São Paulo. Ele busca chamar a atenção para essa produção como prática artística alternativa ao ensino normativo da Escola de Belas Artes. De acordo com Fabris, Carvalho também está interessado numa arte de caráter individual, distante da influência das artes tradicionais e que expresse o universo subjetivo do artista.

Antes das iniciativas de Flávio de Carvalho, o pioneiro no estudo da arte produzida por internos de instituições mentais é o psiquiatra e crítico de arte Osório César (1895-1979), que, em 1925, escreve o ensaio Arte Primitiva dos Alienados, e, em 1929, lança A Expressão Artística nos Alienados: Contribuição para o Estudo dos Símbolos na Arte, baseado em seu trabalho no Hospital do Juqueri, em São Paulo. Osório César se fundamenta no pensamento freudiano e, portanto, entende as obras dos internos "em termos de uma simbologia eminentemente sexual"3, apontando a relevância da expressão artística na cura dos pacientes psiquiátricos, bem como habilitando profissionalmente aqueles que já demonstram certa inclinação para as artes. César faz testes que visam "verificar" a orientação artística dos pacientes. Segundo Fabris, o psiquiatra "acredita na existência de um manancial criador, frequentemente castrado ou embotado pela sociedade, e que vem à tona no surto esquizofrênico, quando o artista está liberto das amarras com o mundo exterior"4.

Osório César organiza inúmeras exposições dos pacientes da Escola Livre de Artes Plásticas do Juqueri, fundada em 1949, dentre as quais destacam-se o Salão de Arte dos Alienados (1942), paralelo à Segunda Semana de Arte Moderna, e a 1ª Exposição de Arte do Hospital do Juqueri, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), em 1948, visando a divulgar uma arte marginal e afirmar a dignidade humana do paciente. Interessam-se por essa mostra psiquiatras, artistas como o próprio Flávio de Carvalho e críticos - como Lourival Gomes Machado , Sérgio Milliet e Luís Martins (1907-1981), entre outros -, originando debates sobre o assunto. Em 1950, César levaria obras de internos para a Exposição de Arte Psicopatológica do 1º Congresso Internacional de Psiquiatria, em Paris.

A experiência do crítico com arteterapia antecede trabalho semelhante da psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999), no Centro Psiquiátrico Dom Pedro II, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. Apesar da orientação diversa - de viés junguiano, ligada a expressões de arquétipos e inconsciente coletivo -, a proposta de Nise é de que o trabalho artístico possibilitaria uma reorganização do universo subjetivo dos pacientes. Seus esforços fundando ateliês de terapia ocupacional, como os de música e pintura, dão origem ao Museu das Imagens do Inconsciente, em 1952. Alguns dos artistas presentes na coleção são tema de estudos de Milliet e do também crítico Mário Pedrosa. Este último veria nessa produção uma importância não apenas médica, mas artística. Pedrosa cunharia então a expressão "arte virgem", entendendo por isso um tipo de arte desvinculada das convenções artísticas tradicionais.

Artistas oriundos da instituição sob responsabilidade de Nise da Silveira estão presentes na mostra de Arte Incomum, como Adelina Gomes, Emygdio de Barros e Raphael Domingues; voltariam a figurar ao lado de Albino Braz e Aurora, internos do Juqueri, em módulo semelhante intitulado Imagens do Inconsciente, na Mostra do Redescobrimento, realizada em São Paulo, em 2000.

É importante observar que apesar do interesse nessa produção dita "incomum" como expressão do "gesto primeiro", "a gênese da criação", não seria possível pensar numa "total imunidade à cultura", como lembra Fabris. Os artistas presentes nesse módulo da 16ª Bienal já obtiveram certo reconhecimento, mas, para a curadora, "apesar do mercado"5, permaneceram fiéis à própria vontade de criação.


1 ZANINI, Walter. A Bienal e os artistas incomuns. In 16º Bienal de São Paulo. Arte incomum. São Paulo, out. - dez. 1981, p. 7.

2 O curador Victor Musgrave trabalha com a noção de outsider art, entendendo-a como sinônimo de art brüt. Ver: 16º Bienal de SãoPaulo, op.cit., p. 11-14.

3 FABRIS, Annateresa. Escola livre de artes plásticas do Juqueri. In 16º Bienal de São Paulo. Arte incomum. São Paulo, out. - dez. 1981, p. 42.

4 Idem, p. 41.

5 Idem. Cosmogonias outras, p. 25.

Obras de Arte Incomum: (16) obras disponíveis:

Título da obra: Curral

Artigo da seção obras
Temas da obra: Artes visuais  
Data de criaçãoCurral : 1964
Autores da obra:
Imagem representativa da obra
Legenda da imagem representativa:

Reprodução fotográfica Gerson Zanini

Fontes de pesquisa (4)

  • 16º Bienal de São Paulo. Arte incomum. Textos de Annateresa Fabris, Walter Zanini, Victor Musgrave, Josette Balsa, Jean Dubuffet, Nise da Silveira, Osório César, Bridget Brown et al. São Paulo. Disponível em: <http://www.bienal.org.br/FBSP/pt/AHWS/Publicacoes/Paginas/XVI-Bienal-de-São-Paulo---Arte-Incomum---1981.aspx>. Acesso em: 7 de agosto de 2013.
  • SILVEIRA, Nise da. O mundo das imagens. São Paulo: Ática, 1992.
  • AGUILAR, Nelson (org.). Mostra do redescobrimento. Imagens do inconsciente. São Paulo: Fundação Bienal: Associação Brasil 500 Anos Artes Visuais, 2000.
  • CÉSAR, Osório. A expressão artística nos alienados: contribuição para o estudo dos símbolos na arte. São Paulo: Hospital do Juqueri, 1929.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ARTE Incomum. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo14256/arte-incomum>. Acesso em: 23 de Set. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7