Artigo da seção termos e conceitos Toada

Toada

Artigo da seção termos e conceitos
Música  

Definição
Derivada do verbo toar (produzir um som forte, ressoar), a palavra toada assume na música popular brasileira diversos significados. Em sua acepção mais ampla, refere-se à linha melódica de qualquer canção sobre a qual se articulam os versos da letra. É com esse sentido que ela aparece na letra da canção Paratodos, de Chico Buarque ("Foi Antônio Brasileiro / Quem soprou esta toada / Que cobri de redondilhas / Pra seguir minha jornada"). No maracatu, a toada (ou loa) corresponde a um canto alternado entre solista e coro, preservando características dos cantos e textos africanos. No boi bumbá paraense, o termo designa o canto de apresentação dos bois, tendo se transformado em gênero autônomo. No cururu, as chamadas toadas de licença são cantos de entrada ou de permissão que, proferidas pelo pedestre (cantador que não participa dos desafios, mas propõe as rimas a serem utilizadas pelos desafiantes), constituem a primeira parte da dança.

Mais comumente, porém, chama-se de toada um gênero cantado sem forma fixa, que se espalha por todo o Brasil, distinguindo-se pelo caráter melodioso e dolente. Seu texto, entoado de modo cadenciado e claro, é normalmente curto, narrativo e estruturado na forma de estrofe e refrão, podendo ser amoroso, lírico ou cômico. Embora suas características musicais variem bastante, a melodia costuma ser simples e plangente, conduzida por graus conjuntos e em andamento lento, podendo ser cantada em dueto de terças paralelas, sobretudo em áreas de cultura caipira (Regiões Sudeste e Centro-Oeste).

Pouco se sabe sobre a origem do gênero, provavelmente derivado da poesia trovadoresca, das cantigas pastoris e dos fados portugueses. Embora tenha surgido no meio rural, como comprovam vários exemplos recolhidos por Mário de Andrade em suas pesquisas folclóricas, é na cidade que a toada ganha visibilidade, especialmente após a década de 1910. Nessa época, a chamada moda regionalista põe em evidência o folclore e leva muitos compositores de música popular a se apropriarem da música rural. Um dos que mais se destacam nesse campo é Catulo da Paixão Cearense, maranhense radicado no Rio de Janeiro que fica conhecido pelas letras rebuscadas de suas canções. Com o violonista João Pernambuco, compõe uma das toadas mais conhecidas do repertório popular brasileiro, Luar do Sertão, cujas estrofes cadenciadas ("Ai que saudade do luar da minha terra / Lá na serra branquejando / Folhas secas pelo chão") se encaixam perfeitamente numa melodia inspirada no coco É do Humaitá, de domínio público. A alusão a uma vida rural idealizada e perdida no passado, elemento recorrente em inúmeras toadas posteriores a essa, reforça o caráter urbano assumido pelo gênero, ainda que não se possa negar-lhe a influência da música folclórica, sobretudo no tocante à melodia.

Em São Paulo, desenvolve-se uma versão acaipirada do gênero, que tem entre seus principais cultores o compositor tieteense Marcelo Tupinambá, conhecido por colocar em partituras para canto e piano os ritmos e, principalmente, as melodias dos caipiras do interior do estado. Sobre sua Viola Mimosa, Mário de Andrade afirma tratar-se de uma toada que possui "aquela dolência caprichosa, lânguida; aquela sensualidade trescalante, opressiva, quase angustiosa; aquela melancolia das vastas paragens desertas; aquele deserto, digamos assim, da linha melódica brasileira".1 A letra da canção, reforçando a centralidade da viola na cultura do interior, naturaliza a musicalidade nostálgica do caipira - cujo canto dolente, assim como a lua, parece integrar a paisagem ("Na minha viola mimosa / Eu canto pra não chorar / Enquanto, silenciosa, / A lua passa no ar").

A partir dos anos 1930, o desenvolvimento da indústria fonográfica faz com que o gênero ganhe o disco, e ali fixe suas características. São toadas algumas das principais modas de viola gravadas, tais como Tristezas do Jeca (1926), de Angelino de Oliveira, cujos versos cantam a dor nostálgica do caipira da cidade a recordar a vida "lá no mato" ("Nesta viola, canto e gemo de verdade / Cada toada representa uma saudade"); ou Chitãozinho e Chororó (1947), de Serrinha a Athos Campos, que exalta o caráter contemplativo do caipira na roça, a apreciar em sua solidão o canto dos pássaros ("Quando rompe a madrugada / Canta o galo carijó / pia triste a coruja / Na cumiera do paió / Quando chega o entardecê / Pia triste o jaó / Lá pr'aqueles cafundó: / É o nhambuxintã e o chororó"). Pingo d'Água (1944), de Raul Torres e João Pacífico, associa o enfrentamento das dificuldades da vida na roça, totalmente dependente dos recursos oferecidos pela natureza, à forte religiosidade caipira ("Pois veio a seca / E matou meu cafezal / Matou tudo meu arroz / E secou todo o algodão! (...) Eu fiz promessa / Que o primeiro pingo d'água / Eu moiava a frô da santa / Que tava em frente do altar"). Mágoa de Boiadeiro (1967), de Nonô Basílio e Índio Vago, lamenta o avanço do progresso, que com suas estradas e caminhões aniquila o modo de vida do boiadeiro ("Por tudo isso, eu lamento e confesso / Que a marcha do progresso é a minha grande dor / Cada jamanta que eu vejo carregada / Transportando uma boiada, me aperta o coração").

A temática amorosa também é recorrente, especialmente nas chamadas toadas históricas - expressão cunhada por João Pacífico para designar uma variação do gênero caracterizada pela presença de um enredo e pela divisão em duas partes: uma introdução declamada e um desenvolvimento cantado. A primeira toada histórica gravada, Chico Mulato (1937), de João Pacífico e Raul Torres, conta a desventura amorosa do violeiro que dá título à música, que por amor à cabocla Teresa, assassina seu irmão Romão, e nunca mais volta a cantar.

No Nordeste, o gênero assume um tom de lamento, cantando a dor e a nostalgia do retirante. Embora tenha se popularizado como baião, a célebre canção Asa Branca, de Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, é originalmente concebida como toada, conforme revela seu primeiro registro em disco, de 1947, num arranjo singelo de voz e sanfona. Sua letra narra o desejo do sertanejo de voltar para a terra natal, de onde é expulso pela seca ("Hoje longe, muitas léguas / Numa triste solidão / Espero a chuva cair de novo / Pra mim voltar pro meu sertão"). A temática é recorrente, como se nota em A Triste Partida ("Nós vamos a São Paulo / Que a coisa tá feia / Por terras alheia / Nós vamos vagar") e Vaca Estrela e Boi Fubá ("Hoje nas terra do sul, longe do torrão natá / Quando eu vejo em minha frente uma boiada passar / As água corre dos olho, começo logo a chorá"), ambas de Patativa do Assaré, a primeira com música de Luiz Gonzaga. Há toadas, contudo, que cantam as belezas do sertão, como Estrada de Canindé, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira ("Ai, ai que bom, que bom, que bom que é / Uma estrada e uma cabocla, uma gente andando a pé"). Assim como Asa Branca, essa canção ficaria mais conhecida como baião, dança muito em voga nos anos 1950, cuja cadência teria se inspirado nas toadas de cego do Nordeste.

Menos dolente que a caipira e a nordestina, a toada desenvolvida no Rio Grande do Sul também reforça características regionais. São exemplos de toadas gaúchas De Bombacha (1952), de Caco Velho e Piratini, e Cevando o Amargo (1956), de Lupicínio Rodrigues e Piratini, ambas ressaltando elementos da cultura gaúcha.

No fim dos anos 1960, já no contexto de resgate das tradições brasileiras, a toada reaparece em composições que retomam as figuras do violeiro, do caipira e do retirante, como Viola Enluarada (dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle), Andança (Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós), Sá Marina (Antonio Adolfo e Tibério Gaspar), Menininha do Portão (Nonato Buzar, Paulinho Tapajós) e o clássico Romaria (Renato Teixeira).

Nota
1 ANDRADE, Mário de. Música, doce música. São Paulo: Martins, Brasiliense; Rio de Janeiro: INL, 1976. p. 116.

Fontes de pesquisa (6)

  • ALVARENGA, Oneyda. Música popular brasileira. Rio de Janeiro: Globo, 1960.
  • ANDRADE, Mario de. "Toada". In: Dicionário musical brasileiro. Coordenação de Oneyda Alvarenga e Flavia Camargo Toni. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, 1989, p. 518-521.
  • CÂMARA CASCUDO, Luis da. Dicionário do folclore brasileiro. 12ª ed. São Paulo: Global, 2012.
  • NEPOMUCENO, Rosa. Música Caipira: da roça ao rodeio. São Paulo: Editora 34, 1999.
  • SANT'ANNA, Romildo de. A moda é viola. Ensaio do cantar caipira. São Paulo: Arte & Ciência; Marília: Ed. UNIMAR, 2000.
  • MARCONDES, Marcos Antônio. Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998. 912 p.

Como citar?

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  • TOADA . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo14244/toada>. Acesso em: 18 de Out. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7