Artigo da seção termos e conceitos Maxixe

Maxixe

Artigo da seção termos e conceitos
Música  

Definição
A palavra "maxixe", cuja primeira aparição impressa data de 1880,1 refere-se originalmente a uma dança urbana de par enlaçado surgida no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX. Criado pelos habitantes da Cidade Nova, bairro popular carioca, o maxixe é inicialmente dançado em bailes denominados "sambas" ou "assustados", caracterizando-se pelos requebros sensuais dos pares que balançam os quadris. No princípio, restrito às camadas mais pobres da sociedade carioca, penetra os ambientes burgueses já na década de 1870, por meio dos clubes carnavalescos. Segundo Heitor Villa-Lobos, é num baile da sociedade Os Estudandes de Heidelberg que um sujeito conhecido por Maxixe (do qual deriva o nome da dança) baila o lundu "duma maneira nova"2 - provavelmente, unindo seu corpo ao de sua parceira, como se faz na Cidade Nova. Embora não se possa atestar a veracidade da história (Villa-Lobos é conhecido por inventar mitos de origem), ela traz alguns dados relevantes para a história do gênero: o trânsito das práticas culturais entre as diferentes camadas da sociedade carioca e a relação do maxixe com o lundu.

É provavelmente por influência da valsa e, principalmente, da polca - danças europeias de pares enlaçados disseminadas nos salões cariocas na segunda metade do século XIX - que o lundu, dança de par separado surgida no Brasil do século XVIII, passa a ser bailado com os corpos unidos. O ritmo sincopado da música que o acompanha, porém, implica o surgimento de movimentos coreográficos totalmente distintos daqueles presentes nas danças europeias. Com efeito, a síncopa3 - elemento característico das tradições musicais afro-brasileiras - convida o dançarino a preencher o tempo forte do compasso com o corpo, dando origem aos famosos "requebros" das danças afro-brasileiras. Se nos pares separados esses movimentos já desgostavam as camadas superiores da sociedade carioca, por ocorrer nas partes "pouco nobres" do corpo, nos pares enlaçados eles causam verdadeiro horror, por evocar o próprio ato sexual. Daí, de um lado, a aversão da sociedade brasileira ao maxixe, descrita com precisão por Jota Efegê,4 e, de outro, a atração exercida pela dança naquelas mesmas camadas, postura ambígua que José Miguel Wisnik denomina de negaceio,5 a qual revelaria um traço profundo da sociedade brasileira.

Do ponto de vista musical, a mistura entre as danças de salão europeias e os ritmos sincopados afro-brasileiros dá origem a gêneros musicais híbridos, tais como a polca-lundu, a polca-maxixe e o tango-maxixe,6 que com o tempo passam a ser denominados simplesmente de maxixe. Tais gêneros se caracterizam pela "adulteração" da célula rítmica original da polca, transformada numa célula sincopada. Esta, batizada por Mário de Andrade de "síncopa característica", é a mesma que aparece, por exemplo, nos acompanhamentos dos tangos brasileiros de Ernesto Nazareth, executados no piano pela mão esquerda, ou de tantas outras peças compostas no período com a mesma denominação. O autor de Brejeiro, contudo, insiste que seus tangos não são "tão baixos" como os maxixes,7 atestando o preconceito que há em torno da dança.

Dos bailes carnavalescos, o gênero ganha o comércio de partituras (as primeiras composições impressas com o nome de maxixe datam do fim do século XIX), os discos (em 1902 é gravado o primeiro fonograma reconhecido como maxixe, Sempre Contigo, de autor desconhecido) e o teatro de revista. Identificado nos palcos aos personagens tipo caracteristicamente brasileiros, tais como o malandro, a mulata e a baiana, o maxixe passa a ser reconhecido como a dança nacional por excelência, posto até então exercido pelo lundu e futuramente ocupado pelo samba. Este, aliás, confunde-se em suas origens com a "dança excomungada". Pelo Telefone, a primeira composição registrada com a denominação de samba, é tida por muitos sambistas como um maxixe.8 Por fim, vale lembrar que o gênero é um dos primeiros a serem exportados do Brasil para a Europa, pelo bailarino Duque (Antônio Lopes de Amorim Dinis), sendo largamente consumido em Paris no início do século XX, com o nome de "matchitche".

Entre os compositores de maxixe destacam-se, no século XIX, Chiquinha Gonzaga (Maxixe da Zeferina, Roda Yoyô) e, no início do século XX, Sinhô (Dor de Cabeça, Caneca de Couro, Amor sem Dinheiro, Cassino Maxixe), Sebastião Cirino, José Francisco de Freitas (Dorinha Meu Amor e Mexe Baiana) e Romeu Silva (Tricolor, Se Papai Souber, Fubá).

Embora tenha perdido hegemonia para o samba, o maxixe continua a interessar compositores como Altamiro Carrilho (Maxixe das Flores, 1954), Pixinguinha (Maxixe de Ferro, 1957), João Roberto Kelly (Maxixe Colombo, 1964), Zé Menezes (Maxixe Jovem, 1970), Paulinho da Viola (Maxixe do Galo, 1994), Egberto Gismonti (Strawa no Sertão, 1997). No balé Nazareth, do Grupo Corpo, em 1993, Wisnik insere O Maxixe. Os grupos Aquilo Del Nisso (Maxixe no Coreto) e Pagode Jazz Sardinha's Club (Maxixe Neném) compunham os próprios maxixes, assim como o violinista francês radicado no Rio de Janeiro Nicolas Krassik (Meu Maxixe, 2006) e o pianista Marcos Ariel e seu grupo Tigres da Lapa (Maxixe do João Pedro, 2004). Entre inéditas de Jacob do Bandolim, o chorão Déo Rian descobre e grava Maxixe na Tuba, em 2007. No período da Jovem Guarda, Deny e Dino adaptam o maxixe ao rock no sucesso O Ciúme.

Notas
1 JOTA EFEGÊ. Maxixe: a dança excomungada. Rio de Janeiro: Conquista, 1974. p. 19.
2 ANDRADE, Mário de. Música, doce música. São Paulo: Martins, 1976. p. 128.
3 Padrão rítmico que rompe com a divisão métrica regular do compasso. Na síncopa, um som que não coincide com o tempo forte do compasso é acentuado, prolongando-se pelo tempo forte seguinte, o que dá uma sensação de "deslocamento" rítmico.
4 JOTA EFEGÊ. Op. cit.
5 WISNIK, José Miguel. Machado Maxixe: o caso Pestana. Teresa. Revista de Literatura Brasileira, São Paulo, Ed. 34, n. 4/5, p. 13-79, 2003.
6 Vale lembrar que o tango aqui referido não tem nenhuma relação com o tango argentino, surgido na década de 1920. Ver a respeito o verbete "tango brasileiro".
7 ANDRADE, Mário de. Op. cit. p. 54.
8 A "transformação" do maxixe em samba é detalhadamente estudada por Carlos Sandroni em O feitiço decente: transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1934). Ver a esse respeito o verbete "samba".

Fontes de pesquisa (5)

  • ALBIN, Ricardo Cravo (org.). "Maxixe". In: Dicionario Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Disponível em: < www.dicionariompb.com.br/maxixe >. Acesso em 03 set. 2011.
  • ANDRADE, Mário de. Música, doce música. São Paulo: Martins, 1976.
  • JOTA EFEGÊ. Maxixe: a dança excomungada. Rio de Janeiro: Conquista, 1974.
  • WISNIK, José Miguel. Machado Maxixe: o caso Pestana. In: Teresa. Revista de Literatura Brasileira. São Paulo: Ed. 34, n. 4/5, pp. 13-79, 2003.
  • SANDRONI, Carlos. Feitiço decente. Transformações do samba no Rio de Janeiro (1917 - 1933). Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed./Ed.UFRJ, 2001.

Como citar?

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  • MAXIXE . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo13778/maxixe>. Acesso em: 23 de Out. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7