Artigo da seção termos e conceitos Arcadismo

Arcadismo

Artigo da seção termos e conceitos
Literatura  

Resumo
O Arcadismo, também conhecido como Neoclassicismo, caracteriza-se pela busca de restauração dos ideais de sobriedade e equilíbrio da antiguidade clássica em contraposição aos excessos do período anterior, o Barroco. O movimento é contemporâneo do Iluminismo, corrente de pensamento racionalista que se divulgou pela Europa no século XVIII e que culminou com a Revolução Francesa, em 1789. Associações de letrados como a Arcádia Romana e, mais tarde, a Arcádia Lusitana foram veículos importantes para a propagação do ideário do movimento na Europa. O nome "Arcádia" é inspirado na região lendária da Grécia que representa o ideal de comunhão entre homem e natureza, daí o Arcadismo ter como tema privilegiado o bucolismo, em que a natureza é vista como refúgio último das noções de verdade e beleza.

No Brasil, os poetas que melhor representam o movimento são Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, autor de Marília de Dirceu. Ambos participaram da Inconfidência Mineira, movimento político que visava a emancipação do Brasil em relação a Portugal. Os poemas laudatórios de Basílio da Gama e a produção poética de Alvarenga Peixoto e Silva Alvarenga também apresentam traços típicos do Arcadismo. Todos esses poetas concentravam-se na cidade mineira de Vila Rica, centro da atividade mineradora e mais importante centro urbano do país nesse período. No Rio de Janeiro, nos anos de transição entre os séculos XVIII e XIX, entre uma série de novidades de ordem política e econômica que começam a transformar a fisionomia do país, verifica-se o surgimento de diversos órgãos de imprensa. Nesse momento tardio do Arcadismo, têm destaque as figuras dos jornalistas Hipólito da Costa, fundador do jornal Correio Braziliense, e Evaristo da Veiga, cronista político do Aurora Fluminense.

Contexto
No Brasil, o século XVIII é considerado o século do ouro, graças à intensa atividade de extração mineral que se desenvolveu na região de Minas Gerais. A prosperidade econômica do período estimulou a organização política, administrativa e dinamizou a vida cultural. A maior agilidade na troca de informações favoreceu a formação de uma consciência comum, de um sentimento nacional que, na literatura, começa aos poucos a substituir o impulso de descrição da natureza e do nativo, dominante até então. Pela primeira vez, é possível verificar no país uma relação sistemática, ainda que incipiente, entre escritor, obra e público, condição fundamental para a formação de uma literatura, conforme ensina o crítico Antonio Candido. O impulso de intelectuais e artistas de se reunirem em academias e sociedades literárias contrapõe-se ao isolamento dos períodos anteriores, em que os escritores se encontravam dispersos, as obras mal circulavam no interior do país, dirigindo-se primordialmente para leitores portugueses.

A Europa vivia a efervescência do Iluminismo e transformava-se num pólo irradiador de idéias libertárias. Ao mesmo tempo, chegavam ao Brasil as primeiras notícias sobre a independência dos Estados Unidos, conquistada em 1776. Todos esses fatores, associados à insatisfação generalizada com a exploração de Portugal, que se traduzia no aumento dos impostos sobre a extração de minérios, culminaram na Inconfidência Mineira, preparada por um pequeno grupo de letrados, muitos deles ex-estudantes da Universidade de Coimbra, onde entraram em contato com as novas idéias e doutrinas políticas. Em sua maior parte, esse grupo de oposição política era o mesmo que produzia ciência e literatura na época.

O marco inicial do estilo árcade no Brasil é a publicação de Obras, de Cláudio Manuel da Costa, em 1768. Sob influência de teorias francesas e italianas, os integrantes do movimento empenharam-se em restaurar a simplicidade da língua literária, que estaria contaminada por excessos retóricos e por formas degeneradas da literatura barroca. O nome Arcadismo é uma alusão à Arcádia Lusitana, associação fundada em 1756 em Portugal que congregava os opositores do maneirismo seiscentista. Inspirada na Arcádia Romana, criada em Roma em 1690, ela também remonta ao romance pastoral Arcadia (1504), do escritor italiano Jacopo Sannazaro. A obra retrata uma lendária região grega chamada Arcádia. Dominada pelo deus Pã, ela seria habitada por pastores cujo modo de vida bucólico e devotado à poesia foi transformado pelos neoclássicos em modelo ideal de convivência entre o homem e a natureza. Daí o fato de os escritores da época denominarem-se pastores e adotarem pseudônimos poéticos, como Glauceste Satúrnio (Cláudio Manuel da Costa), Alcindo Palmireno (Silva Alvarenga) e Termindo Sepílio (Basílio da Gama).

Com o propósito de restabelecer o equilíbrio da produção poética, autores do século XVIII empenharam-se na elaboração de manuais que recuperavam regras e padrões do Renascimento, por sua vez consolidados com base em formulações clássicas, principalmente de pensadores como Horácio e Aristóteles. Entre os mais importantes destacam-se o francês Nicolas Boileau, autor da Arte Poética, e o espanhol Luzán, cuja obra central é Poética. Em língua portuguesa, os principais doutrinadores do arcadismo foram Luís Antônio Verney, autor do Verdadeiro Método de Estudar (1747), e Francisco José Freire, que escreveu Arte Poética (1748).

Dos escritos desses doutrinadores, derivam duas idéias que contribuem para esclarecer parte da produção poética do século XVIII. A primeira é a idéia de que o poeta não é um sujeito em busca de meios para expressar sua subjetividade, e sim um artífice valorizado pela capacidade de pôr seu conhecimento técnico a serviço de uma causa externa. A segunda, a noção de utilidade da poesia, ou seja, a noção de que ela engrandece à medida que louva, descreve e propaga a verdade, verdade esta que se confundia com os interesses do estado.

Estilo (características gerais)
Os antigos escritores gregos e romanos sintetizam o ideal de harmonia que os autores do período buscavam resgatar. Por isso eles também são conhecidos como neoclássicos. Tida como reduto por excelência do equilíbrio e da sabedoria, a natureza é a temática mais freqüente do Arcadismo. Em grande medida, é possível dizer que a poesia arcádica caracteriza-se por essa busca pelo "natural", ao qual estavam sempre associadas as idéias de verdade e de beleza.

Apesar de ter sido influenciada pela tradição poética do século XVI, cujo nome mais importante é Camões, e de apresentar resquícios do Barroco em certos casos, a poesia arcádica é um modelo de simplicidade e objetividade, se comparada com as obras do período anterior. Exemplos dessa simplificação da linguagem são a valorização da ordem direta, o verso sem rima, a singeleza do vocabulário e a menor incidência de comparações e antíteses - todos fatores identificáveis na produção poética do Arcadismo.

Essa liberdade formal, no entanto, era regida por normas consolidadas e formatos fixos que só começariam a afrouxar a partir do Romantismo. O soneto, por exemplo, era uma das formas mais empregadas, como se pode perceber pela obra de Cláudio Manuel da Costa. Também bastante utilizados eram a ode (composição poética dividida em estrofes simétricas, para ser cantada), a elegia (poesia sobre tema fúnebre) e a écloga (poesia pastoril).

Sem perder a impregnação religiosa nem o respeito à monarquia, os poetas do período abordaram assuntos mais imediatos e concretos do que seus antecessores. Fazem parte de seu universo temático o elogio da virtude civil, a crença na melhoria do homem pela instrução, a noção de que a harmonia social depende da obediência às leis da natureza, e a concepção da felicidade como conseqüência da prática do bem e da sabedoria. Todas essas idéias, em grande medida derivadas do Iluminismo, encontram expressão política na figura do Marquês de Pombal.

Secretário do rei D. José I, Pombal é a face portuguesa do "despotismo esclarecido" que vigorou em certos países da Europa nos séculos XVII e XVIII. Ele promoveu a reforma do ensino na Universidade de Coimbra, a reconstrução da cidade de Lisboa após o terremoto de 1755 e a expulsão dos jesuítas do território da coroa portuguesa. Também foi o maior mecenas das artes do período, o que justifica o apoio de poetas do Arcadismo à sua causa. É difícil compreender um poema como O Uraguai, por exemplo, longe desse contexto. Nessa obra épica, Basílio da Gama louva a política da coroa portuguesa de combate aos jesuítas, que são retratados de maneira impiedosa. Também O Desertor, de Silva Alvarenga, foi composto com o propósito único de cantar loas à reforma do ensino empreendida por Pombal.

O iluminismo pombalino caracterizou também a prosa do período. Ela se manifestava nas formas de sermões, discursos, panfletos e ensaios de jornal. Os escritos teóricos e científicos, em sua maioria produzidos em Portugal sob os auspícios do Marquês, também tiveram influência durante o Arcadismo, como atestam os manuais de poesia de Verney e Freire e os textos sobre a reforma educacional escritos por autores como Antonio Nunes Ribeiro Sanches. A prosa literária, no entanto, atingiu pouca expressão. Uma razão para isso é o fato de que a poesia era então considerada um meio adequado para a discussão de idéias de interesse público. Assim, diversos autores do período manifestaram-se sobre ciência, educação, filosofia, política ou até temas técnicos, como zoologia e mineração, em textos versificados.

Autores
Os principais cronistas do Arcadismo no Brasil pertencem a um período tardio do movimento. Eles realizaram seus trabalhos já no limiar do século XIX. Nessa época, em especial depois da chegada da família real ao Rio de Janeiro, em 1808, tinha início um processo profundo de transformação da sociedade brasileira que, no plano cultural, iria desembocar no Romantismo. Dois nomes têm destaque nesse momento: Evaristo da Veiga e Hipólito José da Costa. Poeta, livreiro e deputado, Veiga fundou o jornal Aurora Fluminense, onde escreveu a crônica política do período. Autor da letra do primeiro hino nacional brasileiro, que mais tarde se tornaria o Hino à Independência, Evaristo da Veiga é considerado o primeiro jornalista brasileiro. Costa, por sua vez, foi o fundador do Correio Brasiliense. Primeiro grande jornal da imprensa brasileira, o Correio era um espaço de divulgação de idéias iluministas e de estudos sobre questões nacionais. Editado em Londres entre 1808 e 1823, o jornal teve papel fundamental para a emancipação política do Brasil. Segundo o crítico Alfredo Bosi, Veiga e Costa foram responsáveis pela criação do molde brasileiro da prosa jornalística de idéias e desempenharam papel decisivo para a formação de um público leitor no país.

É na obra dos poetas, no entanto, que se manifestam os traços mais característicos do Arcadismo. O poeta mais importante do Arcadismo português é Manuel Maria Barbosa du Bocage. Mais conhecido pelos poemas satíricos, ele também praticou poesia lírica. Embora no início tenha escrito de acordo com as convenções do Arcadismo, no fim da vida produziu versos que não cabem nos moldes do movimento. Essa fase de sua obra é considerada pelos críticos como pré-romântica. No Brasil, Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto tiveram participação marcante tanto na literatura quanto nas questões políticas de seu tempo. Em contexto diverso, Basílio da Gama, Silva Alvarenga e frei Santa Rita Durão são os outros autores que, ao lado deles, produziram as obras mais significativas do período.

Entre os membros do grupo mineiro, foi Cláudio Manuel da Costa quem exprimiu com mais clareza os modelos arcádicos. É em sua obra que o lirismo pastoral, marca definidora da poesia do período, apresenta-se com mais nitidez. Para o crítico Antonio Candido, o melhor da produção de Cláudio Manuel da Costa está nas Obras, em que o culto dos modelos clássicos alia-se a uma requintada sonoridade e a uma consciência nítida dos problemas de seu tempo, além de referências constantes ao cenário rochoso de Minas Gerais, como no Soneto VIII [Este é o rio, a montanha é esta]. Outro traço característico de sua obra é a vibração política, também presente nas Cartas Chilenas, de Gonzaga.

Quanto a Tomás Antônio Gonzaga, é possível dizer que foi o autor da lírica amorosa mais popular da literatura de língua portuguesa. Trata-se do poema Marília de Dirceu, dividido em liras que a partir da publicação do poema em livro, em 1792, foram declamadas, musicadas e cantadas em serestas e saraus pelo Brasil afora. Referindo-se à lira III da parte III, Manuel Bandeira escreveu : "Nessa lira esqueceu o Poeta a paisagem e a vida européia, os pastores, os vinhos, o azeite e as brancas ovelhinhas, esqueceu o travesso deus Cupido, e a sua poesia reflete com formosura a natureza e o ambiente social brasileiro, expressos nos termos da terra com um fino gosto que não tiveram seus precursores". Gonzaga foi o poeta do Arcadismo que levou mais adiante em seus versos a expressão de uma individualidade em conflito, de certo modo abrindo caminho para os arroubos dilacerados da poesia romântica.

Além de O Uraguai, os outros dois poemas épicos importantes do período são O Caramuru, de Santa Rita Durão, e Vila Rica, de Cláudio Manuel da Costa. O primeiro é uma imitação de Os Lusíadas que retoma motivos de louvor da natureza do Brasil e tem importância histórica pela riqueza de elementos com que descreve o indígena. O segundo, um poema de exaltação à cidade mineira igualmente lembrado por seu caráter documental. Alvarenga Peixoto e Silva Alvarenga, outros poetas relevantes da época, deixaram uma obra marcada pela crítica política e nativismo, no primeiro caso, e pela variedade formal e leveza rococó, no segundo. De maneira geral, ainda de acordo com Antonio Candido, é possível dizer que a importância dos poetas arcádicos reside no "esforço de trazer à pátria os temas e as técnicas mentais e artísticas do ocidente europeu, dando à nossa literatura um alcance potencialmente universal, antes mesmo que ela tomasse consciência de sua individualidade nacional."

Fontes de pesquisa (7)

  • BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira. Apresentação de Otto Maria. Carpeaux. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.
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  • CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira (Momentos Decisivos). v.1. (1750-1836). 3.ed. São Paulo: Martins, 1969.
  • CANDIDO, Antonio; CASTELLO, José Aderaldo. Presença da literatura brasileira. I - das origens ao realismo. ed. ver. e ampl. São Paulo: Difel, 1985.
  • COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de (dir.). Enciclopédia de literatura brasileira. 2. ed. rev., ampl, atual. e il. Sob a coordenação de Graça Coutinho e Rita Moutinho. São Paulo: Global; Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional e Academia Brasileira de Letras, 2001.
  • PICCHIO, Luciana Stegagno. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997.
  • TEIXEIRA, Ivan. Mecenato pombalino e poesia neoclássica. São Paulo: Edusp, 1999.

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  • ARCADISMO . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo12157/arcadismo>. Acesso em: 27 de Mar. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7