Artigo da seção termos e conceitos Literatura infantil e juvenil

Literatura infantil e juvenil

Artigo da seção termos e conceitos
Literatura  

Histórico

A ideia de uma literatura infantil e juvenil é bem menos antiga que a de literatura, sem qualificativos. É a partir do século XVII, com a publicação de Fábulas e As Aventuras de Telêmaco, ambas escritas por Fénelon (1651-1715), que é a inaugurada a produção literária dirigida às crianças e jovens. Há, contudo, obras anteriores à de Fénelon, publicadas nos séculos XVI e XVII, como os textos de Gonçalo Fernandes Trancoso (15--), Giovanni Battista Basile (1575-1632), La Fontaine (1621-1695) e Charles Perrault (1623-1703), que posteriormente viriam a ser reputados como clássicos da literatura infantil. Além desses, há as narrativas da Grécia e Roma clássicas, como Esopo e Fedro, na tradição das fábulas. Todos esses textos, ainda que não tenham sido escritos para crianças leitoras, se tornaram obras capitais da chamada literatura infantil, parte por responder às exigências didáticas que marcam seu surgimento, parte pela grande receptividade que obtiveram junto às crianças. Esse gosto infantil pode ser, em linhas gerais, definido pelo apreço à fantasia, contida nas fábulas, por exemplo, e por narrativas em que há o predomínio da ação à reflexão, como em As Aventuras de Telêmaco. A função didática e o gosto do público são, então, os dois principais argumentos utilizados para definir o que é a literatura infantil. Localizado entre essas duas linhas de definição está o debate entre aqueles que defendem uma literatura infantil composta por obras especificamente escritas para este público e aqueles que crêem que não deve haver uma produção específica para crianças, que adotariam, segundo seu gosto, obras da literatura para adultos.

A defesa da produção literária especialmente dirigida ao público infantil ganhou força com a construção do moderno conceito de infância no século XVIII. A partir daí, a própria infância passa a obter maior atenção dos diversos saberes, num debate em que a pedagogia ganha destaque especial. Assim, a partir do século XIX o número de publicações escritas para crianças não parou mais de crescer - muito em função da instituição escolar - a ponto de hoje, ela ser a maior fatia do mercado editorial brasileiro, consolidando assim a idéia de uma literatura infantil com suas obras e tradição específicas como uma realidade.

Por outro lado, se a idéia de uma literatura como instrumento pedagógico pode ter levado a algum didatismo moralizante pouco apreciado pela crítica literária, houve, e há, quem defenda que as crianças devem escolher entre as obras do que se pode chamar "literatura adulta" aquelas que melhor respondam aos seus desejos de leitura. Nesse sentido, textos como As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1667-1731) e As Aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, de Mark Twain (1834-1911) foram, desde sua aparição nos séculos XVIII e XIX, popularizados como leitura para crianças, mesmo não as tendo como público alvo. Caso parecido na literatura brasileira é o de O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino (1923-2004), que se popularizou como literatura para adolescentes. Mesmo romances como A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson (1850-1894) e Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (1832-1898), escritos não para o público infantil, mas para crianças específicas do convívio dos autores, só foram tomadas como leitura para crianças após a sua recepção "adulta".

É inegável que um texto que tenha apelo com o público de jovens e crianças entre para a tradição da literatura infantil e juvenil, como provam não só as ficções de Twain e Swift, mas também toda a tradição da literatura popular e das narrativas orais, que a princípio não se dirigiam especificamente ao público desta ou daquela faixa etária, mas que se tornaram clássicos da literatura infantil na escrita de seus recopiladores. A ligação entre a literatura infantil e as narrativas populares é evidente, já que autores como Perrault, Trancoso, Basile e Esopo registram narrativas da tradição oral em seus textos, sem deixar de mencionar as histórias orientais de As Mil e Uma Noites e do Pantcha-Tantra, também fortemente ligadas à literatura oral. Mais tarde, Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), os chamados Irmãos Grimm, recopilaram as narrativas tradicionais da Alemanha, como "O gato de botas" e "Chapeuzinho vermelho" que já haviam aparecido em textos de Basile e nos contos-de-fada Perrault, e deram-nas o formato que se tornou o mais popular ao longo dos séculos seguintes. Na tradição brasileira é importante destacar o trabalho de Trancoso ainda no século XVI com suas narrativas moralizantes, e o de Luís da Câmara Cascudo (1898 - 1986), já no século XX, que dá destaque às narrativas da tradição indígena e afro-brasileira, ao registrar lendas e cantigas.

Na literatura brasileira, Monteiro Lobato (1882-1948) é o precursor das narrativas escritas para o público infantil com As Reinações de Narizinho em 1931. Toda a série de narrativas sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo já revisita o cânone da literatura infantil - contos-de-fadas, fábulas e romances - buscando relacioná-lo ao que o autor entendia como a infância brasileira. O feito de Lobato encoraja a publicação de outras obras ainda na década de 1930, como Cazuza, 1938, de Viriato Correia (1984-1967) e o investimento de autores da literatura dita "adulta" nas narrativas dirigidas a crianças, como Graciliano Ramos (1892-1953), com A Terra dos Meninos Pelados, 1939, e posteriormente Rachel de Queiroz (1910 - 2003) com O Menino Mágico, 1969 e Clarice Lispector (1925-1977) com O Mistério do Coelho Pensante, 1967.

A poesia, gênero com o qual as crianças tomavam contato apenas para memorização e declamação no século XIX, passa a ser também campo para experimentações lúdicas com a palavra, um caminho que marca a produção de literatura infantil contemporânea não só de poesia mas também de narrativas. Cecília Meireles (1901 - 1964), Mario Quintana (1906-1994)José Paulo Paes (1926 - 1998) são alguns dos nomes de destaque dessa produção poética para crianças, que no caso do último, também envolve a elaboração de canções.

No início do século XX, as histórias em quadrinhos também ganham um grande impulso, se juntando às narrativas produzidas para crianças. O Gato Félix, de Otto Messmer (1892-1983) e Pat Sullivan  (1897-1933) é uma das personagens de quadrinhos e do cinema surgidas no período, em narrativas marcadas pelo humor nonsense. Ao longo do século XX, os quadrinhos foram adquirindo cada vez mais força de mercado, e num grau menor, reconhecimento no meio literário. A Turma da Mônica, de Maurício de Sousa (1935) e Turma do Pererê, de Ziraldo (1932), ambas surgidas na década de 1960, são as séries de narrativas em quadrinhos que obtiveram grande popularidade junto ao público infantil, retratando, principalmente, o universo das crianças, no caso de Ziraldo com personagens do folclore brasileiro, e no de Sousa principalmente com personagens urbanas.

É na prosa, contudo, que a literatura infantil brasileira obteve destaque, não apenas entre as crianças e educadores do país, alcançado reconhecimento internacional, oficializado com a concessão do prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante da literatura infantil e juvenil mundial, a Lygia Bojunga (1932), Ruth Rocha (1931) e Ana Maria Machado (1941). Essas três escritoras se firmam, a partir da década de 1970, no cenário da literatura infantil nacional, produzindo uma obra marcada, no caso de Bojunga por intenso lirismo e subjetivismo, e no de Rocha e Machado pelo uso do universo da fantasia e de muito humor para tratar de uma diversidade de temas, que vão do contato da criança com a linguagem até a política.

Se a despeito das polêmicas em torno do qualificativo "infantil" ou "juvenil" agregado ao termo literatura, a chamada literatura infanto-juvenil ganhou cada vez mais força ao longo do século XX, as publicações em si alcançaram especificidades que transformaram o gênero. A principal delas diz respeito à concepção gráfica dos livros, em que o texto cede espaço para a ilustração, transformando a narrativa e a poesia num jogo de signos que envolve texto e imagem.

Obras de Literatura infantil e juvenil: (24) obras disponíveis:

Todas as obras de Literatura infantil e juvenil:

Fontes de pesquisa (6)

  • COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira: séculos XIX e XX. 4. ed. São Paulo: Edusp, 1995.
  • ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 2001
  • ARIÈS, Phillipe. História social da infância e da família. Tradução Dora Flaskman. Rio de Janeiro: Guanabara, 1981.
  • ARROYO, Leonardo. Literatura infantil brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1990.
  • ROSEMBERG, Fulvia. Literatura infantil e ideologia. São Paulo: Global, 1984.
  • ______. Literatura infantil: história, teoria, análise: das origens orientais ao Brasil de hoje. São Paulo: Quiron, 1981.

Como citar?

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  • LITERATURA infantil e juvenil. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo12152/literatura-infantil-e-juvenil>. Acesso em: 17 de Ago. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7