Artigo da seção pessoas Lygia Pape

Lygia Pape

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  
Data de nascimento deLygia Pape: 1927 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Nova Friburgo) | Data de morte 03-05-2004 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
Imagem representativa do artigo

Sem Título [Neoconcreto] , 1961 , Lygia Pape
Registro fotográfico João L. Musa/Itaú Cultural

Biografia

Lygia Pape (Nova Friburgo, Rio de Janeiro, 1927 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004). Escultora, gravadora e cineasta. Estuda com Fayga Ostrower (1920 - 2001), no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). Aproxima-se do concretismo e, em 1957, depois de integrar-se ao Grupo Frente, é uma das signatárias do Manifesto Neoconcreto. No ano seguinte, concebe com o poeta Reynaldo Jardim (1926) o Ballet Neoconcreto I, apresentado no Teatro Copacabana, e, dois anos mais tarde, participa da Konkrete Kunst [Exposição Internacional de Arte Concreta], em Zurique. No fim da década de 1950, inicia a trilogia de livros de artista composta por Livro da Criação, Livro da Arquitetura e Livro do Tempo. A partir dos anos 1960, trabalha com roteiro, montagem e direção cinematográficos e faz a programação visual de filmes do cinema novo. Ainda nos anos 1960, produz esculturas em madeira e realiza o Livro-Poema, composto de xilogravuras e poemas concretos. Em 1971, realiza o curta-metragem O Guarda-Chuva Vermelho, sobre Oswaldo Goeldi (1895 - 1961). Em 1980 vai para Nova York com bolsa de estudo da Fundação Guggenheim. Sua obra é pautada pela liberdade com que experimenta e manipula as diversas linguagens e formatos e por incorporar o espectador como agente. Dessa forma, suas experimentações seguem paralelas às de Hélio Oiticica (1937 - 1980) e Lygia Clark (1920 - 1988). Após a morte de Hélio Oiticica, organiza, com o artista gráfico Luciano Figueiredo (1948) e o poeta Waly Salomão (1943 - 2003), o Projeto Hélio Oiticica, destinado a preservar e divulgar a obra do artista. Em 1990, com bolsa da Fundação Vitae, realiza o projeto Tteias, no qual combina luz e movimento. Em 2004, é fundada a Associação Cultural Projeto Lygia Pape, idealizada pela própria artista e dirigida por sua filha Paula Pape.

Análise

Dedica-se à xilogravura e realiza, entre 1955 e 1959, Tecelares, série de obras abstrato-geométricas, nas quais usa formas muito simplificadas e explora a textura e os veios característicos da madeira, utilizados como valores gravados preexistentes.

Em 1958, idealiza, com Reinaldo Jardim, o Balé Neoconcreto I, no qual o espaço cênico é preenchido por figuras em forma de cilindro e paralelepípedo, com bailarinos em seu interior, que se deslocam em um palco negro. Em 1959, é uma das signatárias do Manifesto Neoconcreto. No mesmo ano, realiza o Livro da Criação, composto por 118 unidades de várias formas e cores, que devem ser manuseadas pelo leitor. O título alude à criação do mundo e à postura criativa do participante. Nesse período, acentua-se a participação do público em seu trabalho. Em Ovo (1967), cubos de madeira são envolvidos em papel ou plástico colorido, muito fino, que deve ser rompido pelas pessoas, para que tenham a sensação de nascimento. Já em Divisor (1968), uma multidão preenche um pano de 30 por 30 metros, colocando a cabeça nas várias aberturas existentes.

Produz objetos e instalações marcados pela ironia, pelo humor negro e por críticas à situação política. Em Caixa de Formigas (1967), coloca em um recipiente de madeira enormes saúvas vivas que andam sobre um fundo com a inscrição: a gula ou a luxúria. No centro, há uma espiral e um pedaço de carne crua, o que faz com que as formigas se concentrem ali. Em Caixas de Baratas (1967), a artista agrupa em uma caixa de acrílico translúcido, com um espelho ao fundo, uma série de baratas, como se estivessem organizadas em uma coleção científica. A primeira sensação que o trabalho provoca é de aversão, pois o espectador se vê refletido junto àqueles insetos. Já a Caixa Brasil (1968) contém a palavra "Brasil", escrita em letras prateadas no fundo da tampa e em seu interior estão colocados fios de cabelos das três raças: o índio, o branco e o negro.

Em 1976, realiza exposições na Galeria de Arte Global e no MAM/RJ, denominadas Eat Me: a gula ou a luxúria?, nas quais trabalha com a imagem da mulher como objeto de consumo. Agrupa, em vitrines e saquinhos de papel, diversos objetos como calendários de mulher nua, cabelos, loções afrodisíacas, batons, maçãs, seios postiços e textos feministas (como se fosse uma contradição a este universo). Os saquinhos eram vendidos por preços populares, como uma forma de contestação ao mercado de arte. Em 1979, no trabalho Ovos de Vento ou Ar de Pulmões - Windbow, cria com sacos de plástico e bolas de borrachas uma espécie de trincheira, com efeitos de luz, cor e transparência. Para a artista, a obra, constituída por materiais frágeis, era forte enquanto idéia, como homenagem aos sandinistas. Apresentada no Hotel Meridien, no Rio de Janeiro, é denominada "Gávea de Tocaia". Lygia Pape apresenta preocupação social em vários trabalhos, como, por exemplo, em Narizes e Línguas (1995) ou Não Pise na Grana (1996). No primeiro, explora a dicotomia entre o que o olho vê ou o nariz cheira e o que o corpo sente. É uma instalação que se refere às campanhas contra a fome em todo o mundo. Propõe, em 1999, releituras sobre o Manto Tupinambá: transforma-o em uma bola antropófaga de plumas, da qual saem restos humanos e, em montagem fotográfica, coloca pairando sobre a cidade do Rio de Janeiro uma gigantesca nuvem de fumaça vermelha, como se os tupinambás reivindicassem seus direitos à terra. Em 2002, realiza a instalação Carandiru, em uma referência ao evento ocorrido em 1991. Cria uma cachoeira vermelha, cuja base, para onde o líquido escorre, tem a forma do Manto Tupinambá. Associa, desta forma, a imagem dos presos à do povo indígena dizimado.

Para o crítico inglês Guy Brett (1942), a semente da criatividade desabrocha nos trabalhos da artista com sensibilidade e humor. Eles não foram criados para serem consumidos apressadamente, sem reflexão: o modo como são vivenciados pelo espectador é que constitui a obra. A artista não se prende aos mesmos suportes ou procedimentos, seu trabalho é sempre inovador e enfrenta inúmeras questões. Na década de 1950, o Balé Neoconcreto possibilita uma experiência pioneira: o corpo é utilizado como motor para que formas e cores se desloquem no espaço. Já em o Livro da Criação, o manuseio e principalmente a criatividade são necessários para que a obra se concretize. Em outros trabalhos, sua proposta é permitir que qualquer pessoa possa repetir a obra em casa, como em Roda dos Prazeres (1968), na qual são oferecidos ao público líquidos com sabores diversos relacionados a cores diferentes.

Outras informações de Lygia Pape:

  • Outros nomes
    • Lygia Pape
    • Lígia Pape
  • Habilidades
    • gravador
    • escultor
    • cineasta
    • professor de artes plásticas
    • Filósofo

Obras de Lygia Pape: (16) obras disponíveis:

Título da obra: Tecelar

Artigo da seção obras
Temas da obra: Artes visuais  
Data de criaçãoTecelar : 1958
Autores da obra:
Imagem representativa da obra
Legenda da imagem representativa:

Reprodução fotográfica Iara Venanzi/ Itaú Cultural

Exposições (321)

Todas as exposições

Eventos relacionados (9)

Artigo sobre Marginália 70: o experimentalismo do super-8 brasileiro (2002 : Araraquara, SP : Biblioteca Pública Municipal Mario de Andrade)

Artigo da seção eventos
Temas do artigo:  
Data de inícioMarginália 70: o experimentalismo do super-8 brasileiro (2002 : Araraquara, SP : Biblioteca Pública Municipal Mario de Andrade): 02-09-2002  |  Data de término | 06-09-2002
Resumo do artigo Marginália 70: o experimentalismo do super-8 brasileiro (2002 : Araraquara, SP : Biblioteca Pública Municipal Mario de Andrade):

Fontes de pesquisa (14)

  • KOSSOVITCH, Leon & LAUDANNA, Mayra.  Gravura no Século XX. In: GRAVURA: arte brasileira do século XX. Apresentação Ricardo Ribenboim; texto Leon Kossovitch, Mayra Laudanna, Ricardo Resende. São Paulo: Itaú Cultural : Cosac & Naify, 2000. 270 p., il. color. p. 3-34.
  • AMARAL, Aracy (org.). Projeto Construtivo Brasileiro na arte (1950-1962). Rio de Janeiro: Museu de Arte Moderna; São Paulo: Pinacoteca do Estado de São Paulo, 1977. 360 p.
  • Arte construtiva no Brasil: Coleção Adolpho Leirner. Tradução Izabel Murat Burbridge. São Paulo: DBA, 1998. 364 p. 
  • BIENAL INTERNACIONAL DE SÃO PAULO, 20., 1989, São Paulo, SP. Catálogo - eventos especiais. Introdução João Cândido Galvão. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1989. v. 2, 138 p., il. p&b. p.17
  • BRETT, Guy. A lógica da teia. In: PAPE, Lygia. Gávea de Tocaia. Texto Mário Pedrosa, Guy Brett, Hélio Oiticica; versão em inglês Esther Steams d'Utra e Silva, Stephen Berg. São Paulo: Cosac & Naify, 2000. 333 p., il. color. p. 304-315.
  • DOCTORS, Márcio. Lygia Pape. Galeria: Revista de Arte, São Paulo, n. 16, 1989, p. 137-138.
  • ENTRE o desenho e a escultura. Apresentação Cacilda Teixeira da Costa e Milú Villela; tradução Alberto Dwek, Noemi Jaffe; texto de Lisette Lagnado. São Paulo: MAM, 1995. 32p. il. color.
  • GRAVURA: arte brasileira do século XX. Apresentação Ricardo Ribenboim; texto Leon Kossovitch, Mayra Laudanna, Ricardo Resende. São Paulo: Itaú Cultural : Cosac & Naify, 2000. 270 p.
  • LYGIA Pape. Comentário Luís Pimentel, Lygia Pape, Mário Pedrosa. Rio de Janeiro: Funarte, 1983. 48p. il. (Arte brasileira contemporânea).
  • MILLIET, Maria Alice. Tendências construtivas e os limites da linguagem plástica. In: MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Arte moderna. Organização Nelson Aguilar; coordenação Suzanna Sassoun; tradução Izabel Murat Burbridge, John Norman; apresentação Edemar Cid Ferreira. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo : Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000. 255 p., il. color. p.44-58.
  • PAPE, Lygia. Gávea de Tocaia. Texto Mário Pedrosa, Guy Brett, Hélio Oiticica; versão em inglês Esther Steams d'Utra e Silva, Stephen Berg. São Paulo: Cosac & Naify, 2000. 333 p., il. color.
  • PAPE, Lygia. Lygia Pape. Entrevista Lúcia Carneiro, Ileana Pradilla. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998. 81 p. (Palavra do artista).
  • PAPE, Lygia. Lygia Pape. Texto de Paulo Herkenhoff. São Paulo: Galeria Camargo Vilaça, 1995. 31p.
  • TENDÊNCIAS construtivas no acervo do MAC/USP: construção, medida e proporção. Organização Lisbeth Rebollo Gonçalves. Textos de Daisy Valle Machado Peccinini de Alvarado e Haroldo de Campos. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1996. 79 p. : il. color.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LYGIA Pape. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopediaitaucultural.org.br/pessoa950/lygia-pape>. Acesso em: 22 de Ago. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7