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Ismael Nery

Outros Nomes: I. Nery | Ismael Néri
  • Análise
  • Biografia
    Ismael Nery (Belém PA 1900 - Rio de Janeiro RJ 1934). Pintor, desenhista, poeta. Muda-se ainda criança para o Rio de Janeiro onde, em 1917, matricula-se na Escola Nacional de Belas Artes - Enba. Viaja para França em 1920 e freqüenta a Académie Julian. De volta ao Rio de Janeiro, no ano seguinte, trabalha como desenhista na seção de Arquitetura e Topografia da Diretoria do Patrimônio Nacional, órgão ligado ao Ministério da Fazenda. Lá conhece o poeta Murilo Mendes (1901 - 1975), que se torna grande amigo e incentivador de sua obra. Em 1922 casa-se com a poeta Adalgisa Nery (1905 - 1980). Ismael Nery aplica à sua produção os princípios do Essencialismo, sistema filosófico que ele mesmo cria. Segundo Murilo Mendes, esse sistema diz respeito às concepções do artista sobre a abstração do tempo e do espaço. Em 1927, novamente na França, conhece Marc Chagall (1887 - 1985), André Breton (1896 - 1966) e Marcel Noll. A volta ao Brasil marca a fase surrealista de sua obra, a princípio por influência de Chagall. Em 1930, contrai tuberculose. Enfermo, seus trabalhos passam a revelar seu drama pessoal e a fragilidade do corpo. Falece aos 33 anos. Em 1948, uma série de artigos de Murilo Mendes publicados nos jornais O Estado de S. Paulo e Letras e Artes busca resgatar a obra plástica, literária e filosófica do artista. Esquecido, Ismael Nery, passa a ser valorizado em meados dos anos 1960 com exposições realizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro.

    Comentário Crítico
    Ismael Nery é uma das personalidades mais inquietas do modernismo brasileiro. Dedica-se à pintura e ao desenho, sem nunca delimitar seu campo de atuação. Assim, também produz poemas e elabora reflexões teóricas. Em vida, não se define como artista plástico. Mário Pedrosa (1900 - 1981), crítico de arte e amigo de Nery, lembra que ele "nunca quis ser artista profissional".1 Sua pintura aparece como um nicho onde ele formula parte de suas reflexões metafísicas, uma materialização de suas idéias sobre o que era necessário a todos os homens, universalmente, independentemente da época e do lugar.

    Ismael Nery nasce em Belém. Ainda na infância, muda-se para o Rio de Janeiro. Tudo indica que se aproxima das artes na juventude. Provavelmente, freqüenta a Escola Nacional de Belas Artes - Enba, entre 1915 e 1916. É certo que em 1918 está entre os alunos matriculados na instituição. Nesse período, dedica-se à cópia em gesso de esculturas da Antigüidade greco-romana e, por meio delas, desenvolve interesse pela figura humana, tema que iria tomar a maior parte de suas inquietações artísticas. Na Enba faz aulas com Henrique Bernardelli (1858 - 1936), cujos incentivo e elogios o animam a seguir estudando arte.

    Em 1920, Nery vai a Paris para estudar. Permanece na Académie Julian por três meses. Na Europa entra em contato com o modernismo. Examina os quadros de artistas cubistas como Pablo Picasso (1881 - 1973), Georges Braque (1882 - 1963), André Lhote (1885 - 1962), Fernand Léger (1881 - 1955) e Jean Metzinger (1883 - 1956). Durante a sua permanência, pode conhecer boa parte da tradição artística do velho continente. Além da Escola de Paris, tem grande interesse pelo expressionismo alemão. Na Itália conhece as obras dos mestres do Renascimento e torna-se admirador da pintura do período. Devota-se, sobretudo, a Ticiano (ca.1488 - 1576), Tintoretto (1519 - 1594), Paolo Veronese (1528 - 1588), Michelangelo Buonarroti (1475 - 1564) e Rafael (1483 - 1520). Tem interesse também por artistas italianos modernos, como Giorgio de Chirico (1888 - 1978).

    Ao voltar para o Brasil, em 1921, é nomeado desenhista na seção de Arquitetura e Topografia da Diretoria do Patrimônio Nacional, órgão ligado ao Ministério da Fazenda. Lá conhece e se torna amigo do poeta Murilo Mendes (1901 - 1975), um dos seus grandes incentivadores. Um ano depois, casa-se com poetisa Adalgisa Nery (1905 - 1980), musa de suas principais pinturas. Apesar de já trabalhar com formas modernas, seu assunto o diferencia do modernismo brasileiro da Semana de Arte Moderna de 1922. O artista não tem gosto por temas nacionalistas. Seus personagens aparecem em cenários imaginários, avessos a qualquer referência reconhecível. Ele trata, basicamente, da figura humana, idealizada, a serviço de uma figuração simbólica. Neste período, faz retratos, como as obras Retrato de Murilo Mendes (1922) e A Espanhola (1923). A relação entre as partes claras e as partes escuras é bastante marcada.

    Ismael Nery, posteriormente, dá tratamento mais geométrico a suas figuras. Em 1924, aproximadamente, compõe seus personagens com cilindros e formas ovais. Os homens e mulheres se tornam mais alongados e estruturados. Dão a impressão de formas ideais, fora do tempo e do espaço. Ao seu expressionismo é somada a influência cubista. Na época a casa do artista se torna um ponto de encontro de artistas e intelectuais cariocas. É freqüentada, entre outros, por Mário Pedrosa, Murilo Mendes, Guignard (1896 - 1962) e Antonio Bento (1902 - 1988).

    Em torno de 1926, expõe a alguns desses amigos a sua doutrina: o essencialismo. Um conjunto de princípios, ligados ao seu humanismo cristão, que seria a síntese de suas reflexões. Em 1927, Nery parte, com a esposa e a mãe, para a Europa, onde convive com Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959) e conhece André Breton (1896 - 1966), Marc Noll e Marc Chagall (1887 - 1985). A viagem influencia profundamente sua pintura. Ele volta particularmente impressionado com o trabalho de Chagall que seus temas e personagens, a partir daí, aproximam-se dos do artista russo.

    Os corpos são pintados com cores mais vivas e aparentam mais leveza. A ação das suas pinturas ocorre em um plano onírico. No entanto, este tratamento se dá com base em relações que Murilo Mendes chama de "absolutas, definitivas e eternas",2 derivadas do essencialismo de Ismael Nery. A partir de 1930, é constatada sua tuberculose e isso se reflete em suas pinturas. Suas figuras se tornam esgarçadas, aparecem com as vísceras abertas. Os personagens surgem em cenários vazios, nitidamente influenciados pela pintura metafísica italiana. Os personagens agora são flagelados e feridos. O trabalho incorpora o tema da morte.

    Daí em diante o artista trabalha menos. No entanto, sua produção tem maior projeção. Antes disso, em 1929, Ismael Nery faz as suas únicas exposições individuais, a primeira em Belém e a segunda no Rio de Janeiro. Não chega a ter grande receptividade, mas consegue expor numa coletiva de pintura brasileira em Nova York e participar de importantes salões, como o Salão Revolucionário, no Rio de Janeiro, em 1931, e a Exposição de Arte Moderna da SPAM, em São Paulo, em 1933.

    Doente, apesar de uma rápida melhora em 1933, Ismael não resiste e morre, vitimado pela tuberculose, em 1934, num mosteiro franciscano. O reconhecimento ao seu trabalho ocorre postumamente, após sua participação nas Bienais de 1965 e 1969 e de retrospectivas em 1966, no Rio de Janeiro, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ e na Petite Galerie.

     

    Notas
    1 PEDROSA, Mário. Semana de arte moderna. In: ______. Acadêmicos e modernos: textos escolhidos III. São Paulo: Edusp, 1998. p.152.
    2 MENDES, Murilo. Recordações de Ismael Nery. São Paulo: Edusp. p.27.

Obras(67)

  1. Resignação Diante do Irreparável  
  2. Auto-Retrato com Adalgisa  
  3. Mulher Nua Ajoelhada  
  4. Figura Feminina  
  5. Nu (adolescente)  
  6. Casal II  
  7. Auto-Retrato  
  8. Casal em Vermelho  
  9. Rio de Janeiro  
  10. Três Figuras  
  11. Andrógino  
  12. Namorados  
  13. Auto-Retrato [Homem de Chapéu] 
  14. Origem Nº 4 - Etapa Final  
  15. Figura com Cubos  
  16. Sem Título  
  17. Duas Figuras  
  18. Três Figuras II  
  19. Casal Elegante  
  20. Auto-Retrato - Toureiro  
  21. Retrato de Murilo Mendes  
  22. Figura em Azul  
  23. A Espanhola  
  24. Auto-Retrato - Cristo  
  25. Eva  
  26. Retrato de Adalgisa  
  27. A Família  
  28. Composição com Figuras  
  29. Dois Amantes  
  30. Duas Figuras  
  31. Duas Irmãs  
  32. Retrato de Adalgisa  
  33. Amantes [Duas Figuras] 
  34. O Luar (Dois Irmãos)  
  35. Nu Ajoelhado  
  36. Nu Feminino  
  37. Duas Mulheres  
  38. Duas Figuras em Azul  
  39. Composição com Figuras  
  40. Namorados  
  41. Figuras Sobrepostas  
  42. Duas Figuras  
  43. Perspectiva Abstrata  
  44. Nu no Cabide  
  45. O Ato  
  46. Auto-Retrato  
  47. Figura Decomposta  
  48. Figura  
  49. Amparo  
  50. Nu Feminino e Paisagem  
  51. O Encontro  
  52. Namorados [Lovers] [Lovers] 
  53. Composição Surrealista  
  54. Homem Cubista  
  55. Composição Surrealista  
  56. Anunciação  
  57. Retrato de Foujita  
  58. Adalgisa e o Artista  
  59. Auto-Retrato  
  60. Essencialismo  
  61. Estátuas Vivas  
  62. Eternidade  
  63. Visão Interna - Agonia  
  64. Duas Figuras - João Batista e Figura Feminina [...]
  65. Desejo de Amor  
  66. Morte de Ismael Nery  
  67. Casal [com Entrada da Baía do Rio de Janeiro ao [...]

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Eventos

Fontes de Pesquisa

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