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Aleijadinho

Outros Nomes: Antônio Francisco Lisboa | O Aleijadinho | Antonio Francisco Lisbõa
  • Análise
  • Biografia
    Antônio Francisco Lisboa (Vila Rica, atual Ouro Preto, Minas Gerais, 1738 - idem 1814).  Escultor, entalhador, arquiteto, carpinteiro. Personagem importante da história da arte brasileira, Aleijadinho é objeto de diversos estudos e biografias. Seu primeiro biógrafo afirma que ele nasceu em 1730, no entanto, há historiadores que questionam sua paternidade e mesmo sua existência. Estima-se que cresce em Ouro Preto com a família da sua madrasta e do seu pai, o arquiteto português Manoel Francisco Lisboa (? - 1767). Tudo indica ser com ele e com o pintor João Gomes Batista (s.d.) que Aleijadinho aprende as primeiras noções de arquitetura, desenho e escultura. De 1750 a 1759, frequenta o internato do Seminário dos Franciscanos Donatos do Hospício da Terra Santa, em Ouro Preto, onde estuda gramática, latim, matemática e religião. Em 1752, realiza seu primeiro projeto individual, um chafariz para o Palácio dos Governadores de Ouro Preto. Em 1756, viaja ao Rio de Janeiro, onde pode ver obras arquitetônicas importantes para seu trabalho futuro. Em 1758, esculpe um chafariz para o Hospício da Terra Santa, considerada a primeira obra do estilo barroco tardio. Nos anos 1760 e 1770, faz diversos trabalhos em igrejas de Minas Gerais, como a matriz de São João Batista, na hoje chamada Barão dos Cocais, e a fachada da Igreja do Carmo, em Ouro Preto. Alista-se no Regimento da Infantaria dos Homens Pardos de Ouro Preto em 1768 e presta serviço militar durante três anos. Neste período, ainda executa obras em igrejas.  Em 1766, termina parte da Igreja São Francisco de Assis, em Ouro Preto, considerada uma de suas maiores produções. Entre os anos 1770 e 1790, faz reparos e ajustes na mesma igreja. No início dos anos 1770,  tem seu trabalho reconhecido, começa a cobrar mais caro por seus serviços e passa a ter uma equipe de artesãos. Além de fachadas, retábulos e altares, é contratado para dar pareceres sobre obras arquitetônicas de igrejas. Em 1777, é diagnosticado com uma doença grave que deforma os membros de seu corpo, principalmente suas mãos. Mesmo assim, segue seu trabalho, executado com a ajuda de auxiliares. No início dos anos 1790, passa a ser chamado pelo apelido Aleijadinho por conta da sua doença. Em 1796, conclui 64 esculturas de madeira que representam cenas da Paixão de Cristo, em Congonhas do Campo. Três anos mais tarde, finaliza as 12 esculturas dos profetas, localizadas no adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, na mesma cidade. Sua primeira biografia é escrita em 1858 por Rodrigo José Ferreira Bretas (1814-1866). No século XX, é descoberto por artistas modernistas brasileiros. Também atrai estrangeiros, como o historiador da arte francês Germain Bazin (1901-1990).

    Análise da trajetória
    Considerado o maior artista e arquiteto do período colonial brasileiro, Aleijadinho possui obras arquitetônicas, esculturas, retábulos, altares e outras peças de arte sacra em diversas cidades históricas do estado de Minas Gerais. Sua obra e biografia são até hoje objetos de discussões e controvérsias entre críticos e historiadores da arte.

    Atualmente, a biografia e a existência de Aleijadinho são questionadas por alguns críticos. A historiadora Guiomar de Grammont (1963), autora do livro Aleijadinho e o Aeroplano: o Paraíso Barroco e a Construção do Herói, publicado em 2008, critica a primeira biografia do artista – escrita em 1858 por Rodrigo José Ferreira Bretas – e tenta desconstruir o mito criado em torno da sua figura. Segundo ela, Bretas teria composto a biografia baseada na história de Quasímodo, personagem de O Corcunda de Notre Dame, do escritor francês Victor Hugo (1802-1885). A paternidade do artista também é posta em questão. Para Grammont, Bretas teria falado de um pai branco para que Aleijadinho fosse melhor aceito na época do segundo império brasileiro, tornando-o mestiço.

    As informações disponíveis sobre sua história dizem que Aleijadinho começa cedo a trabalhar como artesão e a fazer serviços nas igrejas de Ouro Preto e nas de cidades vizinhas, como Mariana e São João del-Rei. Por ser filho bastardo de pai português e mãe escrava, encontra dificuldades para ser valorizado nos primeiros anos em que exerce seu ofício. Mesmo assim, suas obras ganham reconhecimento e realiza trabalhos grandes, como a fachada e a decoração da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, concluídas nos anos 1790. Embora siga o traçado português das igrejas matrizes, abandona o chamado estilo jesuítico, característico das construções religiosas da primeira metade do século XVIII no Brasil. Nesse estilo, as fachadas são retilíneas com elementos decorativos o simplificados e escassos. A decoração feita por Aleijadinho, que talha pedra e madeira, é marcada pela presença do dourado e repleta de detalhes, como rocalhas1 e querubins. Menor e com formas mais arredondadas, com torres que apresentam recuo em relação à fachada, a igreja é considerada um dos maiores ícones do barroco brasileiro.

    O estilo barroco surge no Brasil um século após o surgimento do barroco na Europa. Ligado ao movimento da contrarreforma católica, o barroco se opõe ao classicismo renascentista, em que os elementos formais das igrejas são mais simples e racionais. A arte barroca possui exuberância e é repleta de ornamentos. As expressões “barroco tardio” ou “barroco mineiro”, usadas para descrever a obra de Aleijadinho, na qual este estilo atingiria seu ápice, são controversas. A historiadora Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira (s.d;) se opõe ao crítico de arte Lourival Gomes Machado (1917-1967), que cunha o termo “barroco mineiro”. Para ela, Aleijadinho possui estilo rococó, no qual as rocalhas, as formas arredondadas e os arabescos estão presentes e há, em relação ao barroco, certa leveza e suavidade, expressa, por exemplo, no uso de cores mais claras. Na bibliografia sobre a obra de Aleijadinho, é possível encontrar historiadores que situam o escultor na transição desses dois estilos e, além disso, que identificam em suas obras elementos do gótico tardio alemão.

    No fim de sua vida, Aleijadinho realiza as 12 esculturas intituladas Os Profetas na pequena cidade de Congonhas do Campo. O material usado é a pedra-sabão, característica em muitas obras do escultor. Executadas entre 1796 e 1805, momento em que o artista está debilitado por sua doença, são feitas com ajuda de outros artesãos subordinados a Aleijadinho, o que explica as diferenças entre seus estilos e leva a crer que nem todas foram feitas pelo próprio escultor. Todos os profetas têm cabelos encaracolados cobertos por turbantes e olhos levemente puxados – traço recorrente nas esculturas do artista. Os profetas, localizados no adro do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, têm caráter monumental e mesclam “realismo e caricatura”, como ressalta o historiador da arte inglês John Bury (1917).2

    No século XX, Aleijadinho, até então pouco celebrado e reconhecido no Brasil, é redescoberto por artistas modernistas, entusiasmados com sua história e sua obra. Exemplo disso é o escritor Mário de Andrade (1893-1945) e seu texto Aleijadinho, de 1928. Criticando europeus que comentaram as obras do escultor sem considerá-lo um gênio, Mário enxerga na obra de Aleijadinho uma invenção “que contém algumas das constâncias mais íntimas, mais arraigadas e mais étnicas da psicologia nacional”.3 A imagem do “mulato” artista, cuja obra não é mera cópia de estilos europeus, é apreciada por um movimento que se propõe a pensar o Brasil mestiço. Lourival Gomes Machado, influenciado pelos modernistas, vincula Aleijadinho ao barroco mineiro em livro com forte tom nacionalista, O Barroco Mineiro, publicado em 1969.

    Notas
    1 Rocalha é uma obrade que imita rochedos, grutas e produtos brutos da natureza, construída com pedras, conchas etc.
    2 BURY, John. Arquitetura e Arte no Brasil Colonial. Brasília: Iphan, 2006, p. 39.
    3 ANDRADE, Mário de. Aspectos das artes plásticas no Brasil. São Paulo: Martins, 1965, p. 34.

Exposições

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Fontes de Pesquisa

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