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Vital Brazil

Outros Nomes: Álvaro Vital Brazil
  • Análise
  • Biografia
    Álvaro Vital Brazil (São Paulo SP 1909 - Rio de Janeiro RJ 1997). Arquiteto, engenheiro. Em 1933, forma-se em engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, e em arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes - Enba. No ano seguinte, após trabalhar como engenheiro em duas construtoras, associa-se a Adhemar Marinho (1909) em um escritório de arquitetura e engenharia, desenvolvendo inicialmente projetos residenciais. De forma precoce, a dupla vence o concurso de anteprojetos para um edifício de uso misto (comercial, residencial e escritórios) para a Usina de Açúcar Esther Ltda., na praça da República, em São Paulo. Concebido segundo os princípios do racionalismo funcionalista, o Edifício Esther, 1936, ao lado do prédio da Associação Brasileira de Imprensa - ABI, e do edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde - MES, ambos no Rio de Janeiro, torna-se um dos marcos fundamentais da arquitetura moderna brasileira. Estabelecido em São Paulo, o arquiteto filia-se aos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna - Ciam, ao Clube de Engenharia e ao Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB. Nesse período, seus projetos e obras são publicados nos principais veículos de divulgação da arquitetura moderna no país: a revista de Engenharia da Prefeitura - PDF, e a Revista de Arquitetura, da Enba.

    Em 1938, volta para o Rio de Janeiro para projetar e coordenar a construção do edifício-sede do Instituto Vital Brazil, 1942, fundado em 1919 por seu pai: o médico e cientista Vital Brazil Mineiro da Campanha (1865 - 1950). Em Niterói,  projeta outras obras importantes, como três escolas públicas e a Estação Central Ferroviária. Em seguida, chefiando o Serviço de Planejamento e Construções do Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia - Semta, projeta e acompanha a construção de núcleos e pousos em cidades das regiões Norte e Nordeste do Brasil, além da Base Aérea de Manaus, 1944, e a estação de passageiros do Aeroporto Val de Cans, em Belém, 1945. Em 1943, o Edifício Esther, as escolas de Niterói e o Instituto Vital Brazil são incluídos na mostra Brazil Builds: Architecture New and Old; 1652-1942, realizada no Museum of Modern Art - MoMA de Nova York.

    Em 1946, projeta a sede do Banco da Lavoura de Minas Gerais S. A. em Belo Horizonte, o edifício Clemente de Faria, que dá origem a uma série de projetos comerciais e empresariais dos anos 1940 e 1950. Em 1951, essa obra é premiada na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, na categoria "edifícios de uso comercial". Nos anos 1960, projeta obras importantes, como os estaleiros da Emaq - Engenharia de Máquinas S. A., 1966, no Rio de Janeiro, e ganha um suplemento especial no primeiro número da Revista ABA - Arquitetura Brasileira do Ano, com ensaio crítico de Henrique E. Mindlin (1911 - 1971), que o define como um "mestre tranqüilo e sereno (...) que apura o trabalho de uma geração para mostrar o caminho à geração seguinte, e que se constitui em um 'clássico'".1 Sua última obra é o edifício Vital Brazil, 1978, um bloco de salas comerciais e garagens no Rio de Janeiro. Em 1986, publica um livro com sua obra: Álvaro Vital Brazil: 50 Anos de Arquitetura. Obra que o arquiteto Salvador Candia (1924 - 1991), na apresentação, define como uma "lição de equilíbrio, serenidade e amor à ordem construtiva arquitetônica".2

    Comentário Crítico
    Autor de uma obra sempre qualificada por adjetivos como coerência, rigor, sobriedade, discrição, parcimônia, rigidez e severidade, Vital Brazil é um dos mais ortodoxos praticantes do racionalismo arquitetônico no Brasil. Em seus projetos, a pulsão revolucionária da estética moderna adquire ares pacificadores, almejando sempre um equilíbrio formal e uma existência silenciosa em meio ao cenário ruidoso das grandes cidades brasileiras. De acordo com o crítico Roberto Conduru, o arquiteto desenha "edifícios cuja polida urbanidade determina uma existência quase anônima na paisagem construída".3

    Sua primeira obra de destaque é o Edifício Esther, 1936, em São Paulo, projetado em parceria com Adhemar Marinho (1909). Um dos primeiros edifícios modernos do Brasil, o Esther reúne os famosos "cinco pontos da arquitetura moderna",4 definidos por Le Corbusier (1887 - 1965), superando a rigidez art déco que caracteriza suas primeiras obras: residências unifamiliares em que as paredes ainda têm função estrutural. Além disso, o prédio enfatiza o programa plurifuncional (lojas, escritórios e apartamentos residenciais de diversos tamanhos) na dinâmica planar das fachadas principais, que alternam janelas horizontais e terraços em ritmos equilibrados. Para soltar o edifício do entorno, o arquiteto divide-o em dois blocos, criando uma "rua interna" e pública, que secciona o lote e deixa o volume secundário integrado à quadra. Essa operação faz com que o projeto arquitetônico se transforme, de um golpe, em intervenção urbanística de grande inteligência. Dado o pioneirismo do projeto, o Esther provoca muita polêmica, sendo acusado de exibir acintosamente a intimidade de seus ocupantes, tornando-se, portanto, um "antro de devassidão". Por outro lado, reúne o grupo de artistas e intelectuais modernistas da cidade, abrigando desde a sede do departamento paulista do Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB/SP, até o "Clube de Artistas", escritórios de arquitetos como Rino Levi (1901 - 1965), e residências de artistas como Di Cavalcanti (1897 - 1976).

    Mas se há no Edifício Esther uma composição que tem como referência o corpo humano, visível na segmentação do volume em base, corpo e topo, no edifício-sede do Instituto Vital Brazil, 1942, em Niterói, o arquiteto adota uma volumetria abstrata, com prismas e aberturas regulares e geométricas. Essa concepção diagramática da forma, em que o edifício é concebido como uma montagem de elementos construtivos, é ainda mais nítida nas escolas públicas que projeta em Niterói, em 1941, e na própria residência, em 1940, no Rio de Janeiro. Pode-se dizer que esse pragmatismo de conceber a arquitetura como uma ciência vinda diretamente da construção se reporta à sua formação complementar de engenheiro na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, entre 1929 e 1933. Tal inclinação pragmática se confirma nos projetos de abrigos para o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia - Semta, 1943. Como chefe do serviço, Vital Brazil projeta e acompanha a formação de núcleos e pousos para trabalhadores da região da seca em cidades do Norte e Nordeste do Brasil, realizando construções leves e econômicas em que se combinam a razão abstrata (o rigor geométrico da modulação) e uma razão prática: a exploração de mão-de-obra, técnicas construtivas e materiais disponíveis, como a carnaúba, o babaçu e o buriti.

    Como observa Roberto Conduru, a obra subseqüente de Vital Brazil parece substituir esse pragmatismo construtivo por um purismo formal de herança clássica, em planos genéricos e unificadores que conjugam a técnica empregada e as articulações construtivas. Trata-se, no pêndulo que define a sua carreira, do momento em que o arquiteto "derrota" o engenheiro. Assim, a partir dos anos 1950, suas obras aparecem encerradas em volumes compactos e regulares, com fachadas definidas como planos abstratos em diagramações planares. Corresponde a essa mudança uma substituição, como referencial maior, do racionalismo plástico de Le Corbusier pelo minimalismo de Mies van der Rohe (1886 - 1969), em que a janela horizontal e o brise-soleil dão lugar à cortina de vidro. São os casos, por exemplo, dos edifícios Vieira Souto, 1961, e Jardim Santa Clara, 1964, no Rio de Janeiro, concebidos como "caixas de vidro" discretamente alinhadas ao gabarito do entorno. Essa atitude, no entanto, é inaugurada no celebrado projeto do edifício Clemente de Faria, de 1946, para a sede do Banco da Lavoura de Minas Gerais S. A., em Belo Horizonte, premiado na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1951. Dispondo de um lote triangular, típico da malha geométrica da capital mineira, o arquiteto desenha um volume em forma de cunha com faces abstratas e uniformes, que pouco revelam acerca da disposição interna dos espaços.

    De forma geral, se a sua obra pode ser acusada de fria e anódina, é preciso ressaltar seu empenho em não se deixar seduzir pelo exibicionismo técnico e formal que acaba qualificando a arquitetura brasileira aos olhos do mundo. Distante de qualquer idéia de regionalismo, vernáculo ou contaminação hedonista pelo clima tropical, Vital Brazil mantém uma crença iluminista na técnica universal e no progresso como meios de superar o atraso histórico do país, e único modo de atingir uma civilidade verdadeiramente emancipada e moderna.

     

    Notas
    Henrique E. Mindlin, citado em CONDURU, Roberto. Cronologia. In: ______. Vital Brazil. São Paulo: Cosac Naify, 2000, p. 124.
    Salvador Candia, em CONDURU, Roberto, op. cit., p. 125.

    3  CONDURU, Roberto. Razão e civilidade. In: ______. Vital Brazil. São Paulo: Cosac Naify, 2000, p. 07.
    São eles o pilotis, o térreo livre, o teto-jardim, a fachada livre e as janelas horizontais.

Exposições

Fontes de Pesquisa

CONDURU, Roberto. Vital Brazil. Coordenação editorial Rodrigo Naves; apresentação Pedro Henrique Mariani. São Paulo: Cosac & Naify, 2000. 126 p., il. p&b. (Espaços da Arte Brasileira).