Pessoas

Lasar Segall

  • Análise
  • Biografia
    Lasar Segall (Vilna Lituânia 1891 - São Paulo SP 1957). Pintor, gravador, escultor, desenhista. De origem judaica, inicia estudos de arte, em 1905, na Academia de Desenho do mestre Antokolski, em Vilna, na Lituânia. Muda-se para a Alemanha em 1906 e estuda na Escola de Artes Aplicadas e na Academia Imperial de Belas Artes, em Berlim. Viaja para a cidade de Dresden, onde freqüenta a Academia de Belas Artes. Amplia seu contato com a pintura impressionista e realiza, em 1910, a primeira mostra individual na Galeria Gurlitt. No final de 1912, vem para o Brasil e no ano seguinte expõe em São Paulo e Campinas. No mesmo ano retorna à Europa. Inicialmente, realiza uma pintura de derivação impressionista, com influência de Jozef Israël e de Paul Cézanne (1839-1906). A partir de 1914, passa a interessar-se pelo expressionismo, desenvolvendo-se plenamente nessa estética em 1917. Em 1919, em Dresden, funda com Otto Dix (1891-1969), Conrad Felixmüller (1897-1977), Otto Lange (1879-1944) e outros, o Dresdner Sezession Gruppe 1919, grupo que agrega artistas expressionistas da cidade. Em 1921, publica o álbum de litografias Bübüe e, em 1922, o Erinnerung an Wilna - 1917 com águas-fortes. Volta ao Brasil, onde fixa residência em São Paulo, no ano de 1923. Na capital paulista, Lasar Segall é destaque no cenário da arte moderna, considerado um representante das vanguardas européias. No ano seguinte, executa decoração para o Baile Futurista do Automóvel Clube e para o Pavilhão Modernista de Olívia Guedes Penteado (1872-1934). É um dos fundadores da Sociedade Pró-Arte Moderna - Spam, em 1932, da qual se torna diretor até 1935. Dez anos após sua morte, em 1967, a casa onde morava, na Vila Mariana, em São Paulo, é transformada no Museu Lasar Segall.

    Comentário Crítico
    Lasar Segall viaja para a Alemanha em 1906, onde freqüenta a Academia de Belas Artes de Berlim, na qual predominam tendências ligadas aos movimentos impressionista e pós-impressionista. No quadro Sem Pai, 1909 as pinceladas livres lembram o impressionismo, porém a obra tem uma atmosfera sombria, reforçada pelos tons escuros da paleta e destaca-se pela caracterização social e psicológica dos personagens. Em 1910, Segall estuda na Academia de Belas Artes de Dresden. Passa a adotar tons mais claros, embora permaneça a tendência ao monocromatismo, característica de toda a sua produção, como, por exemplo, em Leitura, 1914. Revela admiração pela obra de Paul Cézanne, principalmente pelo aspecto construtivo da pincelada, como podemos observar em Violinista, 1912.

    Seu primeiro contato com o Brasil ocorre em 1913, quando expõe em São Paulo e em Campinas, retornando a Dresden no mesmo ano. Para a historiadora Claudia Valladão de Mattos, a partir de 1914, o artista revela interesse pelo expressionismo, busca uma nova linguagem pictórica e uma caracterização psicológica mais aguda para suas figuras. A pintura de Segall, sob o impacto da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), reflete a preocupação com as injustiças sociais e o sofrimento humano. Seus quadros são estruturados por meio de planos construídos em diagonais e apresentam uma tendência à geometrização, com o predomínio de formas triangulares. Segall utiliza cores escuras e contrastantes, como no quadro Aldeia Russa, 1912.

    Em 1918, viaja para Vilna, sua cidade natal, fato que marca sua obra, por reforçar a identificação com algumas questões judaicas que se tornam importantes para sua experiência artística. Retorna a Dresden no mesmo ano. Substitui as cores mais vivas de seu primeiro momento expressionista por tons mais sóbrios, obtidos por meio de camadas sucessivas de tinta, em quadros como Kaddisch - Reza para os Mortos, 1918 e Eternos Caminhantes, 1919. Seus quadros nascem num ambiente artístico marcado pelo cubismo e pela segunda fase do expressionismo alemão, mais aderente a uma aproximação realista da figura, que inclui artistas como George Grosz (1893-1959) e Otto Dix. Entretanto, em comparação às cores vivas utilizadas por esses artistas, as obras de Segall têm caráter melancólico ou lírico e são trabalhadas em tonalidades sóbrias, com predomínio de ocres, cinza, negros e violetas. A gama cromática alude à tristeza em trabalhos como Pobreza, 1921, no qual a construção em formas angulosas triangulares, utilizada anteriormente, cede lugar a linhas mais arredondadas e a figuras que apresentam uma deformação expressiva, com cabeça e olhos enormes.

    Em 1923, Lasar Segall muda-se para o Brasil, onde tem contato com os jovens modernistas. Nos primeiros trabalhos realizados no país, revela um deslumbramento pela luz e pelas cores tropicais. Sensibiliza-se não apenas com a paisagem mas também com o ambiente artístico brasileiro: sua produção mantém diálogo com obras de Tarsila do Amaral (1886-1973) , e de outros artistas locais. Nos quadros realizados logo após a chegada ao Brasil, a paleta de Segall se transforma. Os temas (mães negras, paisagens, favelas) são pintados em espaços abertos, com cores claras e luminosas. Realiza várias obras nas quais acentua o drama dos marginalizados pela sociedade. São desse período os quadros: Menino com Lagartixas, 1924 e Colina Vermelha, 1926.

    Reside em Paris entre 1928 e 1932. Nessa época, produz obras com motivos brasileiros e também utiliza temas recorrentes, como o da emigração. O colorido vibrante de suas telas dá lugar a uma luz mais pálida e mais suave. Os quadros Família do Pintor e Maternidade (ambos de 1931) apresentam uma superfície mais espessa, que tem um paralelo com as esculturas que o artista começa a fazer. Segall passa a estruturar as composições por meio da mancha cromática e a linha não é mais tão predominante em suas obras. A experiência com a escultura contagia os tons e a superfície da pintura, as figuras adquirem volumes e aspectos mais escultóricos. As cores tornam-se terrosas, marrons, cinza, ocres, como nos quadros Mãe Negra, 1930 e Casa na Floresta , 1931.

    A partir de 1935, pinta paisagens de Campos de Jordão, de cromatismo muito refinado. Sua obra adquire aspecto de matéria densa, com uma cor muito peculiar. Os temas ligados a dramas humanos permanecem em quadros de grandes dimensões: Navio de Emigrantes 1939/1940 e Guerra, 1942, entre outros. Na década de 1950, a arte de Segall revela mais liberdade plástica, aproximando-se da abstração, por exemplo, em Floresta Crepuscular, 1956. Nessa obra a natureza é a inspiração para os suportes verticais, nos quais se estabelece um sutil estudo de luz e cor.

    Ao longo da carreira, dedica-se a várias técnicas de gravura. Em seus primeiros trabalhos, explora o uso das sombras, acentuando o claro-escuro. Para Claudia Valladão ocorre certo descompasso entre a produção gráfica de Segall e sua pintura no período entre 1914 e 1916. O artista, nas gravuras, se afasta da estética impressionista, em trabalhos como Cabeças, 1914, o que não ocorre em sua pintura, que passa por uma fase de transição. Em 1918, o artista produz cinco litografias inspiradas no conto Die Sanfte [Uma Doce Criatura], de Dostoievski (1821-1881). Elas representam ponto alto em sua produção, pela extrema concentração e simplificação das figuras, concebidas em formas geométricas, pelo traço econômico e pelo jogo que o artista estabelece entre formas e vazios. Na série Mangue, 1926/1929, realizada no Brasil, aborda o tema da prostituição; predomina um clima de tensão, estabelecido pela presença de elementos como persianas e cortinados ou por ambientes opressivos onde se situam os personagens. A série Emigrantes, 1927/1928 possui uma atmosfera mais amena, surgem espaços abertos com a representação do céu e do mar.

    Os desenhos são importantes na produção de Segall e, como na gravura, apresentam temas recorrentes como o universo de desfavorecidos e marginalizados pela sociedade. O artista confere a suas figuras deformações expressivas e situa os personagens em espaços que os oprimem, o que gera um clima de tristeza e abandono.

    O humanismo, revelado pela preocupação com a violência, a miséria e as injustiças sociais, e certo caráter lírico estão presentes em toda a sua carreira. Segall aborda temas universais, expressando-os com emoção, por meio da cor em sua pintura ou pelo jogo entre linha e vazio em suas produções gráficas.

Obras(119)

  1. Retrato de Jenny Klabin Segall, 1936  
  2. Os Eternos Caminhantes, 1929  
  3. Auto-retrato  
  4. Retrato de Maurício F. Klabin, 1934  
  5. Três Cabeças, 1934c.  
  6. Retrato de Lucy, 1941  
  7. Retrato de Mulher  
  8. A Colheita  
  9. Cabeça de Menina  
  10. Schmerz [Dor] 
  11. Vaterlos [Viúva e Filho] 
  12. Floresta  
  13. Ancião com Muleta  
  14. Menino na Floresta  
  15. A Pequena Aldeã  
  16. Auto-retrato I  
  17. Geiger [O Violinista] 
  18. Under Freunde [Entre Amigos] 
  19. Retrato de Margarete  
  20. Lesende [Leitura] 
  21. Aldeia Russa  
  22. Velho Judeu com Bengala  
  23. Doppelbildnis Margarete und Zoe [Duas Amigas] 
  24. Kaddish  
  25. Tod [Morte] 
  26. Auto-Retrato II  
  27. Die Ewigen Wanderer [Os Eternos Caminhantes] 
  28. Viúva [Witwe] 
  29. Feriado Religioso  
  30. Armut [Interior de Indigentes] 
  31. Schwangere [A Gestante] 
  32. Witwe mit Kind [Viúva e Filho] 
  33. Schlittschuhläufer [Patinadores] 
  34. Die Krankenstube [Interior de Pobres II] 
  35. Strasse - Zwein Frauen [Rua - Duas Mulheres] 
  36. Meine Grosseltern [Meus Avós] 
  37. Maternidade  
  38. Am Spiegel [No Espelho] 
  39. Mulata com Criança  
  40. Figura sobre Fundo de Morro  
  41. Detalhes da decoração do teto do Pavilhão Moderno [...]
  42. Detalhe da decoração do teto do Pavilhão Moderno [...]
  43. Estudo para decoração do teto do Pavilhão Moderno [...]
  44. Encontro  
  45. Menino com Lagartixas  
  46. Paisagem Brasileira  
  47. Morro Vermelho  
  48. Mulheres do Mangue com espelho  
  49. Bananal  
  50. Retrato de Baby de Almeida  
  51. Retrato de Mário de Andrade  
  52. Duas Mulheres do Mangue  
  53. Perfil de Zulmira  
  54. Menino com Cavalo-de-pau  
  55. Duas Mulheres do Mangue  
  56. Casa do Mangue  
  57. Casal do Mangue com Persiana I  
  58. Emigrantes  
  59. Duas Mulheres  
  60. Mãe Negra  
  61. Judeu em Orações III  
  62. Figura Feminina Deitada  
  63. Casal  
  64. Casa na Floresta  
  65. Casal  
  66. Projeto de Figurino para o Porta-Bandeira  
  67. Casal Deitado  
  68. Família  
  69. Grupo  
  70. Família  
  71. A Casinha Branca  
  72. Vaso Branco  
  73. Três Jovens  
  74. Mulher Acocorada  
  75. Cabeça  
  76. Figura Feminina  
  77. Grupo de Bois  
  78. Cabeça  
  79. Mulher ao Chão  
  80. Nu Deitado  
  81. Duas Mulheres  
  82. Pogrom  
  83. Máscaras  
  84. Canto de Ateliê  
  85. Retrato de Lucy com Gola Branca  
  86. Navio de Emigrantes  
  87. Lucy com a Mão nos Cabelos  
  88. Visões da Guerra  
  89. Campos do Jordão  
  90. Guerra  
  91. Jovem de Cabelos Compridos  
  92. Dois Torsos Inclinados  
  93. Retrato de Rita  
  94. Bois em Pirâmide  
  95. Mulheres do Mangue  
  96. Êxodo II  
  97. As Erradias  
  98. Fusão  
  99. Condenados  
  100. Maternidade  
  101. Cabeça de Moça  
  102. Myran em Pé  
  103. Figura de Perfil  
  104. Figura Sentada com Criança  
  105. Mãe Deitada  
  106. Gado e Sol  
  107. Encontro  
  108. Montanhas II  
  109. Grupo de Casebres  
  110. Duas Mulheres Deitadas  
  111. Grupo de Mães  
  112. Dois Torsos Eretos  
  113. Favela  
  114. Floresta com Reflexos de Luz  
  115. Floresta Ensolarada  
  116. Floresta Crepuscular  
  117. Rua de Erradias  
  118. Floresta de Galhos Entrelaçados  
  119. Maternidade (múltiplo)  

Exposições

Exibir

Eventos

Fontes de Pesquisa

AYALA, Walmir. Dicionário de pintores brasileiros. 2. ed. rev. e ampl. , por André Seffrin. Curitiba: Ed. UFPR, 1997. 428p., il. col.

LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário crítico da pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. 555 p., il. p&b., color.

- LOUZADA, Maria Alice do Amaral, LOUZADA, Júlio. Artes plásticas Brasil 1999. São Paulo: Júlio Louzada, 1999.

- MATTOS, Cláudia Valladão de. Lasar Segall: expressionismo e judaísmo - o período alemão de 1906-1923. São Paulo: Perspectiva, 2000. (Estudos, 165)

PERFIL da Coleção Itaú. Prefácio Olavo Egydio Setubal; curadoria e texto Stella Teixeira de Barros. São Paulo: Itaú Cultural, 1998. 256 p., fotos color.

PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. 559 p., il. p&b., color.

ANDRADE, Mário de. Portinari, amico mio: cartas de Mário de Andrade a Cândido Portinari. Organização Annateresa Fabris. Campinas: Mercado de Letras : Autores Associados, 1995. 160 p., il. p&b. (Arte: Ensaios e Documentos).

BARDI, Pietro Maria. Lasar Segall. 2.ed. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2000. 211 p., il. color.

BARDI, Pietro Maria. Lasar Segall. Tradução André Rougon. Milano: Del Milione, MASP, 1959. 180 p., 199 il. color.

BRASIL Europa: encontros no século XX. Curadoria Marc Pottier, Jean Boghici; texto Aracy Amaral, Frederico Morais, Antonio Callado, Luís Arrobas Martins, Fábio Magalhães, Paul Éluard, Amedée Ozenfant, Alfred Kubin. Brasília: Conjunto Cultural da Caixa, 2000. 79 p., il. color.

CHIARELLI, Tadeu. De Almeida Jr. a Almeida Jr.: a crítica de arte de Mário de Andrade. 1996. 512p. Tese (Doutorado) - Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - USP/ECA, São Paulo, 1996.

D'HORTA, Vera. Lasar Segall: un expresionista brasileño. In: SEGALL, Lasar. Lasar Segall: un expresionista brasileño. Curadoria Vera D'Horta; coordenação Marcelo Mattos Araújo, Carlos Wendel de Magalhães; tradução Ana Cecilia Olmos; texto Vera D'Horta, Ivo Mesquita, Jorge Schwartz, Irma Arestizábal. São Paulo: Museu Lasar Segall: Takano, 2002. 318 p., il. color.

D'HORTA, Vera. Lasar Segall e o modernismo paulista. São Paulo: Brasiliense, 1984. 270 p., il. p&b. (Antologias e biografias).

D'HORTA, Vera. Lasar Segall: esboço de um retrato. 1979. 177 f. Mestrado (Dissertação) - Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo - FFLCH/USP, São Paulo, 1979.

FROMMHOLD, Erhard. Lasar Segall and Dresden expressionism. Milano: Galleria del Levante, s.d., [103] p., il. p&b.

GRAVURA: arte brasileira do século XX. Apresentação Ricardo Ribenboim; texto Leon Kossovitch, Mayra Laudanna, Ricardo Resende. São Paulo: Itaú Cultural : Cosac & Naify, 2000. 270 p., il. color.

LASAR Segall. Texto Vera D'Horta. Buenos Aires: Banco Velox, 1999. 380 p., il. p&b color. (Projeto Cultural Artistas do Mercosul).

LASAR Segall: antologia de textos nacionais sobre a obra e o artista. Rio de Janeiro: Funarte. Instituto Nacional de Artes Plásticas, 1982. 158 p., il. p&b, color. (Temas e Debates, 2).

LASAR Segall: textos, depoimentos e exposições. 2.ed. rev. aum. São Paulo: Museu Lasar Segall, 1993. ix, 125 p., il. p&b.

MATTOS, Cláudia Valladão de. Lasar Segall. São Paulo: Edusp, 1997. 192 p., il. color. (Artistas brasileiros: pintura e escultura, 7).

MATTOS, Cláudia Valladão de. Lasar Segall: expressionismo e judaísmo - o período alemão de 1906-1923. São Paulo: Perspectiva, 2000. 223 p., il. p&b., color. (Estudos, 165).

MINDLIN, José (org.). O Desenho de Lasar Segall. Texto Rodrigo Naves, Marcelo Mattos Araújo, Marcelo Mattos Araújo. São Paulo: Museu Lasar Segall, 1991. 169 p., il. p&b.

MUSEU LASAR SEGALL (SÃO PAULO, SP) (org.). A Gravura de Lasar Segall. Texto Vera D'Horta. São Paulo: Museu Lasar Segall, 1988. xxii, 183 p., il. p&b.

NAVES, Rodrigo. Expressão e compaixão nos desenhos de Segall. In: ______. A Forma difícil: ensaios sobre arte brasileira. São Paulo: Ática, 1996. 285 p., il. color.

SEGALL, Lasar. Lasar Segall. São Paulo: Art, 1991. 24 p., il. fig. p&b. (Grandes Artistas Brasileiros).