Artigo da seção pessoas João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro

Artigo da seção pessoas
Literatura / teatro  
Data de nascimento deJoão Ubaldo Ribeiro: 23-01-1941 Local de nascimento: (Brasil / Bahia / Itaparica) | Data de morte 18-07-2014 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
Imagem representativa do artigo

Viva o Povo Brasileiro , 1984 , João Ubaldo Ribeiro
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Biografia

João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro (Itaparica, Bahia, 1941 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014). Romancista, contista, cronista, roteirista e jornalista. Passa a infância em Aracaju, para onde a família se muda dois meses após seu nascimento. Inicia os estudos com um professor particular, aos 7 anos, dedicando-se com afinco, por imposição do pai, cujas exigências lhe são marcantes por toda a vida. Ingressa no colégio três anos depois, em 1951, em Salvador, para onde se transfere com a família. No curso clássico, conhece o cineasta Glauber Rocha (1939 - 1981), de quem se torna grande amigo e parceiro em trabalhos diversos. Inicia a carreira jornalística, em 1957, como repórter no Jornal da Bahia. Após tornar-se bacharel em direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), que cursa de 1959 a 1962, recebe uma bolsa da embaixada norte-americana para realizar o mestrado em administração pública e ciência política na Universidade da Califórnia. De volta ao Brasil, em 1965, leciona ciência política na UFBA, atividade que desempenha até 1971. Sua estreia em livro ocorre em 1968, com o romance Setembro Não Tem Sentido. O reconhecimento de crítica e público vem em 1971, com o lançamento de Sargento Getúlio, título que o próprio autor traduz para o inglês sete anos depois, lançando-o nos Estados Unidos. Retorna a esse país, em 1979, como convidado do International Writting Program da Universidade de Iowa; dois anos depois, vai a Lisboa como bolsista da Fundação Calouste-Gulbenkian. Ao voltar, ainda em 1981, fixa-se no Rio de Janeiro, e lança Política, para o público não especializado, e Livro de Histórias, coletânea de contos. No mesmo ano, inicia a publicação de crônicas semanais no jornal O Globo e, a partir de 1991, também em O Estado de S. Paulo. A convite do Deutscher Akademischer Austauschdienst [(Daad) Instituto Alemão de Intercâmbio], passa 15 meses na Alemanha. Instala-se no Rio de Janeiro em 1991. Dois anos depois, é eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Adapta seu conto O Santo que Não Acreditava em Deus para uma minissérie, em 1993 - dez anos depois, o texto dá origem ao longa-metragem Deus É Brasileiro, dirigido por Cacá Diegues (1940).

Análise

Calcada no interesse em investigar a existência de uma identidade nacional e as relações entre vida individual e destinos coletivos da nação, a obra de João Ubaldo Ribeiro é identificada como uma mescla da "preocupação social do primeiro Jorge Amado com a invenção linguística de um Guimarães Rosa", como escreve Luciana Stegagno-Picchio. O traço contínuo, porém, ainda que igualmente aplicável às narrativas breves do autor, não implica homogeneidade, sendo possível identificar dois momentos distintos nessa produção, cujos marcos são os livros mais bem recebidos pela crítica: Sargento Getúlio (1971) e Viva o Povo Brasileiro (1984).

O primeiro núcleo, que inclui ainda Setembro Não Tem Sentido (1968) - o livro de estreia do autor - e Vila Real (1979), tem como principais marcas a experimentação na estrutura do romance, a forma diluída como se tematiza o problema da brasilidade e o patente engajamento político. Embora o momento corresponda ao regime militar brasileiro, a denúncia do autoritarismo não necessariamente se manifesta em vínculo imediato com a atualidade. O romance de 1971, por exemplo, se passa na década de 1950, quando se digladiam a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSB).

Getúlio, o narrador-protagonista, tem a tarefa de conduzir um prisioneiro do interior do Sergipe à capital do estado, Aracaju. A narrativa se desenvolve ao longo do percurso, com predomínio da primeira pessoa, em um quase ininterrupto monólogo. O cenário miserável da trama sustenta a revelação da precariedade psicológica dos próprios personagens. Getúlio, bruto e ignorante, não chega a compreender o jogo político no qual ele mesmo, sendo militar, atua: "Não gosto de jornal como vosmecê, acho difícil, muitas palavras. Menas verdades. Udenistas, comunistas. Comunistas udenistas", diz ao preso, capturado pelas intrigas partidárias.

Sargento Getúlio se passa em poucos dias, entre o início da viagem e a morte do protagonista. Na linguagem que simula a oralidade nordestina - construída sobre neologismos, reproduções dos desvios da norma culta e frases entrecortadas -, a violência do meio e a psicológica são retratadas cada vez mais intensamente. Getúlio, entretanto, apesar das adversidades, cumpre trajetória em que se revela sua virtude. Entre mandos e desmandos decorrentes da instável situação política, luta para permanecer fiel a suas crenças.

No que é considerado o segundo núcleo da produção de Ribeiro, a inventividade linguística se mantém, mas os romances se estruturam tradicionalmente. Viva o Povo Brasileiro, que alcança grande sucesso de público, almeja abarcar mais de 300 anos da história do país, da colonização à contemporaneidade, em busca declarada de algo que defina a identidade nacional. Ao plano que se quer histórico une-se o fantástico, iniciado no Poleiro das Almas, em que estas esperam pela encarnação. Todo o livro se desenvolve nessa dicotomia, com uma dessas almas reencarnando sucessivamente e conduzindo a trama de 1647, quando os holandeses chegam à Ilha de Itaparica, até 1977, quando recrudesce o regime militar.

Dicotomia é o que ocorre também no âmbito da linguagem. As fontes eruditas se alternam com as populares, e a estrutura considerada comercial convive com a sofisticada intertextualidade. Cada período histórico é narrado em uma paródia do estilo literário que a ele se refere: os capítulos relativos à colonização mimetizam os textos de cronistas e viajantes; os trechos dedicados à Independência parodiam o primeiro romantismo brasileiro; momentos mais recentes são retratados em tom que recupera o regionalismo e o romance de 1930. O trânsito do autor por registros diversos, entretanto, talvez encontre seu maior exemplo no capítulo dedicado à Guerra do Paraguai (1864-1870). O embate entre os soldados brasileiros e os paraguaios parodia Ilíada, de Homero, substituindo os deuses gregos por divindades iorubas.

A estrutura ambivalente tem consequências também para o conteúdo propriamente político do livro, pois a trama é desenvolvida até o encontro da "canastra", objeto em que estaria armazenada a verdade sobre a experiência coletiva brasileira. A identidade nacional é oferecida, assim, ao mesmo tempo como "imaginária e real", nas palavras do crítico José Antonio Pasta Júnior. Em sua opinião, a solução suspenderia as contradições inerentes às condições objetivas brasileiras, e, tendo caráter mágico, impediria a reflexão mais crítica e consistente sobre os problemas do país.

Nos livros que se seguem a Viva o Povo Brasileiro, esse movimento é ainda amplificado. Em casos como o de A Casa dos Budas Ditosos, que alcança amplo sucesso de público, ou de O Sorriso do Lagarto, suspense que conta com um triângulo amoroso e adaptado para a televisão, o autor se aproxima cada vez mais do que Haroldo de Campos chama de "fabulista do significado" - isto é, se mostra cada vez mais interessado nas intrigas narrativas, em detrimento das reflexões sobre a linguagem.

Outras informações de João Ubaldo Ribeiro:

  • Outros nomes
    • João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro
  • Habilidades
    • jornalista
    • professor
    • Romancista
    • Contista
    • Cronista
    • Roteirista

Obras de João Ubaldo Ribeiro: (1) obras disponíveis:

Midias (2)

João Ubaldo Ribeiro e Márcio Souza - Jogo de Ideias (2010) - Parte 2/2
Itaú Cultural

João Ubaldo Ribeiro e Márcio Souza - Jogo de Ideias (2010) - Parte 1/2
Itaú Cultural

Fontes de pesquisa (8)

  • CADERNOS de literatura nº 7. João Ubaldo Ribeiro. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 1999.
  • COUTINHO, Wilson. João Ubaldo Ribeiro: um estilo da sedução. Rio de Janeiro: Relume Damará: Prefeitura, 1998.
  • JOÃO UBALDO. Biografia. Disponível em < http://www.releituras.com/joaoubaldo_bio.asp>. Acesso em: 13 nov. 2006.
  • MIYAZAKI, Tieko Yamaguchi. Um tema em três tempos: João Ubaldo Ribeiro, João Guimarães Rosa, José Lins do Rego. São Paulo: Editora Unesp, 1996.
  • Morre no Rio o escritor João Ubaldo Ribeiro. In G1. Disponível em: < http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/07/morre-no-rio-o-escritor-joao-ubaldo-ribeiro.html>. Acessado em: 18 jul 2014.
  • PASTA JÚNIOR, José Antonio. Prodígios de ambivalência: notas sobre viva o povo brasileiro. In: Novos Estudos - Cebrap. São Paulo, n. 64, novembro de 2002. p. 61- 71,
  • Programa do Espetáculo - A Casa dos Budas Ditosos - 2003.
  • SILVERMAN, Malcom. As distintas facetas de João Ubaldo Ribeiro. In: _____. Moderna ficção Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • JOÃO Ubaldo Ribeiro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa7658/joao-ubaldo-ribeiro>. Acesso em: 20 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7