Artigo da seção pessoas Autran Dourado

Autran Dourado

Artigo da seção pessoas
Literatura  
Data de nascimento deAutran Dourado: 18-01-1926 Local de nascimento: (Brasil / Minas Gerais / Patos de Minas) | Data de morte 30-09-2012 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Waldomiro de Freitas Autran Dourado (Patos de Minas, Minas Gerais, 1926 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012). Romancista, contista, jornalista e jurista. Passa a infância e adolescência em Monte Santo e São Sebastião do Paraíso. Entre 1940 e 1954, vive em Belo Horizonte, onde conclui o curso clássico e inicia a faculdade de direito. Nesse período, com 17 anos, apresenta para o escritor Godofredo Rangel (1884-1951) seu primeiro livro de contos. O escritor incentiva-o a continuar escrevendo, atividade comum no círculo de jovens intelectuais do qual o rapaz participa durante o período universitário. Com esse grupo, Autran cria a revista Edifício. Mais tarde, em 1947, apresenta sua obra de estréia: a novela Teia, escrita quando trabalha como taquígrafo da Assembleia Legislativa e colabora com o jornal Estado de Minas.

Depois de formado, conquista dois prêmios literários: o primeiro, com Sombra e Exílio (1950), e o segundo, com Tempo de Amar (1952), este agraciado com Prêmio Cidade de Belo Horizonte. Em 1954, muda-se para o Rio de Janeiro, para trabalhar na campanha de Juscelino Kubitschek à presidência e, depois, como seu assessor de imprensa. Nesse período, publica o primeiro volume de contos. A partir da década de 1960, trabalha nas obras que o consagram: os romances A Barca dos Homens (1961) e Ópera dos Mortos (1967), este incluído na coleção “Obras Representativas da Literatura Universal da UNESCO”, e a novela Uma Vida em Segredo (1964).

Passa a trabalhar no Tribunal de Justiça da Guanabara ao mesmo tempo em que escreve seus livros: os destaques do período são O Risco do Bordado (1973), um “romance desmontável”, composto por episódios quase independentes, e o denso Os Sinos da Agonia (1974). Em 1981, As Imaginações Pecaminosas, livro de contos premiado com um Jabuti, angaria um prêmio alemão: o Goethe de Literatura. Nas décadas de 1980 e 1990, continua a publicar contos e romances, chegando a receber, em 2000, o Prêmio Camões, o mais importante em língua portuguesa.

Análise

A ficção de Autran Dourado é introspectiva, trilhada por meio da técnica do “monólogo interior” ou, nas palavras do crítico brasileiro Alfredo Bosi (1936) a “escola do olhar”. Inclui em sua linguagem características de falares regionais ou mesmo neologismos, como se percebe em trechos de Ópera dos Mortos, narrados sob a perspectiva do sertanejo José Feliciano ou da negra Quiquina.

A obra não se sustenta apenas na tensão entre regionalismo e introspecção. Em seus contos, detecta-se o provincianismo. No caso, a cidade que serve de cenário para as histórias é Duas Pontes, lugarejo mineiro no qual transitam personagens que migram de um conto a outro, o que cria uma espécie de “universo autraniano”. Participam desse mundo ficcional desde os representantes do conservadorismo arcaico, como o coronel Sigismundo Aroeira e Silva, passando pelo pedantismo intelectual e verborrágico de dr. Viriato, até a modernidade de um escritor como João da Fonseca Nogueira, que o próprio Autran afirma ser o seu alter ego.

A tensão entre  provincianismo citadino e a intimidade pessoal ou familiar marcam as obras do autor. É o caso da novela Uma Vida em Segredo (1964), relato da vida de Biela, personagem humilde, literariamente aparentada à Felicitè do conto “Um coeur simple”, do francês Gustave Flaubert (1821-1880). A tensão também marca Ópera dos Mortos, romance claustrofóbico, que o crítico Massaud Moisés (1928-2018), por conta da “atmosfera fantasmagórica, irracional”, aproxima da obra A Rose for Emily do norte-americano William Faulkner (1897-1962), e que João Lafetá sugere ter sido inspirado em Antígona.

O romance é narrado em terceira pessoa e, por meio do “monólogo interior” assume a perspectiva de diferentes personagens. O conflito entre o mundo exterior e o interior acontece pela relação entre Rosalina e sua cidade. A personagem representa costumes patriarcais e vive isolada no sobrado que herda do pai, e a cidade, ao mesmo tempo em que se moderniza, mantém costumes arcaicos. Rosalina é neta do coronel Lucas Procópio Honório Cota, fazendeiro temido por sua violência, mas cujo filho, João Capistrano, dele se diferencia por sua civilidade e gentileza. A relação do filho do coronel com a cidade é respeitosa, até ser abalada por desavenças políticas que o farão isolar o casarão da família em relação a Duas Pontes. Após herdar do pai a mansão familiar, Rosalina mantém-se afastada da sociedade, convivendo apenas com uma negra que lhe serve de empregada: a surda Quiquina. A paz do casarão é interrompida com a contratação de José Feliciano, um sertanejo caolho que vive de pequenos bicos, mas que tenta assentar-se em um emprego fixo. A relação amorosa entre patroa e empregado é responsável pela ação que conduz os personagens ao clímax trágico.

As tensões, nessa obra, dão-se em diferentes níveis. No interior da mansão, entre a aristocracia decadente de Rosalina e a astúcia falastrona e simples de José Feliciano. Em segundo plano, entre Rosalina e a cidade, ou seja, entre a introspecção claustrofóbica e o provincianismo mexeriqueiro dos habitantes de Duas Pontes, a chamada “gentinha”, nos dizeres da protagonista. A maestria de Autran encontra-se nessa correlação entre a crônica familiar, a vida angustiante de Rosalina e seu caso de amor com o empregado, e o dado local, o atraso de uma cidade interiorana que, por conta de seu passado colonial, não consegue superar costumes arcaicos.

Essa análise da experiência histórica brasileira com base nos conflitos de um grupo familiar ganha densidade em outro romance, Os Sinos da Agonia (1974). Segundo Massaud Moisés, é a obra mais bem trabalhada do autor. Nela, Autran retrocede aos tempos do pioneirismo minerador, na segunda metade do século XIX. Mescla, outra vez, o histórico e o individual, por meio do triângulo amoroso formado por Malvina, seu marido João Diogo Galvão, e o enteado Gaspar.

Outras informações de Autran Dourado:

  • Outros nomes
    • Waldomiro Freitas Autran Dourado
  • Habilidades
    • Romancista
    • Contista
    • jornalista
    • jurista

Obras de Autran Dourado: (2) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (10)

  • Bosi, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1989.
  • LAFETÁ, João Luiz. Biografia. In: LAFETÁ, João Luiz. Os Melhores contos de Autran Dourado: seleção de João Luiz Lafetá. 2. ed. São Paulo: Global, 2001.
  • LAFETÁ, João Luiz. Uma fotografia na parede. In: LAFETÁ, João Luiz. Os Melhores contos de Autran Dourado: seleção de João Luiz Lafetá. 2. ed. São Paulo: Global, 2001.
  • LEPECKI, Maria Lúcia. Autran Dourado: uma leitura mítica. São Paulo: Quíron, 1976. (Escritores de Hoje).
  • LUCAS, Fábio. A face visível: crítica. Rio de Janeiro: José Olympio; São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1973.
  • LUCENA, Suênio Campos de. 21 escritores brasileiros: uma viagem entre mitos e motes. São Paulo: Escrituras, 2002.
  • MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1971.
  • MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira, v. 5 (Modernismo). São Paulo: Cultrix, 1989.
  • PÓLVORA, Hélio. A força da ficção. Petrópolis: Vozes, 1971.
  • ROCHA, Diva Vasconcelos da. Introdução: a busca do espaço perdido instauradora de um novo espaço. In: DOURADO, Autran. Uma vida em segredo. São Paulo: Ediouro, 1972.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • AUTRAN Dourado. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa7267/autran-dourado>. Acesso em: 17 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7