Artigo da seção pessoas Rubem Braga

Rubem Braga

Artigo da seção pessoas
Literatura  
Data de nascimento deRubem Braga: 12-01-1913 Local de nascimento: (Brasil / Espírito Santo / Cachoeiro de Itapemirim) | Data de morte 19-12-1990 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia
Rubem Braga (Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, 1913 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1990). Cronista, poeta e jornalista. Nascido numa família de sete irmãos, recebe em casa as primeiras lições, conduzidas pela irmã mais velha. Estuda em Niterói, Rio de Janeiro, entre 1927 e 1928, onde conclui o curso ginasial. Em 1929, realiza suas primeiras crônicas para o jornal Correio do Sul, de Cachoeiro do Itapemirim. Ingressa na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, mas finaliza a graduação na Faculdade de Belo Horizonte, em 1932. É, então, contratado pelo Diário da Tarde, para o qual passa a escrever crônicas diárias. Ainda em 1932, realiza a cobertura da Revolução Constitucionalista para os Diários Associados, de Assis Chateaubriand. No ano seguinte, transfere-se para o Diário de S.Paulo e, em 1935, é convidado a trabalhar no Diário da Noite e em O Jornal, ambos no Rio de Janeiro. Ainda em 1935, recebe convite para chefiar a página policial do Diário de Pernambuco e muda-se para o Recife. Posteriormente, trabalha na fundação da Folha do Povo, órgão ligado à Aliança Nacional Libertadora (ANL), de oposição ao governo de Getúlio Vargas. Perseguido, muda-se para o Rio de Janeiro, onde integra a equipe de A Manhã, também ligado à ANL. Por sua manifestação de adesão à Intentona Comunista, o jornal é fechado pelo governo. Já em Minas Gerais, publica o primeiro livro, a seleção de crônicas O Conde e o Passarinho (1936). Em 1937, instaurado o Estado Novo, volta a ser perseguido, por sua participação na fundação da revista Problemas, em que se reúnem intelectuais marxistas e socialistas. Em 1940, quando tenta sair de São Paulo para o norte do país, é preso. Torna-se, em 1943, chefe de publicidade do Serviço Especial de Saúde Pública de Minas Gerais, onde há uma grande mobilização de políticos e intelectuais oposicionistas. No ano seguinte, publica seu segundo livro, O Morro do Isolamento, e vai à Itália com a Força Expedicionária Brasileira, enviado pelo Diário Carioca para cobrir a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. As viagens internacionais tornam-se constantes: cobre a eleição de Perón, na Argentina, em 1946; passa seis meses em Paris, como correspondente de O Globo, em 1947; entre 1950 e 1952, atua como correspondente europeu para o Correio da Manhã; em 1956, acompanha a eleição de Dwight D. Eisenhower, nos Estados Unidos. Durante o governo de João Café Filho (1954-1955), assume, por oito meses, a chefia do Escritório de Propaganda e Expansão Comercial do Brasil no Chile. É nomeado por Jânio Quadros embaixador do Brasil em Marrocos, em 1961. Com Fernando Sabino (1923-2004), cria a Editora do Autor, em 1960, e, com a participação também de Otto Lara Resende (1922-1992), a Editora Sabiá, em 1967, que, posteriormente, é adquirida por José Olympio (1902-1990). A partir de 1975, integra a equipe de jornalismo da Rede Globo de Televisão.

Análise

A crônica é definida por Rubem Braga como "essa faculdade de dar um sentido solene e alto às palavras de todo dia". A formulação se aplica perfeitamente à sua própria obra. Desde os primeiros textos, publicados aos 18 anos, sempre em jornais, o autor sabe extrair experiências reflexivas universais de fatos cotidianos, fundadas no lirismo.
 
Com a clareza e a precisão características de textos jornalísticos, manifestas sobretudo em uma sintaxe simples e direta e na economia de adjetivos, as crônicas se desenvolvem a partir de uma estrutura geral: "Inserção do depoimento biográfico sob a aparência do comentário despretensioso, equilibrando a transcrição do fato e a revelação de seu absurdo existencial", nas palavras de Flávio Loureiro Chaves.

As crônicas inicialmente assumem o tom do conto oral, ou, segundo Davi Arrigucci Jr., do "causo popular do interior do Brasil, onde um saber feito de experiências se comunica de boca em boca por obra de narradores anônimos". Assim, são expostas experiências aparentemente subjetivas, por vezes em tom confessional.
 
No desenvolvimento das crônicas, não há, portanto, nesse sentido, esclarecimento das relações de causa e efeito entre o que o narrador observa e as reflexões que propõe. O apagamento dos limites entre o subjetivo e o objetivo pode ser exemplificado pela forma como se relacionam memória e história.
 
Ao escolher o presente como tempo privilegiado de seu discurso, o narrador aproxima-se da descrição, eliminando a sucessão cronológica dos eventos e compondo um quadro de simultaneidade. Cria-se, então, um presente contínuo, um tempo particular cujos componentes, de acordo com Alcir Pécora e Paulo Franchetti, "podem incorporar dentro de si a irrupção de um passado mais ou menos perdido".
 
Da articulação, portanto, entre o retrato do tempo presente e as recordações de infância, que frequentemente retornam aos textos de Braga, nasce o "instante singular da revelação, da visão instantânea, em que", afirma Arrigucci, "esse passado de sombras se atualiza inesperadamente à luz do presente ou se mostra como esplendor do irremissivelmente perdido".
 
Como exemplo, pode-se recorrer à sucinta crônica "O Pavão" (Ai de ti, Copacabana) - embora não se trate, a rigor, de um texto narrativo -, em que se nota a mesma técnica de justaposição. Cada um dos três breves parágrafos traz considerações que se relacionam, de modo a compor sentido unitário. Na primeira delas, o narrador afirma ter descoberto que o "luxo imperial", o "esplendor" de cores desse animal, não se deve à existência de pigmentos em suas penas; "o que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma". Em seguida, afirma: "Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos". E, finalmente: "Considerei, por fim, que assim é o amor [...]; em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar".
 
Por meio da revelação proporcionada a respeito das cores do pavão, o narrador afirma que o "grande mistério é a simplicidade", asserção que se pode aplicar tanto ao ofício do artista quanto ao amor. Essas descobertas, contudo, parecem súbitas e espontâneas - e o processo dedutivo é apenas indicado, permanecendo implícitos seus nexos causais.
 
É porque o cronista extrai a poesia das coisas simples que não se pode ignorar sua relação com o modernismo. Ou, mais especificamente, a proximidade entre os textos de Braga e os poemas de Manuel Bandeira (1886-1968). Pois "a vida é feita de pequenos nadas", escreve o poeta. É nessas miudezas que ambos colhem sua poesia. Braga descobre a verdade do artista nas penas do pavão; encontra a dureza da desigualdade social em uma janela com vista para o mar ("Os perseguidos"); recupera o fascínio pela vida ao testemunhar o mergulho no mar de uma mulher que perde o marido ("Viúva na Praia").
 
Essa beleza da vida, entretanto, não deixa de ser melancólica. Afinal, a imagem da mulher na areia não se desvincula do luto já superado: "Respira fundo o vento do mar; tão diferente daquele ar triste do quarto fechado do doente, em que viveu meses". Para que seja possível sustentar o prazer encontrado pelo narrador e a alegria na figura da personagem, é necessário que o tempo se suspenda: "Ondas espoucam ao sol. O sol brilha nos cabelos e na curva do ombro da viúva. Ela está sentada, quieta, séria, uma perna estendida, outra em ângulo. [...] O sol ama a viúva". A crônica, então, torna-se descritiva, eternizando o instante.
 
Nem mesmo o retorno à infância escapa da sensação do que é irrecuperável: as memórias voltam apenas para mostrar que há um espaço que nem o presente, nem o passado podem preencher.
 
Tendo se definido como "caçador de ventos e melancolias", Rubem Braga se consolida como um dos maiores, se não o maior, cronistas brasileiros. Seus textos ultrapassam o meio em que são publicados, compondo obra única, reunida em quase 30 livros. Como afirma Loureiro, "no fundo, a crônica de Rubem Braga é uma só - a narrativa da solidão; e os diversos textos que a compõem, produzidos em diferentes momentos, podem ser lidos como fragmentos de um mosaico, que retratam a multiplicidade do real mas convergem sempre para esse tema medular".

Outras informações de Rubem Braga:

Midias (1)

José Castello e as pequenas coisas de Rubem Braga (2013)
Itaú Cultural

Espetáculos (1)

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • RUBEM Braga. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa6903/rubem-braga>. Acesso em: 19 de Set. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7