Artigo da seção pessoas Mario Quintana

Mario Quintana

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / teatro / literatura  
Data de nascimento deMario Quintana: 30-07-1906 Local de nascimento: (Brasil / Rio Grande do Sul / Alegrete) | Data de morte 05-05-1994 Local de morte: (Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre)

Biografia
Mario de Miranda Quintana (Alegrete RS 1906 - Porto Alegre RS 1994). Poeta, tradutor e jornalista. Cursa os estudos básicos na cidade natal. Muda-se com a família para Porto Alegre, em 1919, e ali publica seus primeiros poemas, numa revista editada pelos estudantes do Colégio Militar. Em 1929, ingressa no jornal O Estado do Rio Grande e conhece escritores e intelectuais como Augusto Meyer e Erico Verissimo (1905 - 1975). Em 1934, inicia sua carreira de tradutor, publicando uma versão para o português do livro Palavras e Sangue, do escritor italiano Giovanni Papini (1881 - 1956). Seu primeiro livro de poesia, A Rua dos Cataventos, que reúne sonetos de influência parnasiana, é publicado em 1940. Na obra seguinte, Canções, de 1946, o poeta revela poemas de mais liberdade formal, tendência que permanece em obras posteriores. Em 1953, Quintana vai para o Correio do Povo, em que é colunista da página de cultura até 1977. Em 1966, quando o poeta faz aniversário de 60 anos, é publicada a sua Antologia Poética, com 60 poemas inéditos, organizada por Rubem Braga (1913 - 1990) e Paulo Mendes Campos (1922 - 1991). Quintana traduz mais de 130 obras, entre elas Em Busca do Tempo Perdido, do francês Marcel Proust, e Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf.

Comentário Crítico
Apesar de conhecido pelo humor dos poemas em prosa e pela simplicidade e coloquialismo de suas composições mais amplamente divulgadas, Mario Quintana tem  uma poesia rica e diversificada. Relacionado à segunda geração modernista, transita livremente entre formas, tendências e estilos poéticos, o que lhe confere uma trajetória singular na literatura brasileira.

A Rua dos Cataventos (1940), livro de estreia de Mario Quintana, reúne sonetos escritos conforme as regras tradicionais de métrica e rima, inserindo-se numa estética neoclássica. Porém, já estão presentes aqui elementos da fase madura do poeta, como o uso de palavras simples, o humor, a coloquialidade e o retrato de cenas do cotidiano, como nos versos: "Minha rua está cheia de pregões. / Parece que estou vendo com os ouvidos: / 'Couves! Abacaxis! Caquis! Melões!' / Eu vou sair pro Carnaval dos ruídos". Estão presentes nesse volume referências urbanas, lembranças da infância, evocações religiosas e a nostalgia de um passado real ou imaginado, mas o tema-chave é o próprio poeta, que representa a si mesmo de forma irônica, usando por vezes o humor negro: "Sou o meu próprio Frankenstein? olhai! / O belo monstro ingênuo e sem memória".

Já em Canções (1946), Quintana revela uma linguagem próxima da consagrada pelo modernismo, abandonando o soneto e usando formas mais livres. A mudança de estilo em seu segundo livro leva a crítica a apontar uma evolução do autor da lírica parnasiana para a modernista, hipótese contestada por Tânia Franco Carvalhal, que no ensaio O Poeta Fiel a si Mesmo diz: "Mario Quintana começou a publicar na imprensa desde os anos 1920 e só iria reunir seus poemas em livros a partir de 1940. Ocorreu assim que os textos que integram cada obra foram elaborados simultaneamente, o que levou o poeta a afirmar: 'O fato é que nunca evoluí. Sempre fui eu mesmo'. Esta afirmação contradiz a aparência de uma evolução que a disposição lógica dos poemas ocasionou". O que os poemas, vistos dessa perspectiva, mostram efetivamente é a busca por linguagem própria, que se manifesta simultaneamente por meio de diversas formas e estilos.

Em Canções, Quintana mantém a sutileza, a musicalidade e o tom sentimental ou ingênuo de seu livro de estreia, mas encontram-se peças de surpreendente inovação formal, como a Canção de Nuvem e Vento: "Medo da nuvem / Medo Medo / Medo da nuvem que vai crescendo / Que vai se abrindo / Que não se sabe / O que vai saindo / Medo da nuvem Nuvem Nuvem / Medo do vento / Medo Medo". O livro, publicado pouco tempo após o término da Segunda Guerra Mundial, período marcado pela violência, devastação, angústia e medo, tem uma abordagem sutil, paradoxal ou mesmo enigmática, ao tratar os acontecimentos políticos da época: "Medo do gesto / Mudo / Medo da fala / Surda / Que vai movendo / Que vai dizendo / Que não se sabe... / Que bem se sabe / Que tudo é nuvem que tudo é vento / Nuvem e vento Vento Vento!".

Em Sapatos Floridos, publicado em 1948, Quintana utiliza o poema em prosa, a epígrafe, o paradoxo, o epigrama, as definições absurdas - formas que ele volta a trabalhar em obras posteriores, como A Vaca e o Hipogrifo, de 1977. Alguns dos poemas breves mais conhecidos de Quintana pertencem a esse volume, como Carreto: "Amar é mudar a alma de casa", ou Epígrafe: "As únicas coisas eternas são as nuvens". O humor, nesse livro, aproxima-se muitas vezes do nonsense, o que leva alguns críticos a apontarem uma faceta surrealista do poeta. O escritor Carlos Heitor Cony (1926), por exemplo, afirma que "a sutileza de seu humor chegava às vezes à total irreverência, a visão lírica de aventura humana, o menino atrás da vidraça, o homem que mora dentro dele mesmo: o poeta. Nada desprezível, também, o lado surrealista de Quintana". Com manifestos, textos teóricos e procedimentos criativos específicos, como a escrita automática, é possível identificar em Quintana elementos similares aos da poesia surrealista, e em especial as imagens poéticas que alteram a natureza ou a função de seres e objetos, como no poema Calçada de Verão: "Quando o tempo está seco, os sapatos ficam tão contentes que se põem a cantar". Tânia reconhece que na poesia de Quintana "realidade e fantasia se misturem", porém, nunca há um divórcio com o mundo objetivo: "Mesmo nos textos mais oníricos, onde a imaginação adentra para a instalação de um clima super-realista, sua poesia não perde o pé da realidade. Em seus poemas, a dimensão sobrenatural está intimamente articulada com o real".

Com O Aprendiz de Feiticeiro (1950), a poesia de Quintana passa a uma nova fase, na qual, segundo Guilhermino César, "a interpretação lírica (...) se torna mais plástica do que musical. Os valores da forma, do volume, da cor, numa sucessão de imprevistos". A nova imagética do poeta, mais direta e objetiva, ganha força em obras posteriores, especialmente Apontamentos de História Sobrenatural (1976), em que se lê um poema como Data: "Duas laranjas / Um copo d'água ao lado / As moedinhas da luz em torno / Perto / A folhinha marca 13 de janeiro". A sensação de surpresa provocada pela observação de um fenômeno da natureza ou de uma cena do cotidiano, bem como a simplicidade, o humor e a concisão verbal recordam a poesia tradicional japonesa, e em especial os haicais de Issa e Bashô, e por esse motivo Paulo Mendes Campos (1922 - 1991) escreve em Carta a Mario Quintana: "Acho a tua poesia a mais asiática da lírica brasileira". Pode-se citar, como ilustração, o poema A Bem Amada da Praia, publicado no livro Da Preguiça como Método de Trabalho (1987): "Sua bundinha / Deixou na areia / A forma exata / De um coração". A forte concisão verbal desse poema, no entanto, não é uma constante na obra do poeta, que pratica diferentes formas e estilos ao longo de sua obra, do soneto ao haicai, da quadrinha em estilo popular ao poema em prosa.

Na obra poética de Quintana, encontram-se numerosos exemplos de poemas em prosa, escritos como se fossem crônicas ou pequenos contos, mas sempre com o humor, a ironia, a simplicidade e as ações inesperadas de seus versos. O poema em prosa aparece com mais frequência nas obras de maturidade do poeta, como A Vaca e o Hipogrifo (1977) e Porta Giratória (1988), de que se pode citar Natureza Viva: "Há trovões arrastando pesados móveis, enormes cômodos pelo céu. Há outros que trabalhar não é com eles e ficam resmungando, num desvão. Por fim atracam-se. As lâmpadas, lá-alto, queimam-se em sucessivos relâmpagos, enquanto o poeta descarrega os nervos. Até que tudo vaza e se extravasa sobre o desespero dos guarda-chuvas em fuga e a verde alegria das árvores".

O trabalho na imprensa diária é vital para o trabalho poético de Quintana, pelo contato mais próximo com os leitores e também pela incorporação de temas da vida cotidiana. Um dos resultados desse diálogo entre poesia e jornalismo é o livro Hora H, publicado em 1973, que reúne poemas e textos veiculados pelo autor na revista Província de São Pedro e, posteriormente, no jornal Correio do Povo, no qual ingressa em 1953. A popularidade de Quintana, um dos poetas mais lidos no Brasil, deve muito a textos como esses, mas também valem a ele a acusação de facilidade. Sua obra, porém, é multifacetada e não pode ser julgada em bloco: é preciso discernimento para ler e avaliar a obra de Mario Quintana, em que se encontram textos de compreensão imediata e forte apelo emocional, que contribuem para sua estima pelo público, mas também peças elaboradas, de refinado acabamento artístico

Outras informações

  • Outros nomes
    • Mario de Miranda Quintana
    • Mário Quintana
  • Habilidades
    • poeta
    • tradutor
    • jornalista

Espetáculos (5)

Exposições (1)

Fontes de pesquisa (1)

  • ANUÁRIO de teatro 1994. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996. 415 p. R792.0981 A636t 1994

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • MARIO Quintana. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa659/mario-quintana>. Acesso em: 24 de Mar. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7