Artigo da seção pessoas Robertinho do Acorden

Robertinho do Acorden

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Música  
Data de nascimento deRobertinho do Acorden: 1939 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / Lucélia) | Data de morte 2006 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Histórico

José Carlos Ferraresi (Lucélia, São Paulo, 1939 – São Paulo, São Paulo, 2006). Instrumentista, compositor, produtor musical. Recebe as primeiras noções musicais de seu tio Osvaldo Ferraresi e depois na escola de Armando Patti, em Valparaíso. Aos 11 anos, integra o trio Palmeirinha1, Lenço Verde e Zezinho. Em 1951, muda-se para São Paulo, onde se apresenta em programas de calouros de várias emissoras de rádio e estuda acordeom com Angelo Reale (1903-1994). Convidado para substituir Albertinho no trio com Sertãozinho e Nhá Neide, em 1953, passa a adotar o pseudônimo Robertinho.

Com o fim do trio em 1955, ingressa no circo ao lado do humorista Nhô Belarmino. Entre 1957 e 1959, trabalha com o ator e cineasta Amácio Mazzaropi (1912-1981), atuando em seu filme Chofer de Praça (1958). Forma trio com Biá e Biazinho, usando o nome artístico Roberto Carlos – com o qual grava seu primeiro disco solo, em 1960 –, e depois com Cláudio de Barros e Nena Viana. Dirige a orquestra Tabajara Ritmos, em Lins (São Paulo). Participa do trio sertanejo Facínio, Lacerda e Roberto Carlos e atua como gerente da Rádio Piratininga de Lins.

Retorna a São Paulo em 1970. Trabalha como acordeonista, organista e secretário do cantor Waldick Soriano. Grava LP como solista de órgão, aproveitando playbacks das músicas de Waldick. Com a ida do cantor para o Rio de Janeiro, passa a acompanhar duplas em São Paulo. Forma um conjunto regional para no programa Canta Viola, da TV Record. Trabalha como organista na adega Lisboa Antiga, chegando a ser sócio e diretor artístico da casa. Atua em estúdios como multinstrumentista, além de fazer coral, arregimentação, ritmo e arranjo. Em 1973 inicia carreira de produtor na Chororó. Em 1981 trabalha como produtor do núcleo sertanejo da Polygram.

Participa como músico do filme Mágoa de Boiadeiro (1978), estrelado por Sérgio Reis. Faz as trilhas de filmes como A Volta do Jeca (1984), do diretor italiano Pio Zamuner (1935-2012). Grava com várias duplas sertanejas, entre as quais Tonico e Tinoco, Leo Canhoto e Robertinho, Cascatinha e Inhana e As Galvão. Como produtor independente, lança dezenas de duplas e trios, além de um grande número de cantores evangélicos. Permanece por quase 20 anos como músico do programa Viola, Minha Viola, apresentado por Inezita Barroso (1925-2015) na TV Cultura.

Análise 

Crescido no interior de São Paulo, onde escuta música caipira através do serviço de alto-falantes de sua cidade natal, Robertinho do Acordeon tem sua escuta marcada pelas duplas caipiras. Apesar de ter recebido alguns rudimentos de formação musical, seu principal aprendizado é de ouvido. Para ele, o que diferencia o “sanfoneiro” do “acordeonista”, é o nível de estudo no instrumento, sendo o segundo um executante mais especializado. No entanto, ele não entende isso como uma hierarquia, considerando muito raro encontrar um acordeonista que seja ao mesmo tempo “bom de ouvido e de música (pauta)”. Ele se coloca no meio termo entre essas duas categorias, tendo como influências o sanfoneiro Rielinho, o professor  ngelo Reale e acordeonista ítalo-americano Jô Basile.

Sua diversificada trajetória é bastante representativa dos rumos tomados pela música sertaneja ao longo do século XX. Se no início cabe a agentes da capital explorar o filão, uma segunda geração, crescida no interior e adaptada ao padrão dos três minutos de gravação dos discos de 78 rotações, é responsável por incorporar manifestações populares do interior e das bordas da cidade. Esta geração, na qual Robertinho inicia sua carreira, também promove o cruzamento de sonoridades ibero-indígenas, inserindo ritmos ainda não gravados, como o recortado, a guarânia e a polca paraguaia. Nesse momento, a sanfona – trazida pelos imigrantes italianos no século XIX e popularizada por Luiz Gonzaga (1912-1989) nos anos 1940 – ganha maior destaque na música caipira.

Nos anos 1950, sob influência da música mexicana, que chegam sobretudo através de Miguel Aceves Mejía, os corridos e rancheiras também se alojam na música caipira. Em sua autobiografia, Robertinho afirma que a grande virada se dá com a gravação de “Boneca Cobiçada” por Palmeira e Biá, em 1956. A partir dela, instrumentos até então estranhos à música sertaneja começam a fazer parte dos arranjos, bem como ela passa a se fundir com outros gêneros, tais como tangos, boleros, baladas. Nos anos 1960, com a influência das bandas de rock, a música sertaneja incorpora instrumentos e temática do playboy, espécie de vaqueiro da cidade, e se aproxima à balada romântica da Jovem Guarda.

Ao longo de sua trajetória, Robertinho vivencia todas essas transformações, inclusive na nomenclatura – da música caipira à sertaneja. Embora a maior parte de sua carreira tenha sido desenvolvida nesses gêneros, ele também tem uma extensa atuação na MPB. Como músico acompanhante, trabalha com artistas como Moacir Franco (1936), Beth Carvalho (1946), Belchior (1946-2017) e Ângela Maria. Como solista, não se restringe a um gênero. Explora as múltiplas possibilidades de seu instrumento, gravando rancheiras, polcas, choros, xotes, valsas, boleros. Em Calendário de Tangos (1975), revive clássicos do gênero portenho, como “Caminito”, “Mano a Mano” e “Adiós Muchachos”. Já em Rincón Guarany (1977) desenvolve um repertório de guarânias, rasqueados e outros gêneros da fronteira.

Apesar de sua extensa atividade estar registrada em discos autorais, muitas de suas interpretações se encontram em produções de televisão e atuações ao vivo, sobretudo ao lado de Inezita Barroso, com quem trabalha com mais frequência em seus últimos anos de vida. Além disso, tem uma vasta participação como instrumentista (acordeom, piano, órgão, vibrafone, marimba, gaita de boca, violão, contrabaixo, bateria) no disco de outros artistas. Desempenha ainda um papel importante como produtor, numa época em que não se dava o mesmo tratamento dispensado à MPB para a música sertaneja, e que os arranjos muitas vezes eram improvisados dentro do estúdio.

Notas

1 Palmeirinha depois troca de pseudônimo e forma a dupla Tião Carreiro e Pardinho.

2 FERRARESI, José Carlos [Robertinho do Acordeon]. Eu e a música sertaneja. São Paulo: Ed. Santo Agostinho, s/d. p. 46

Fontes de pesquisa (5)

  • FERRARESI, José Carlos [Robertinho do Acordeon]. Eu e a música sertaneja. São Paulo: Ed. Santo Agostinho, s/d.
  • NEPOMUCENO, Rosa. Música caipira. Da roça ao rodeio. São Paulo: Editora 34, 1999.
  • ROBERTINHO do Acordeon. Recanto Caipira. Disponível em: http://www.recantocaipira.com.br/duplas/robertinho_do_acordeon/robertinho_do_acordeon.html. Acesso em 24 ago. 2017.
  • ROBERTINHO do Acordeon. IMDb. Disponível em: http://www.imdb.com/name/nm1146585/bio?ref_=nm_ov_bio_sm. Acesso em 27 ago. 2017
  • VILELA, Ivan. Cantando a própria história: música caipira e enraizamento. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2013. 328p.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ROBERTINHO do Acorden. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa638692/robertinho-do-acorden>. Acesso em: 19 de Out. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7