Artigo da seção pessoas Amália Rodrigues

Amália Rodrigues

Artigo da seção pessoas
Música / teatro  
Data de nascimento deAmália Rodrigues: 1920 Local de nascimento: (Portugal / Distrito de Lisboa / Lisboa) | Data de morte 1999 Local de morte: (Portugal / Distrito de Lisboa / Lisboa)

Biografia

Amália da Piedade Rebordão Rodrigues (Lisboa, Portugal, 1920 – Idem, 1999). Cantora, atriz, poetisa. Trabalha como costureira, operária e vendedora. Desde a infância, demonstra talento para o canto. Inicia carreira profissional em 1939, na casa de fados Retiro da Severa, seguindo para o Solar da Alegria e o Café Luso. Estreia no teatro com a peça Ora Vai Tu! (1940), atuando regularmente em revistas e operetas até 1947. Em 1955, retorna aos palcos para encenar o drama A Severa (1901), do português Júlio Dantas (1876-1962).

Em 1944, faz temporada de três meses no Rio de Janeiro, passando pelo Cassino de Copacabana, Teatro João Caetano e pela Rádio Globo. Volta ao Brasil em 1945 para atuar nas revistas Boa Nova e Rosa Cantadeira. Grava seus primeiros discos no país no início de 1946. Estreia no cinema com o filme Capas Negras (1947). No mesmo ano, protagoniza Fado, História d’uma Cantadeira.

Participa de espetáculos patrocinados pelo Plano Marshall em diversas cidades europeias em 1950, sendo a única intérprete de música popular do elenco. Em 1952, entra em cartaz no clube La Vie en Rose, em Nova York. Faz várias temporadas em Paris, no Olympia e no Bobino, que resulta no disco Amália no Bobino (1960).

Em 1962, lança o disco Busto, início da parceria com o compositor Alain Oulman (1928-1990). Grava poetas galaico-portugueses, como no disco Amália Canta Luís de Camões (1965). Em 1970, lança os álbuns Amália/Vinícius, gravado ao vivo em sua casa durante a visita do poeta e compositor Vinícius de Moraes (1913-1980), e o premiado Com que Voz. Participa da telenovela Os Deuses Estão Mortos (TV Record, 1971).

Em 1972, apresenta o espetáculo Um Amor de Amália no Canecão, Rio de Janeiro. Grava o LP de canções italianas A una Terra che Amo (1973). Em 1974, são lançados os álbuns Encontro – Amália e Don Byas e Amália no Café Luso. Acusada de simpatizar com a ditadura de Salazar, sua popularidade cai em Portugal após a Revolução dos Cravos (1974). Retira-se temporariamente da vida pública.

Em 1980, lança Gostava de Ser Quem Era, composto por dez fados originais com letras de sua autoria. Em 1997, seus poemas são publicados no livro Versos. Muitos deles, musicados, são sucessos de sua carreira, como “Estranha Forma de Vida” e “Trago o Fado nos Sentidos”.

Análise

Amália desponta num contexto em que o fado entra em uma nova fase de evolução musical. A obra da fadista exemplifica essas mudanças e introduz inovações. Sua trajetória pode ser dividida em três fases. A primeira, até os anos 1950, quando se estabelece como cantora. A segunda, entre 1950 e 1960, quando faz notáveis interpretações de fados já consagrados, grava poetas portugueses clássicos – como Camões (1524-1580) e Bocage (1765-1805) – e experimenta o gênero fado-canção. A terceira, após 1960, quando atinge a maturidade como intérprete e conta com a colaboração do compositor Alain Oulman. Com essa parceria, renova o  repertório e atinge uma sofisticação harmônica até então desconhecida no fado, contribuindo para a maturidade poética e musical do gênero.

Sua voz também passa por transformações ao longo da carreira. A princípio, canta numa região mais aguda, passando para a região de meio-soprano nas décadas de 1960 e 1970 e, a partir da década de 1980, para contralto. Mantém, contudo, como característica comum a afinação, a ornamentação do fraseado musical e uma construção rítmica que busca reforçar a dramaticidade do que interpreta.

Uma das recriações empreendidas por Amália está na estrutura musical, ao eliminar as repetições das letras quando se apresenta para públicos estrangeiros, que não compreendem o idioma português. Embora adote a estrutura tradicional do fado-canção, isto é, a alternância entre refrão e estrofes, a cantora passa a repetir a primeira ou a segunda parte apenas em função de uma palavra ou nota musical que lhe agrade. Também demonstra protagonismo ao escolher poetas e compositores e no tratamento conferido à interpretação: supera a isometria dos versos dodecassílabos e adapta o ritmo da melodia a métricas irregulares, explorando os recursos do glissando e do rubato.

Amália cria uma ornamentação melódica com pequenos melismas, que remetem ao canto cigano andaluz e ao canto mourisco. Apesar de ter o fado como ponto de partida, abre-se ao diálogo com outros gêneros da canção urbana, cuja temática seja ausência, solidão e saudade. Sua obra traz influências do flamenco, das cantigas rurais portuguesas e das marchas populares de Lisboa, estas associadas às festas religiosas nos antigos bairros lisboetas. A relação com a canção brasileira também é notável, não apenas pela amizade com compositores como Dorival Caymmi (1914-2008) e Vinícius de Moraes, mas também pela gravação de exemplares do cancioneiro brasileiro, como “Calunga” [Capiba (1904-1997)] e “Cabecinha no Ombro” [Paulo Borges (1916-2008)]. O intercâmbio com o Brasil também se dá no sentido inverso: “Estranha Forma de Vida” [parceria com A. Duarte Marceneiro (1891-1982), por exemplo, é gravada por vários intérpretes brasileiros, como Roberta Miranda (1956), Joanna (1957), Maria Bethânia (1946) e Caetano Veloso (1942).

Outra inovação é na performance da intérprete, evidente na indumentária (o uso do vestido e xale pretos, em lugar de cores quentes e bordados), no posicionamento à frente dos guitarristas e no gestual – a cabeça oscilando de acordo com o fraseado, os olhos semicerrados e a posição das mãos e braços. Estas se tornam convenções performativas, que contribuem para reelaborar a imagem da fadista: não mais uma mulher marginalizada, mas sofisticada e cosmopolita. O fado, por sua vez, deixa de ser expressão local dos bairros pobres de Lisboa e adquire dimensão massiva, internacional e profissional. Amália abre caminho para a renovação do gênero, que determina sua vitalidade até os dias atuais.

Outras informações de Amália Rodrigues:

  • Habilidades
    • Cantora/Intérprete
    • Atriz
    • Poeta
  • Relações de Amália Rodrigues com outros artigos da enciclopédia:

Fontes de pesquisa (6)

  • FERREIRA, Rui Manuel Martins. Amália Rodrigues: Com que voz, cho(ra)rei meu triste fado! – A poesia no universo fadista de Amália. Dissertação (Mestrado em Estudos Sobre as Mulheres) – Universidade Aberta, Lisboa, 2006.
  • FOLHA de S. Paulo. CD inédito da portuguesa Amália Rodrigues tem músicas brasileiras. Folha de S.Paulo, São Paulo, 13 jul. 2001. Ilustrada. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u15469.shtml >. Acesso em: 14 ago. 2017.
  • MIRANDA, Giuliana. Ligação entre Amália Rodrigues e o Brasil é tema de exposição em São Paulo. Folha de S.Paulo, 10 ago. 2016. Ora Pois. Disponível em: < http://orapois.blogfolha.uol.com.br/2016/08/10/ligacao-entre-amalia-rodrigues-e-o-brasil-e-tema-de-exposicao-em-sao-paulo/ >. Acesso em: 14 ago. 2017.
  • MORETTINI, Thays Caroline Barroca Ribeiro. Configurações passionais da solidão e da tristeza no fado de Amália Rodrigues. Dissertação (Mestrado em Letras/ Estudos Literários) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2015.
  • MUSEU do Fado. Amália Rodrigues. Museu do Fado, Lisboa. Disponível em: < http://www.museudofado.pt/personalidades/detalhes.php?id=262 >. Acesso em: 14 ago. 2017.
  • SOUZA, Ricardo Nicolay. Território, rede e cultura da tradição: o fado do século XIX no mundo do século XXI. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • AMÁLIA Rodrigues. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa638678/amalia-rodrigues>. Acesso em: 11 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7