Artigo da seção pessoas Isaac Godim Filho

Isaac Godim Filho

Artigo da seção pessoas
Teatro  
Data de nascimento deIsaac Godim Filho: 1925 Local de nascimento: (Brasil / Pernambuco / Recife) | Data de morte 2003 Local de morte: (Brasil / Pernambuco / Recife)

Biografia
Isaac Magalhães de Albuquerque Gondim Filho (Recife, Pernambuco, 1925 - idem, 2003). Dramaturgo, encenador, professor e crítico teatral. Diploma-se como cirurgião dentista, em 1946, pela Faculdade de Medicina da Universidade do Recife. Autodidata em teatro, escreve sua primeira peça, Conflito na Consciência, em 1948. Estreia como encenador, no ano seguinte, com a peça A Tempestade, de Mario Brasini (1921-1997), montada pelo Teatro Experimental do Recife, grupo do qual é fundador e diretor artístico. Na primeira metade da década de 1950, a atividade de autor teatral intensifica-se, tendo textos encenados por companhias profissionais de diversas regiões do país. Como dramaturgo, experimenta diversos gêneros, criando dramas psicológicos, tragédias rurais e comédias urbanas. É autor, também, de várias peças voltadas para o público infanto-juvenil. Em paralelo, atua como crítico de teatro nos principais jornais do Recife. Em 1953, escreve A Grande Estiagem, vencedora do Prêmio Artur Azevedo, concedido pela Academia Brasileira de Letras em 1955. Neste mesmo ano, funda e preside a Associação dos Cronistas Teatrais de Pernambuco. Em 1957, no Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, A Grande Estiagem recebe a Medalha de Prata, no Primeiro Festival Brasileiro de Teatro Amador, ficando apenas atrás do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna (1927-2014). Em 1958, sua peça A Hora Marcada, encenada pelo Teatro Novos Comediantes, obtém sucesso de público na cidade de São Paulo. Nos anos de 1957 e 1958, estuda direção teatral na Accademia Nazionale D’Arte Drammatica Silvio D’Amico, em Roma, na Itália. No mesmo período, faz o curso de educação da voz, no Centro Ortofónico La Parola, também em Roma. No ano seguinte, estuda Interpretação no Théâtre Marigny, em Paris, na França, e Dramaturgia, no London Country Council, em Londres, na Inglaterra. De volta ao Brasil, é contratado pela Escola de Belas Artes, da Universidade do Recife, para lecionar interpretação no curso de teatro. É convidado a dirigir espetáculos e a ministrar breves cursos em várias cidades da região. Durante toda a década de 1960, atua como encenador e interrompe a carreira de dramaturgo. Dirige peças de nomes consagrados no teatro nacional, como Nelson Rodrigues (1912-1980), Artur Azevedo (1855 -1908) e Antônio Callado (1917-1997), além de obras escritas por autores estrangeiros, como do alemão Bertolt Brecht (1898-1956), do norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) e do italiano Luigi Pirandello (1867-1936). Na década seguinte volta, a escrever textos teatrais de forma sistemática. A partir de então, suas peças enfocam temáticas religiosas, servindo-lhe, até o fim da vida, em sua intensa prática de teatro ligado à evangelização católica.

Análise da trajetória
Entre os dramaturgos que contribuem para a modernização do teatro pernambucano a partir de meados do século XX, Isaac Gondim Filho é um dos mais prolíficos e premiados. Destaca-se pela variedade de temas e de gêneros e pelo trânsito entre dois circuitos apartados: o teatro amador, ávido por inovações estéticas, e o teatro profissional, resistente a novidades.

Desde o início no teatro, Isaac Gondim Filho desperta a atenção dos intelectuais e dos criadores ligados às artes cênicas no Recife. Um dos primeiros a se manifestar em público a seu respeito é o dramaturgo e encenador pernambucano Hermilo Borba Filho (1917-1976). Em julho de 1950, saúda a estreia de Gondim Filho como crítico teatral do Jornal do Commercio, destacando a cultura e a sensibilidade do novo comentarista teatral.  Enxerga-o como um aliado na luta por um novo teatro em Pernambuco, um teatro de arte, e não apenas de entretenimento[1].  

Ecoando princípios do regionalismo proposto pelo sociólogo recifense Gilberto Freyre (1900-1987), Hermilo Borba Filho defende o conhecimento das vanguardas teatrais estrangeiras e a valorização das raízes culturais da região. Isaac Gondim Filho empenha-se nessa defesa. No entanto, diferentemente de outros autores, como Aristóteles Soares (1910-1989) e Ariano Suassuna, seus textos nem sempre trazem traços mais reconhecíveis da cultura nordestina.

Em peças urbanas, povoadas por personagens burgueses, como A Hora Marcada, Gondim Filho distancia-se do imaginário associado à cultura do Nordeste. Em outras obras, porém, como A Grande Estiagem, repleta de descrições naturalistas da aridez do sertão pernambucano, o autor traz uma visão do Nordeste já amplamente instituída no panorama cultural brasileiro.   

Em ambos os casos, Isaac Gondim Filho afina-se com os ideais de Gilberto Freyre, cujo regionalismo não exclui o olhar atento sobre a vida urbana. Não por acaso, talvez a primeira apreciação crítica de A Grande Estiagem, a peça mais encenada do dramaturgo, é assinada por Freyre. No Diario de Pernambuco, o sociólogo destaca a pungência com que Gondim Filho retrata o sofrimento infligido pela seca aos sertanejos nordestinos, mas faz ressalvas à preocupação excessiva com o realismo do relato. Segundo ele, o realismo inibe uma expressão poética mais simbólica e transcendente[2]. Tal apego à representação realista-naturalista, aqui apontado por Freyre como uma limitação, é traço distintivo na dramaturgia de Isaac Gondim Filho, identificável em todas as suas mais de 25 peças teatrais.    

Em 1955, o escritor maranhense Viriato Correia (1884-1967), ao emitir o parecer justificando o resultado do Prêmio Artur Azevedo, concedido pela Academia Brasileira de Letras, destaca a universalidade de A Grande Estiagem. Trata a peça como “uma tragédia rural nordestina”, tal como seu autor a designa, e como “uma tragédia em todas as colorações”[3]. Mais adiante, Correia assinala outro aspecto do teatro de Gondim Filho: a busca por um rigoroso encadeamento dramático no desenrolar da fábula. “O Sr. Isaac Gondim Filho tem o senso exato dos deveres de quem escreve para o palco. A condução de cenas de A Grande Estiagem é feita em linhas retas para emoção da plateia e os finais dos atos são traçados com um cunho de alta e segura vibração dramática”[4].

Tal apreço pelo drama, em detrimento das possibilidades épicas que interessam cada vez mais aos autores teatrais do século XX, distingue Isaac Gondim Filho na dramaturgia nordestina moderna. Enquanto Hermilo Borba Filho preconiza liberdade na escrita para o palco, inspirando-se nas formas clássicas e na poética das manifestações dos artistas populares nordestinos, Gondim Filho busca a eficiência do drama puro. Conta histórias com começo, meio e fim, estritamente por meio de diálogos.

Em peças como A Hora Marcada, sucesso de bilheteria, esse esforço em prol do drama perfeito torna-se evidente. Classificada pelo autor como “peça de tempo”, o texto é a evolução crescente da tensão dramática, expressa pela conversa angustiada de personagens burgueses confinados em um apartamento. Ao estrear no Recife, em 1964, a peça é criticada pelo diretor e autor pernambucano Valdemar de Oliveira (1900-1977), que a censura por sua filiação formal explícita a obras estrangeiras conhecidas, “de Priestley e de Sartre”.Apesar disso, ele não deixa de reconhecer a “boa condução” da ação dramática[5].  

O rigor dramático e o realismo, são atenuados, somente nas peças religiosas, de caráter evangelizador, que Isaac Gondim Filho escreve a partir da década de 1970.

Notas
[1] BORBA FILHO, Hermilo. Fora de cena. Folha da Manhã, Recife, 25 jul. 1950. Edição vespertina.
[2] FREYRE, Gilberto. Um drama chamado “A grande estiagem”. Diario de Pernambuco, Recife, 30 ago. 1953.
[3] CORREIA, Viriato. Prêmio Artur Azevedo – parecer na Academia Brasileira. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 9 jul. 1955.
[4] CORREIA, op.cit.
[5]  OLIVEIRA, Valdemar. A propósito.  Jornal do Commercio, Recife, 15 jul. 1964.

Outras informações de Isaac Godim Filho:

  • Habilidades
    • dramaturgo
    • Cenógrafo
    • professor de teatro
    • crítico de artes cênicas

Fontes de pesquisa (17)

  • CADENGUE, Antonio Edson. TAP: anos de aprendizagem (O Teatro de Amadores de Pernambuco: 1941-1947). 1989. 252 f. Dissertação (Mestrado em Artes-Teatro). Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1989.
  • FILHO, Isaac Gondim. O drama do evangelho. Prefácio de Dom Hélder Câmara. Rio de Janeiro: Vozes, 1982.
  • BACCARELLI, Milton. O teatro em Pernambuco: trocando a máscara. Recife: Fundarpe, 1994.
  • BORBA FILHO, Hermilo. Fora de cena. Folha da Manhã, Recife, 25 jul. 1950. Edição vespertina.
  • CORREIA, Viriato. Prêmio Artur Azevedo – parecer na Academia Brasileira. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 9 jul. 1955.
  • FILHO, Isaac Gondim. A grande estiagem – tragédia em 3 atos. Rio de Janeiro: SNT, 1973
  • FILHO, Isaac Gondim. A grande estiagem. Coleção Dramas e Comédias. Rio de Janeiro: SNT, 1955.
  • FILHO, Isaac Gondim. A hora marcada. Recife: Secretaria Estadual de Educação, 1960.
  • FILHO, Isaac Gondim. Conflito na consciência. Recife: Editora da Folha da Manhã, 1951.
  • FREYRE, Gilberto. Região e Tradição. Prefácio de José Lins do Rego. Rio de Janeiro: José Olympio, 1941.
  • FREYRE, Gilberto. Movimento regionalista, tradicionalista e, a seu modo, modernista do Recife. In: QUINTAS, Fátima (Org.). Manifesto Regionalista. 7. ed. Prefácio de Antônio Dimas. Recife: Fundaj: Edições Massangana, 1996.
  • FREYRE, Gilberto. Prefácio à peça Sobrados e Mocambos. In: ALVES, Leda; REIS, Luís Augusto (Orgs.). Hermilo Borba Filho: teatro selecionado – volume III. Rio de Janeiro: Funarte, 2007 [1971].
  • FREYRE, Gilberto. Um drama chamado “A grande estiagem”. Diario de Pernambuco, Recife, 30 ago. 1953.
  • PONTES, Joel. O Teatro moderno em Pernambuco. 2. ed. Prefacio de Luiz Maurício Carvalheira. Recife: Fundarpe, 1990.
  • REIS, Luís Augusto da V. Pessoa. Fora de cena, no palco da modernidade: um estudo do pensamento teatral de Hermilo Borba Filho. Prefácio de Tania Brandão. Recife: Editora Universitária da Ufpe, 2009.
  • SUASSUNA, Ariano. Teatro, região e tradição. In: Gilberto Freyre: sua ciência, sua filosofia, sua arte – ensaios sobre o autor de Casa-Grande & Senzala e sua influência na moderna cultura do Brasil, comemorativos do 25º aniversário da publicação desse seu livro. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962.
  • VIEIRA, Anco Márcio Tenório. O projeto civilizatório do regionalismo. Revista Continente Multicultural, Recife, ano 6, n. 72, p. 95-96, 2006.

Como citar?

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  • ISAAC Godim Filho. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa638013/isaac-godim-filho>. Acesso em: 17 de Fev. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7