Artigo da seção pessoas Luigi Chiaffarelli

Luigi Chiaffarelli

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Música  
Data de nascimento deLuigi Chiaffarelli: 1856 Local de nascimento: (Itália / Molise / Isernia) | Data de morte 1923 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia
Luigi Chiaffarelli (Isernia, Itália, 1856 - São Paulo, São Paulo, 1923). Pianista e professor. Nasce em Isernia, na região de Molise, centro da Itália, em família musical. Inicia-se em música com o pai, dirigindo bandas e orquestras em sua cidade natal. Dedica-se ao piano, aperfeiçoando-se, em Bolonha, com Gustavo Tofano (1844-1899) e, posteriormente, no Conservatório de Stuttgart, na Alemanha, com Sigmund Lebert (1822-1884), seu mentor. Diplomado em letras, leciona italiano, francês e alemão, chegando a dominar 13 idiomas. Opta pelo magistério, interrompe a carreira de concertista e segue para a Suíça, onde conhece o casal Sebastiana-Francisco Paula Machado que, com um  grupo de fazendeiros de Rio Claro, São Paulo, contrata-o para vir ao Brasil como professor de seus filhos. Desembarca no Rio de Janeiro em 13 de junho de 1885, encaminhando-se para Rio Claro, São Paulo, onde preside a Sociedade Filarmônica (que possui dois pianos de cauda, vindos da Alemanha), e promove saraus no Teatro Fênix. Em seguida, radica-se em São Paulo, centro de suas atividades artísticas e pedagógicas. Revoluciona o método de ensino então vigente, e atualiza o repertório praticado na cidade. Com isso, torna-se o mais conceituado professor de piano de São Paulo, que se transforma em centro de excelência, revelando artistas de destaque nacional e internacional. Participa, em 1906, da fundação do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde leciona e que, depois de seu falecimento, recebe a doação de sua biblioteca. Ao lado de seu compatriota e genro Agostino Cantù (1878-1943), professor do Conservatório, organiza uma série de concertos anuais. Após seu falecimento, são criados diversos concursos em sua homenagem, e organizados concertos memoriais, incluindo um no Teatro Municipal de São Paulo, com a participação de seus três alunos mais destacados: Antonietta Rudge (1985-1974), Guiomar Novaes (1894-1979) e Souza Lima (1898-1982). No intervalo desta apresentação, é inaugurado, no salão do Teatro, um busto de Chiaffarelli.

Análise da trajetória
Luigi Chiaffarelli é visto como um “pai fundador” do ensino pianístico sistemático e profissional no Brasil. Costuma-se atribuir à Escola Chiaffarelli a formação da primeira “geração de ouro” do piano brasileiro, com destaque para Antonietta Rudge, Guiomar Novaes e Souza Lima. A lista inclui ainda, Menininha Lobo (1904-1986), Alice Serva, Antonietta Pasqualle, Victoria Serva Pimenta, Antonietta Veiga, Brites Espinheira, Ottília M. de Campos Tavares de Lima, Isabel Azevedo Von Ihering, Maria Teresa Vicente de Azevedo, Gilda de Carvalho, Alonso A. da Fonseca, Lucilia E. de Mello, Kita de U. Canto, Sophia M. Oliveira.

Nas palavras de Mário de Andrade (1983-1945), “certamente não foi Chiaffarelli quem produziu a genialidade intrínseca de Guiomar Novaes e Antonietta Rudge. Porém, a importação natural desse grande professor para a sociedade italianizada de São Paulo produziu a floração magnífica com que a escola de piano da Cafelândia ganhou várias maratonas de piano na América”[1]. Em 1858, seu professor na Alemanha, Siegmund Lebert , desenvolve um método de piano em conjunto com Ludwig Stark (1831-1884), advogando a independência e a articulação dos dedos isolados. Esse método é um dos mais influentes do século XIX e marca a atuação didática de Chiaffarelli.

Louvado pelo musicólogo Luiz Heitor Corrêa de Azevedo (1905-1992) pela “cultura invulgar”[2], Chiaffarelli preconiza, em suas próprias palavras, que “a mão deve subordinar-se ao espírito”. Para construir esse espírito, indica aos discípulos uma bibliografia além do campo da música. Acredita que o estudo exclusivo do piano é insuficiente para a compreensão das grandes concepções musicais, e que a falta de cultura geral prejudica os músicos.

Em sua tese de doutorado sobre Chiaffarelli, Maria Francisca Paez Junqueira explica que, no método do professor, “a execução deixava de ser o dedilhar prodigioso das teclas, para se converter em manipulação de sonoridade, de cores sonoras, de combinações vibratórias, de contrastes entre caracteres, entre luz e sombra, na arte de jogar com efeitos de sonoridade”[3].

Souza Lima descreve-o como “um homem de atitude austera, de pouca conversa. Nas lições era de uma total severidade. Raramente o vi rir. Dificilmente tinha uma atitude mais camarada”[4]. Para se manter atualizado, o músico faz viagens anuais à Europa. Desde sua chegada ao Brasil, sacode o repertório pianístico, até então dominado por peças de salão e transcrições operísticas de muito colorido e escassa substância. Sua influência faz com que essas obras sejam substituídas por criações de compositores como os franceses Jean-Philipe Rameau (1683-1764), Louis Couperin (1626-1661), Camille Saint-Saëns (1835-1921) e Claude Debussy (1862-1918), dos alemães Johann Sebastian Bach (1685-1750), Ludwig van Beethoven (1770-1827), Felix Mendelssohn (1809-1847), do austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) e do polonês Frédéric Chopin (1810-1849).

Edson Leite ressalta aspecto nem sempre comentado da atuação de Chiaffarelli: seu papel como incentivador do nacionalismo musical brasileiro. Leite ressalta que a Semana de Arte Moderna de 1922 é liderada por um grupo de amigos e alunos que frequentam a casa de Chiaffarelli, como Antonietta Rudge, Guiomar Novaes, Menotti Del Picchia (1892-1988), Francisco Mignone (1897-1986), Mário de Andrade, Ernani Braga (1888-1948) e Heitor Villa-Lobos (1887-1959).

Paralelamente ao ensino de piano, Chiaffarelli edita, entre outras, duas obras com noções teóricas: um Método e Migalhas, em dois fascículos, com noções de pedagogia do piano, baseadas em suas aulas, além de notas sobre música em geral. Sua atividade compreende ainda a revisão de partituras de compositores como Bach, Beethoven, Chopin, Debussy, Mendelssohn, o espanhol Isaac Albéniz (1860-1909), o alemão George Frideric Haendel (1685-1759), o franco-alemão Moritz Moszkowski (1854-1925), os austríacos Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) e Franz Schubert (1797-1828) eo polonês Ignacy Jan Paderewski (1860-1941). Entre outros elementos, Chiaffarelli aborda o dedilhado, sinais para uso dos pedais, indicação metronômica,  andamento, sinais agógicos, e ritornellos.

Notas
[1] ANDRADE, Mário de. Aspectos da Música Brasileira. Belo Horizonte: Rio de Janeiro: Vila Rica, 1991.
[2] AZEVEDO, Luiz Heitor Corrêa de. 150 Anos de Música no Brasil (1800-1950). Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.
[3] JUNQUEIRA, Maria Francisca Paez. In: LEITE, Edson. Antonietta, Guiomar e Magdalena: pianistas do Brasil. São Paulo: Acquerello, 2011.
[4] LIMA, Souza. Moto perpetuo: a visão da vida através da música: autobiografia do maestro Souza Lima. São Paulo: Ibrasa, 1982.

Outras informações de Luigi Chiaffarelli:

  • Habilidades
    • professor de música
    • Pianista
  • Relações de Luigi Chiaffarelli com outros artigos da enciclopédia:

Fontes de pesquisa (6)

  • LEITE, Edson. Antonietta, Guiomar e Magdalena: pianistas do Brasil. São Paulo: Acquerello, 2011

     

  • ANDRADE, Mario de. Aspectos da música brasileira. São Paulo: livraria Martins Editora, 1965.
  • AZEVEDO, Luiz Heitor Corrêa de. 150 Anos de Música no Brasil (1800-1950). Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antônio Marcondes. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998.
  • LIMA, Souza. Moto perpetuo: a visão da vida através da música: autobiografia do maestro Souza Lima. São Paulo: Ibrasa, 1982.
  • ORSINI, Maria Stella. Uma Arrebatadora História de Amor. São Paulo: Editora C.I., 1992.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LUIGI Chiaffarelli. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa638007/luigi-chiaffarelli>. Acesso em: 24 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7