Artigo da seção pessoas Cyro Pereira

Cyro Pereira

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Música  
Data de nascimento deCyro Pereira: 14-08-1929 Local de nascimento: (Brasil / Rio Grande do Sul / Rio Grande) | Data de morte 09-06-2011 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Cyro Marin Pereira (Rio Grande, Rio grande do Sul, 1929 - São Paulo, São Paulo, 2011). Regente, pianista, compositor e arranjador. Filho do português Carlos Pereira e da italiana Alice Marin é, erroneamente, registrado com o prenome Cyrio. Começa os estudos de música no Liceu Salesiano Leão XIII de Artes e Ofícios, em sua cidade natal. Aos 12 anos, apresenta-se ao piano com colegas do colégio. Em seguida, ingressa na orquestra Jazz Botafogo e na Orquestra Nunes e Seus Rapazes – dirigida por Hélio Nunes Guedes –, para a qual escreve os primeiros arranjos. Aos 20 anos, convidado pelo acordeonista Luís Gaúcho, colega da Orquestra Nunes contratado pela Rádio Record, muda-se para São Paulo, onde trabalha como pianista no Hotel Excelsior. Lá, conhece a cantora Estherzinha de Souza (1930), com quem se casa em 1953. Por indicação de Luís Gaúcho, entra para o regional da Rádio Record e, em seguida, atua na orquestra da emissora como pianista e arranjador. Nessa função, trabalha ao lado de Hervé Cordovil (1914-1979) e Gabriel Migliori (1909-1975), cuja influência é decisiva para sua formação musical. Embora recuse-se a dar aulas formais a Cyro Pereira, Migliori dispõe-se a esclarecer dúvidas e oferecer valiosas sugestões. Em 1953, começa a reger nos programas de Almirante (1908-1980). Em 1957, recebe o Prêmio Roquete Pinto pelo programa O Maestro Veste a Música, no qual explica didaticamente seus arranjos. No ano seguinte, transfere-se para a TV Record, atuando, entre 1966 e 1969, como regente dos festivais de música popular brasileira da emissora. Na década de 1960, dedica-se mais à composição erudita, com sua Brasiliana n. 1, tocada no Teatro Municipal de São Paulo em 1963, sob regência de Armando Belardi (1898-1989). Em 1965, em parceria com Mário Albanese (1931), cria um novo gênero musical, o jequibau. No mesmo ano, atua como regente no programa O Fino da Bossa, da TV Record, apresentado por Elis Regina (1945-1982) e Jair Rodrigues (1939-2014). Em 1972, participa do Festival Internacional Onda Nueva, em Caracas, Venezuela, com a música “Contato” composta em parceria com Mário Albanese e interpretada pela cantora Cláudia. É premiado como regente e arranjador. No ano seguinte, o departamento de música da Record é desativado, e Cyro perde o emprego. De 1973 a 1975, leciona piano e orquestração no Centro Livre de Aprendizado Musical (Clam), fundado pelo grupo Zimbo Trio. Em 1976, atua como pianista de navio e, no ano seguinte, é contratado pela TV Tupi, onde fica até 1980, quando da falência da emissora. Entre 1980 e 1988, trabalha com publicidade, como compositor de “jingles” e trilhas sonoras. Em 1989, a convite do maestro Benito Juarez (1933), leciona na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) como professor de orquestração do curso de música popular, permanecendo até a aposentadoria em 1999. Ainda em 1989, participa, como regente titular, da criação da Orquestra Jazz Sinfônica, à qual está associado até seu falecimento, em 2011. Em 1996, recebe o Prêmio Carlos Gomes, do governo do Estado de São Paulo.

Análise

Cyro Pereira é um dos principais arranjadores da música popular brasileira da segunda metade do século XX. Destaca-se como regente de música popular, paralelamente à produção como compositor erudito.

Pereira pode ser considerado um autodidata, cujo saber é desenvolvido pela prática musical dentro das emissoras brasileiras de rádio da década de 1950, verdadeiras “fábricas de arranjos”. Na Rádio Record, de São Paulo, em que atua por 23 anos, escreve arranjos para a orquestra da emissora acompanhar os artistas que lá se apresentam. Constrói, então, uma linguagem musical sob a influência de Radamés Gnattali (1906-1988) e Lyrio Panicali (1906-1984), moldada no contato direto com seu mentor, Gabriel Migliori.

Também nesse ambiente desenvolve sua técnica de regência de música popular – “da linha toscaniniana”, na definição do maestro Benito Juarez, filiando-o à linhagem rigorosa do italiano Arturo Toscanini (1867-1957). “O Cyro era muito bravo. No tempo da Record, eu preferia cantar com outros maestros, e ficava tremendo se tinha que cantar com ele”, conta sua mulher, Estherzinha de Souza.

Sua atividade sofre uma mudança decisiva com a Orquestra Jazz Sinfônica. A combinação entre instrumentos sinfônicos e seção rítmica popular busca recriar a sonoridade das orquestras de rádio. Pereira é um dos “arquitetos sonoros” da Jazz. Como afirma o pesquisador Fábio Prado Medeiros em dissertação de mestrado a seu respeito, “no arquivo da orquestra, quase dez por cento das peças são de sua autoria, contando-se tanto arranjos como composições”.

A distinção entre arranjo e composição tende a ser difusa na produção para a Jazz Sinfônica. Como descreve Nelson Ayres (1947), “nas suas mãos, obras de alguns compositores tornaram-se matrizes para criações próprias, intrincadas teias de harmonias e motivos melódicos que se desenvolvem por caminhos absolutamente inesperados”.

No terreno da composição propriamente dita, a única obra remanescente de Cyro Pereira do período em que reside no Rio Grande do Sul é Saudade (1948). Trata-se de peça curta para piano solo na tradição das valsas-choro de Ernesto Nazareth (1863-1934), Radamés Gnattali e Francisco Mignone (1897-1986).

Em 1962, escreve a primeira peça sinfônica, a Brasiliana n. 1, que recebe menção honrosa no Concurso de Composição da Cidade de São Paulo e, em consequência, é estreada no Teatro Municipal, em 1963.

A crítica recebe-a com dureza. Alberto Ricardi escreve: “a impressão global é de obra inútil, embora revele um autor que sabe orquestrar. Este jovem algum dia poderá ser compositor”.

Aconselhado por Gabriel Migliori, inscreve sua Fantasia para Piano e Orquestra (originalmente, Concerto em Ré Maior para Piano e Orquestra) no concurso que, no Rio de Janeiro, homenageia o centenário de nascimento de Ernesto Nazareth, em 1963. Integrado por Francisco Mignone, Vieira Brandão (1911-2002), Edino Krieger (1928), Alceu Bocchino (1918-2013) e Radamés Gnattali, o júri concede menção honrosa à obra, que emprega temas dos tangos Tenebroso e Batuque e da valsa Expansiva, de Nazareth, e que só é estreada em 1996.

Ainda desse período são o Quarteto de cordas n. 1 (1964), estreado em 1970, e a Sonata para Violino e Piano (1964), com primeira audição em 1978. Em 1969, inscreve a cantata Futebol, parceria com Gabriel Migliori, no 1o Festival de Música Erudita da Guanabara A cantata é composta para grande orquestra, coro misto, locutor esportivo e narrador. Estreia em 1999 pela Sinfonia Cultura, sob a regência de Lutero Rodrigues.

Na década de 1970 tem apenas uma obra de vulto, a Rapsódia Latina (1977/1979), para orquestra. Já nos anos 1980, a atividade de compositor erudito ganha novo impulso, com o bailado Hora Zero (1986), Trio Instantâneos (1987), Contrastes (1987-1988), para trompa e orquestra, Concerto para Cordas (1988-1989) e Concerto Breve (1989), para violino e orquestra.

A partir da criação da Orquestra Jazz Sinfônica, Pereira compõe para as características específicas do grupo. Surgem, então: Psycho-Samba (1991), para cordas em pizzicato e seção rítmica; Cuidado com o Degrau (1993), choro para corne inglês solista, orquestra e seção rítmica; Brasiliana n. 2 (1994), para viola solista e orquestra; Poema para o Tom (1995), para piano e orquestra, com base em Dindi e Triste, de Tom Jobim (1927-1994); Momentos (1998), para flügel solista, orquestra e seção rítmica; Brasiliana n. 3 (1998), para violoncelo solista, cordas e seção rítmica; e Brasiliana n. 4 (2004), para trompete solista, metais, madeiras e seção rítmica.

Na música popular, sua principal criação, como compositor, é o jequibau, samba em compasso quinário para formações jazzísticas. Elaborado em parceria com Mario Albanese, o jequibau é lançado no Brasil em 1965, em compacto simples da gravadora Chantecler. No ano seguinte, nos Estados Unidos, em LP, pela Epic Records, com 10 composições em compassos quinários1. No mesmo ano, é lançado na forma do songbook, Jequibau: the exciting rhytm of Brazil, da editora norte americana Peer Southern Music. As parcerias de Pereira e Albanese são gravadas por Vic Damone (1928), Andy Williams (1927-2012), Sadao Watanabe (1933), Percy Faith (1908-1976), Walter Wanderley (1932-1986), Leny Eversong (1920-1984), Susana Colonna (1947), Al Caiola (1920), Norman Luboff Choir, Sy Oliver (1910-1988) e Charlie Byrd (1925-1999).

Cyro Pereira desfruta ainda de uma relação próxima com o grupo Zimbo Trio, que se reflete na Sonatina para Zimbo Trio (1966), posteriormente orquestrada e convertida no Concertino para Zimbo Trio e Orquestra (1972).

Nota

1 Quinário é um compasso de cinco tempos, composto pela junção de um compasso binário e um ternário.  

Outras informações de Cyro Pereira:

Fontes de pesquisa (3)

  • MEDEIROS, Fábio Prado. O Carinhoso de Cyro Pereira: arranjo ou composição? (Mestrado em Processos de Criação Musical) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.
  • PERPETUO, Irineu Franco. Cyro Pereira, maestro. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 2005.
  • SHIMABUCO, Luciana Sayure. Dá licença, maestro! A trajetória musical de Cyro Pereira. Dissertação (Mestrado em Artes) – Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1998.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CYRO Pereira. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa638004/cyro-pereira>. Acesso em: 20 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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