Artigo da seção pessoas Vittorio Capellaro

Vittorio Capellaro

Artigo da seção pessoas
Cinema  
Data de nascimento deVittorio Capellaro: 21-10-1877 | Data de morte 1943 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Histórico
Eusebio Vittorio Giovanni Battista Capellaro (Mongrando – Itália 1877 – Rio de Janeiro RJ 1943). Diretor, ator, produtor, roteirista. Criado pelo tio, reside em diversas cidades durante a infância, na Itália, na França e na Argélia. Estuda com os padres salesianos, aprendendo o ofício de relojoeiro-ourives e se dedicando ao teatro. Integra grupos de teatro amadores e pequenas companhias teatrais, e, posteriormente, grandes companhias, como as dos atores italianos Ermete Zacconi (1857-1948), entre 1905-7, Eleonora Duse (1858-1924), entre 1907-12, Tina di Lorenzo (1972-1930), entre 1912-4, e Alberto Capozzi (1886-1945), em 1915. Atua também no filme Un amore di Pietro di Medici (1912). Com Capozzi, vem pela terceira vez a São Paulo em tour, onde fixa residência. Associa-se ao cinegrafista Antonio Campos (1877 - 1959?), com quem faz dois filmes, em que Capellaro dirige, adapta, atua e produz: Inocência (1915), baseado no romance homônimo de Visconde de Taunay (1843-1889), e O Guarany (1865), do romance de José de Alencar (1829-1877), com Capellaro no papel do índio Peri. No Rio de Janeiro, realiza O Cruzeiro do Sul (1917), inspirado em O Mulato (1864), de Aluísio Azevedo (1857-1913). Convocado, serve a Itália na 1ª Guerra Mundial. Volta com diversos filmes italianos e trabalha na distribuição deles no Brasil. Realiza em seguida Iracema (1918-9), a partir da obra de Alencar, porém um acidente do laboratório destrói o filme, o que o leva a refilmar a história em 1919. Em 1920, faz O Garimpeiro (1872), da obra de Bernardo Guimarães (1825-1884). Em 1924, volta para São Paulo, montando seu laboratório. Associa-se à Paramount Pictures, para uma nova adaptação de O Guarany (1926), exitoso em termos de público. Em 1928, constrói seu estúdio de filmagem, onde posteriormente filma as internas de seu primeiro filme sonoro, O Caçador de Diamantes (1933). Realiza ainda Fazendo Fita (1935). Ambos os longas fracassam. Paralelamente, Capellaro realiza uma série de documentários, como Butantã (1916) e Jornaleiros de São Paulo (1936). Em 1937, muda-se novamente para o Rio de Janeiro, instalando um laboratório de som. Em 1943, ao ser surpreendido conversando em italiano com um amigo, é preso e espancado. Morre pouco depois em decorrência.

Análise de trajetória
Pioneiro do cinema brasileiro, Vittorio Capellaro destaca-se no cinema silencioso tupiniquim, segundo os críticos e teóricos Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977) e Alex Viany (1918-1992). Responsável por uma série de primeiros marcos no cinema nacional (Inocência é considerado o primeiro longa-metragem paulista; O Guarany (1926), é a primeira parceria brasileira nessa área com uma empresa estadunidense; o roteiro do O Caçador de Diamantes é considerado o primeiro escrito para esse fim, dentre os conhecidos), Capellaro também é o responsável pela voga dos filmes inspirados em obras literárias brasileiras.

Segundo Alex Viany, essa é uma das grandezas da obra do cineasta, italiano que só veio a fixar residência no Brasil com quase 40 anos de idade. “O que mais impressiona, na obra de Capellaro, é sua predileção pelos assuntos tipicamente brasileiros. Enquanto muitos cineastas nativos eram tentados pela imitação de sucessos estrangeiros, esse inteligente italiano jamais se afastou do caminho iniciado, em 1915, com Inocência1, afirma. É notável o gosto de Capellaro por histórias que trabalham a identidade brasileira e a formação do povo, a partir de romances ou pesquisas históricas. Trabalha com o tema indianista nas duas versões de O Guarany e nas duas de Iracema, o problema da pobreza dos camponeses do interior em O Garimpeiro, o preconceito étnico em O Cruzeiro do Sul, os sertanejos em Inocência, e os bandeirantes e suas relações com os índios em O Caçador de Diamantes. Apenas seu último filme, o totalmente falado Fazendo Fita, tem temática urbana, feito como sátira ao modelo de produção dos filmes brasileiros que faziam sucesso à época, as chanchadas carnavalescas cariocas, o longa traz à tela elementos de sucesso nas rádios paulistas.

Os destaques, porém, ficam por conta das duas versões de O Guarany e de O Caçador de Diamantes. O Guarany (1916),  trazia um elenco majoritário de italianos e o próprio Capellaro, alto, branco e de olhos azuis, como índio Peri, fator aceito pelo público. Na versão de 1926, contenta-se com um papel coadjuvante. Mantendo o tom melodramático das atuações e da encenação que marcam seus filmes, Capellaro continua a dirigir baseado no modelo teatral. Em seu texto para a revista Cinearte2, Octavio Gabus Mendes (1906-1946), que considera a direção “bastante discutível e pouco recomendável”, apesar das boas intenções, critica essa questão. “Deveria exigir dos artistas e de si próprio uma interpretação mais real, mais humana e não repleta daquela escola italiana e antiquada de representar”, diz. Contraditório, apesar das diversas críticas feitas ao filme, Mendes julga como melhor filme nacional visto até então.

O Caçador de Diamantes é tido como obra máxima, muito provavelmente por ser o único que sobreviveu ao tempo. Após ampla pesquisa, sem conseguir emplacar nenhum projeto e influenciado pelos escritos românticos e ultranacionalistas de José de Alencar, Capellaro faz o filme tardiamente, por conta de problemas de ordem política e econômica que afetam o Brasil, como as Revoluções de 1930 e de 1932 e o Crack da Bolsa, em 1929. Faz assim uma película sonora, mas sem falas, calcado na música e em ruídos. O filme tem pretensões épicas - ainda que o dinheiro fosse escasso - e um caráter histórico - ainda que a veracidade não seja fundamental. Fracasso de bilheteria, recebido mal pela crítica na época, o filme continua a ser revisitado. Para Paulo Emílio Salles Gomes3, o filme tem um pesado academicismo e lhe falta “a graça e o frescor”4, e para o crítico B.J. Duarte5 (1910-1995), mesmo o filme tendo um “argumento frágil, de feição melodramática, por vezes ingênuo”, é inegável a importância do filme na história do cinema brasileiro, “como espetáculo, como realização técnica e, sobretudo como experiência sonora”.

Notas
1 VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Revan, 1993, p. 38.
2 M., O. A tela em revista. Cinearte. Rio de Janeiro, v. 01, n. 41, 8 dez. 1926, p. 29.
3 GOMES, Paulo Emilio Salles. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, p. 56.
4 Paulo Emílio ainda lamenta que a crítica histórica “tende a julgar as primeiras obras desse autor à luz (...) dessa produção tardia, pois é bem provável que suas fitas primitivas, baseadas nos romances brasileiros, tivessem a graça e o frescor”.
5 DUARTE, B.J. O caçador de diamantes. In: Catálogo da II Retrospectiva do Cinema Brasileiro. São Paulo: 1954.

Outras informações de Vittorio Capellaro:

  • Habilidades
    • diretor de cinema
    • ator
    • produtor
    • roteirista

Obras de Vittorio Capellaro: (1) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (12)

  • BARRO, Máximo. O Caçador de Diamantes de Vittorio Capellaro. São Paulo: Imprensa Oficial, 2004.
  • DUARTE, B.J. O caçador de diamantes. Catálogo da II Retrospectiva do Cinema Brasileiro. São Paulo: 1954.
  • GOMES, Paulo Emilio Salles. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. p. 55-67.
  • CINEMATECA BRASILEIRA. São Paulo. Disponível em < http://www.cinemateca.gov.br/ >. Acesso em 02 jan. 2013
  • II Retrospectiva do Cinema Brasileiro, In O Estado de S. Paulo. São Paulo, 10 fev. 1954. p. 8.
  • M., O. A tela em revista, Cinearte. Rio de Janeiro, v. 01, n. 41, 8 dez. 1926.
  • MIRANDA, Luiz Fernando. Vittorio Capellaro. In: Enciclopédia do Cinema Brasileiro. São Paulo: SENAC, 2000. p. 86-7.
  • MORETTIN, Eduardo. A imagem cinematográfica do passado brasileiro construída pelos imigrantes nas décadas de 20 e 30: adesão ou dissonância?, In: Estudos Socine de Cinema, ano IV. São Paulo: Editora Panorama, 2003. p.108-115.
  • SCHVARZMAN, S; IANEZ, M. O Guarani no cinema brasileiro: o olhar imigrante. Galaxia, n. 24. São Paulo: dez. 2012 p. 153-165.
  • SCHVARZMAN, Sheila. Da crítica à imagem: A formação do olhar em Octavio Gabus Mendes. Estudos Socine de Cinema, ano V. São Paulo: Editora Panorama, 2004 p. 135-143.
  • SILVA NETO, Antonio Leão da. Dicionário de filmes brasileiros: longa metragem. São Bernardo do Campo: Ed. do Autor, 2009.
  • VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Revan, 1993. p. 38-40.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • VITTORIO Capellaro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa636422/vittorio-capellaro>. Acesso em: 24 de Mai. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7