Artigo da seção pessoas Elsie Houston

Elsie Houston

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Música  
Data de nascimento deElsie Houston: 1902 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 1943 Local de morte: (Estados Unidos / Nova York / Nova York)

Biografia

Elsie Houston-Péret (Rio de Janeiro, 1902 - Nova York, 1943). Soprano, folclorista. Filha da carioca Arinda de Malta Galdo e do dentista norte-americano James Franklin radicado no Brasil. Elsie Houston começa a ter aulas de piano aos sete anos de idade e, aos 15, troca o instrumento pelo canto, estudando com Stella Parodi e Fernand Francel. Em 1922, conhece o compositor nacionalista Luciano Gallet (1893-1931), de quem se torna uma das principais intérpretes, gravando canções como Ai que Coração, A Perdiz Piou no Campo, Fotorototó, Bambalelê e Taieiras, e começa a corresponder-se com Mário de Andrade (1893-1945).

No ano seguinte, vive dez meses na Alemanha, onde tem aulas de canto com Lili Lehman (1848-1929). Viaja para Buenos Aires em 1924, a fim de ter estudar com a francesa Ninon-Vallin (1886-1961), figura de destaque do modernismo musical parisiense. Na Argentina conhece a folclorista francesa Béclart d'Harcourt e passa a se apresentar em festas da alta sociedade.

De volta ao Brasil em 1925, reaproxima-se de Gallet e de Mário de Andrade, que a põem em contato com os modernistas brasileiros. No ano seguinte, muda-se para Paris a fim de prosseguir os estudos com Ninon-Vallin. Apresenta-se regularmente ao público parisiense a partir de 1927, interpretando canções folclóricas sul-americanas, principalmente brasileiras. Ao lado de Tomás Téran, Arthur Rubinstein e Alina Van Barentzen, participa do primeiro concerto de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) na Maison Gaveaux, em Paris. No mesmo ano, casa-se com o poeta surrealista francês Benjamin Péret, com quem vive no Brasil entre 1929 e 1931. Nessa época, grava pela Columbia 15 discos de música popular e folclórica, além de viajar pelo Norte e Nordeste do país. De volta a Paris, publica o livro Chants populaires du Brésil, que reúne as canções folclóricas recolhidas nessas viagens. Separada do marido, muda-se para Nova York em 1937. Ali desenvolve uma profícua carreira, apresentando-se no rádio e em diversos concertos, incluindo um show para 22 mil pessoas no estádio Watergate em 1941, até seu trágico suicídio, em 1943.

Análise

Embora tenha se aproximado da música brasileira ainda muito jovem, incorporando a seu repertório canções folclóricas harmonizadas por Luciano Gallet, é na França que Elsie Houston se firma como cantora tipicamente brasileira. Ainda sob o efeito dos horrores da Primeira Guerra, os parisienses dos anos 1920 procuram nos povos "primitivos" uma alternativa ao modelo de civilização que os havia levado ao bárbaro conflito. Nesse contexto, as canções populares sul-americanas, representantes de uma cultura miscigenada de índios, negros e europeus, tornam-se moda não apenas no bas-fond dos cabarets, mas também no meio intelectual. Com seus traços mestiços e seu repertório "incivilizado", cantado numa língua estranha, Houston encanta os modernistas franceses que, por sua vez, incentivam-na a aprofundar seus conhecimentos sobre a música brasileira. Não por acaso, é com Benjamin Péret que ela inicia suas pesquisas de campo sobre a cultura e a música afro-brasileiras, incluindo pontos de macumba em seu repertório. Em 1930, grava Macumbagelê, de J. da Paulicéia e Lilico Leal.

Ao mesmo tempo, seu grande interesse pela cultura popular a aproxima do nacionalismo musical brasileiro, que propunha a reelaboração, em registro erudito, de materiais folclóricos de diversas partes do país. Considerada uma das melhores intérpretes vocais de Villa-Lobos e eleita por Mário de Andrade a cantora mais representativa do nacionalismo por ele defendido, Houston mescla em seu repertório músicas populares urbanas (sambas, marchas e até foxtrotes), motivos populares (arranjados por ela mesma ou retrabalhadas por compositores nacionalistas como Gallet, Lorenzo Fernandes ou do próprio Villa-Lobos) e obras de compositores europeus contemporâneos, como Éric Satie, Claude Debussy (1862-1918), Manuel de Falla e Enrique Granados.

Apesar da formação erudita, seu canto afasta-se da arte lírica tradicional europeia. Sua voz de emissão limpa, com grande variedade de cor, é definida pelos críticos da época como "molenga, voluptuosa, preguiçosa, carinhosa, brasileira"1. A dicção clara e natural evoca a fala popular e respeita a prosódia brasileira, sendo tomada por Mário de Andrade como padrão de pronúncia do canto erudito no Brasil2. Essas características podem ser notadas nas gravações que deixou, tanto de música popular urbana (a exemplo de Coração das muié, canção de Plínio Brito e Domingos Margarinos) como na de motivos populares (a exemplo de Puxa o Melão, Sabiá ou Cadê minha pomba rola). Nas canções folclóricas, Houston procura ainda um timbre metálico característico, como se nota no Pot-pourri folclórico que gravou na França, acompanhada por Carlitos et son orchestre brésilien. A uma Berceuse africano-brésilienne, cantada a capella com timbre doce, ela emenda, com voz estridente, a embolada Oia o sapo, acompanhada de percussão, piano e coro.

Nos anos 1940, ao lado de Carmen Miranda (1909-1955), Houston aparece entre as cantoras mais cotadas nas paradas de sucesso norte-americanas3, desempenhando importante papel na chamada Política da Boa Vizinhança4. A excentricidade de seu canto, porém, não lhe proporciona o mesmo sucesso da cantora patrícia, sendo relegada ao esquecimento social.

Notas

Diário de noite, 01/10/1930.

2 ANDRADE, Mário. "Aspectos da Música Brasileira". In: Anais do I Congresso da Língua Nacional Cantada. São Paulo: Departamento de Cultura do Município de São Paulo, 1938.

3 VILLANOVA, Grégoire de (coord.). Elsie Houston: a feminilidade no canto. Projeto integrado à exposição "Negras memórias. Memórias de negros", do Museu Afro-Brasil. São Paulo: Atração fonográfica, 2003, s/p.

4 Política desenvolvida durante o governo do presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) que visava aproximar culturalmente a América Latina dos Estados Unidos, tendo se aprofundado no contexto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Outras informações de Elsie Houston:

Fontes de pesquisa (4)

  • ANDRADE, Mario de. "Elsie Houston". Folha da Manhã, 10/05/1943, p. 7.
  • BETERVELLI, Isabel C. Dias. Elsie Houston (1902-1943), cantora e pesquisadora brasileira. Dissertação (Mestrado em Artes). São Paulo, Instituto de Artes da Unesp, 2000.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antônio Marcondes. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998.
  • VILLANOVA, Grégoire de (coord.). Elsie Houston: a feminilidade no canto. Projeto integrado à exposição "Negras memórias. Memórias de negros", do Museu Afro-Brasil. São Paulo: Atração fonográfica, 2003.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ELSIE Houston. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa635377/elsie-houston>. Acesso em: 17 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7