Artigo da seção pessoas Sigismund Neukomm

Sigismund Neukomm

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deSigismund Neukomm: 1778 Local de nascimento: (Áustria / Salzburgo) | Data de morte 1858 Local de morte: (França / Ile de France / Paris)

Biografia

Sigismund Ritter von Neukomm (Salzburgo, Áustria 1778 - Paris, França 1858). Organista, compositor, regente, teórico e crítico. Inicia seus estudos musicais aos 7 anos com o organista Franz Weissauer, aprendendo posteriormente teoria com o compositor Johann Michael Haydn (1737 - 1806). Segue paralelamente os cursos de filosofia e matemática na Universidade de Salzburgo, tornando-se ali o organista da Igreja (c. 1792) e posteriormente Mestre Coral do teatro da Corte (1796). Em Viena, Áustria, estuda, de 1797 a 1804, com Joseph Haydn (1797 - 1809), período no qual leciona, entre outros, para o filho de Mozart. Em 1804 parte para São Petersburgo, tornando-se Mestre de capela do Teatro Alemão. Em 1809 fixa residência em Paris, onde sucede Jan Dussek1 como pianista residente da casa do Príncipe de Talleyrand e conhece compositores como Cherubini, Grétry e Gossec.

Desde então, sua obra passa a ser executada em solenidades como a comemoração de entrada de Louis XVIII em Paris na Catedral Notre Dame (1814), para a qual escreve um Te Deum, ou o Congresso de Viena (1814), enquanto pianista do Príncipe Talleyrand, onde seu Requiem em Dó menor é estreado nas comemorações de morte de Louis XVI (1815). Em 1816, a convite do Duque de Luxemburgo, parte para o Rio de Janeiro, onde vem a atuar como professor na corte de Dom João VI. Regressa à Paris em 1821, usufruindo ali da proteção de Talleyrand, da Princesa de Vaudemont e do Duque de Orleans, futuro Rei Louis Philippe. A partir de 1826, inicia um ciclo extenso de viagens que se estende até a sua morte. Entre elas, podemos elencar a Itália (1826), a Bélgica e a Holanda (1827), a Inglaterra (1829), a Alemanha (1832), a costa norte africana (1834), a Áustria (1938) e a Suíça (1840).

Participa como regente e compositor na inauguração dos monumentos erigidos em homenagem à Gutenberg (1837), em Mogúncia, e à Mozart (1842), em Salzburgo. Entre as distinções que lhe são discernidas, destacam-se o título de Cavaleiro da Legião de honra da França, outorgada por Louis XVIII, as Ordens do Cristo (Portugal) e da Águia Vermelha da Prússia, as medalhas do rei Louis-Philippe e de ouro da coroação do rei da Prússia, além do título de Doutor em Música pela Universidade de Dublin. Estima-se que Neukomm possui cerca de 2000 obras compostas, das quais 1265 estão catalogadas no diário que manteve de 1804 até o fim de sua vida. É membro de diversas academias europeias, entre as quais a das Artes de Berlim e a de Santa Cecília em Roma.

 

Comentário crítico

Newkomm é tido como um compositor de transição entre o período Clássico e o Romântico, e conhecido como o pupilo preferido de Joseph Haydn. Sua profunda admiração tanto por Haydn quanto por Wolfgang A. Mozart faz com que, em sua época, difunda a obra desses mestres tanto na Europa quanto na América do Sul. Além de reger as peças desses, sua veneração por Haydn transparece nos arranjos de trabalhos compostos pelo seu professor e em grande parte com o consentimento desse. Haydn endossa arranjos de Neukomm como A Criação, O retorno de Tobias e Ariadne auf Naxos.

Sua estadia brasileira se inscreve na história da vinda da corte portuguesa ao Brasil no início do século XIX. Dom João VI, ao ver sua coroa ameaçada pela invasão napoleônica, vê-se obrigado a fugir para o Rio de Janeiro em 1808. Por sua vez, Louis XVIII, rei da França desde 1814, envia, em 1816, o Duque de Luxemburgo para o Rio de Janeiro como embaixador extraordinário a fim de reestabelecer as relações entre França e Portugal. É com essa comitiva que parte Neukomm. Uma carta de recomendação do Príncipe de Talleyrand endereçada ao Conde de la Barca garantem ao compositor uma estadia agradável em solo brasileiro sob a proteção desse último.

Sua presença no Rio de Janeiro torna‑se assim valiosa para o programa político de florescimento cultural idealizado pelo Conde, que convoca em Paris, nesse mesmo ano, a Missão Artística organizada pelo secretário permanente da Academia de Belas Artes, Joachim Lebreton. No entanto, a Missão, composta por pintores, escultores, arquitetos, não inclui músicos. Newkomm a completa, desse modo, ao decidir ficar no Brasil. Assim, por intercedência do Conde, o Rei concede-lhe uma pensão mensal mesmo sem legar-lhe nenhuma responsabilidade oficial, que é exercida, na época, por Marcos Portugal, compositor preferido do Rei e com o qual Neukomm possui uma grande animosidade. Mesmo com os obstáculos impostos por Portugal, Newkomm não é totalmente excluído das atividades musicais da corte, regendo os músicos da Capela Real de maneira esporádica e recebendo a missão de lecionar para os príncipes da família Real, como Dom Pedro, sua esposa a Arquiduquesa da Áustria Leopoldina e a Infanta Isabel Maria. Para eles, Newkomm escreve várias peças, como as Variações para piano e violoncelo para Dona Leopoldina e as Doze Variações sobre o Tema "Sul margine d'un rio" para Dona Isabel Maria. O compositor leciona igualmente para alguns alunos além do círculo real, dos quais podemos destacar o autor da melodia do Hino Nacional Brasileiro Francisco Manuel da Silva (1795 - 1865).

Com a morte do Duque de Luxemburgo em 1817, a efervescência do movimento independentista e a rivalidade com o compositor Marcos Portugal, sua permanência no Brasil torna-se cada vez mais insustentável. Esses anos testemunham, apesar disso, um período prolífico, no qual compõe 69 obras que englobam transcrições e harmonizações de 20 modinhas de Joaquim Manuel da Câmara, a primeira utilização de um tema brasileiro em uma obra erudita (O Amor Brazileiro, um Capricho sobre um lundu brasileiro), uma Missa para a aclamação de Dom João VI e o Libera me que completa o Requiem de Mozart, além de manter uma correspondência regular com o periódico Allgemeine Musikalische Zeitung, que constitui um importante testemunho da vida musical brasileira da época, e de participar da publicação do primeiro livro de música impresso no Brasil, em 1820, pela Imprensa Régia2. Compõe para todos os gêneros da época: missas, oratórios, motetos, salmos, óperas, cantatas profanas, lieder, cânones, etc, realizando ainda inúmeras transcrições, um método de órgão e outro de harmonia e de baixo cifrado. Sua obra apresenta elementos que prenunciam certos traços românticos, como a importância que lega à relação texto e música e a exploração colorística da orquestração, utilizadas em suas canções tardias e seus oratórios. Apesar de desfrutar de uma carreira de prestígio, sua figura é esquecida logo após a sua morte. Todavia, ela vem, pouco a pouco, sendo resgatada por estudiosos tanto no Brasil quando na França e na Alemanha.

 

Notas:

1 Jan Ladislav Dussek (1760-1812) Compositor e pianista tcheco.

2 Uma tradução do Relato Histórico da Vida e Obra de Joseph Haydn

Outras informações de Sigismund Neukomm:

  • Outros nomes
    • Sigismund Ritter Von Neukomm
  • Habilidades
    • crítico de música
    • Regente/maestro
    • Compositor

Fontes de pesquisa (27)

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  • Waidelich, Till Gerrit: "? ganz genau gemessenes, aufs sparsamste begleitetes Recitativ, ohne Bestimmung der Töne. Sigismund Neukomms ?musikalisch rhythmische' Notierung der Chorszenen zu Schillers Braut von Messina (1805)". In: Carl Maria von Weber und die Schauspielmusik seiner Zeit. Weber-Studien, vol. 7. Mogúncia: Schott, 2003, pp. 131‑155.

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  • SIGISMUND Neukomm. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa633440/sigismund-neukomm>. Acesso em: 18 de Jan. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7