Artigo da seção pessoas Lina Pesce

Lina Pesce

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deLina Pesce: 26-01-1913 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Data de morte 30-06-1995 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Magdalena Pesce Vitale (São Paulo, São Paulo, 1913 - São Paulo, São Paulo, 1995). Compositora e pianista. Inicia seus estudos de música com o pai, o maestro italiano Giacomo Pesce, e tem  posteriormente aulas de piano com Marcelo Buogo. Aos 9 anos de idade, edita seu primeiro tango‑canção, Quantas Vezes, e, aos 16, tem sua valsa Crespúsculo (criada em parceria com Vicente de Lima) gravada por Gastão Formenti e seus tangos Compadrito e Miente, por Luly Malaga.

Em 1933 casa-se com Vicente Vitale, um dos fundadores da editora Irmãos Vitale, e se muda para o Rio de Janeiro. Lá, estuda piano com Tomás Terán e solfejo, teoria e harmonia com Lorenzo Fernandez. Em dezembro de 1937, a marcha Você Gosta de Brincar, gravada por Laís Marival nesse ano, recebe o primeiro prêmio no Concurso Oficial de Músicas Carnavalescas para 1938, da Divisão de Turismo e Divertimentos Públicos da Prefeitura de São Paulo. Cinco anos depois, seu choro Bem-Te-Vi Atrevido é gravado por George Brass. A peça, que alcança enorme sucesso, é interpretada nesse mesmo ano pela organista norte-americana Ethel Smith em cena do filme Dupla Ilusão (Twice Blessed), sendo gravada posteriormente na Argentina, Inglaterra, França, Itália e na extinta União Soviética, entre outros países, além de regravada no Brasil por nomes como Carolina Cardoso de Menezes (piano), Altamiro Carrilho (flauta), Sivuca (acordeão) e Irani Pinto (violino). Em 1951 outro choro, Sabiá Feiticeiro, figura no filme Maior do que o Ódio, de José Carlos Burle. E, em 1958, Agnaldo Rayol canta Onde Estará Meu Amor (de Lina Pesce), no filme Chofer de Praça, de Amácio Mazzaropi, também lançada em disco por Dolores Duran, no mesmo ano.

Aos 45 anos, com um catálogo de mais de 200 obras e depois de ter suas peças gravadas por um grande número de artistas, como Lely Morel, Antenógenes Silva, maestro Enrico Simonetti e Seus Ritmistas, Gilberto Alves e Elizeth Cardoso, entre outros, recebe seu primeiro álbum biográfico, intitulado Inspiração, com interpretações de Irani Pinto, e ingressa na Academia Brasileira de Música Popular. Em 1961 assina contrato com a CBS, com a qual grava três LPs como solista: o primeiro com valsas de sua autoria (Valsas Brasileiras, 1961), o segundo com músicas eruditas arranjadas em ritmos dançantes (Concerto em Ritmo, 1963)1, o último, intitulado Chorinhos Bem Brasileiros (1963), com arranjos e regência de Radamés Gnattali. Em 1965 é homenageada com o lançamento de Lina Pesce - Seus Grandes Sucessos, com interpretações de Elizeth Cardoso, Agnaldo Rayol, Morgana, Gilberto Alves, Altamiro Carrilho, Uccio Gaetta, Irani Pinto, Inezita Barroso, Sivuca, Adelaide Chiozzo, Pernambuco do Pandeiro, pela gravadora Copacabana. Na década de 1970, retorna a São Paulo e restringe sua atuação à aparição em programas radiofônicos e reuniões musicais particulares, além de compor. Abandona a carreira definitivamente após a morte de seu marido, em 1980.

Análise

O início do século XX é marcado por uma segunda geração de chorões que têm na figura de Pixinguinha seu emblema mais forte. É a partir deles que o choro se estrutura e se faz permanente, sendo considerado finalmente como um gênero musical à parte e não apenas um modo de interpretação particular como era na época de Joaquim Antônio da Silva Callado, um de seus criadores. Nesse contexto, Lina Pesce, atuante no mundo musical desde o fim da década de 1920, aparece como uma das compositoras que ajudam a consolidar esse estilo no panorama da música brasileira. Mais exatamente, mais do que brasileira, e, mesmo tendo fixado residência no Rio de Janeiro cerca de cinco décadas, sua estética é profundamente marcada pela corrente do choro paulista, com um caráter melódico muito acentuado, como demonstram seus choros Bem-Te-Vi Atrevido (1942), Corruíra Saltitante (1948) ou Elegante (1958).

Nos dias de hoje, no entanto, sua memória não é muito cultivada. Falta documentação sobre sua vida, sua estética, sua carreira. Não há estudos especializados sobre a compositora. Uma eventual explicação para esse fenômeno pode ser considerado o fato de que, na história da música popular até meados do século XX, as compositoras em geral, com exceção de Chiquinha Gonzaga, permanecem anônimas ou esquecidas.2 A pesquisadora Anna Paes, responsável, ao lado de Mauricio Carrilho (sobrinho de Altamiro Carrilho), pelo estudo que resulta na coleção de discos compactos Princípios do Choro, fornece uma possível explicação desse esquecimento. Segundo ela, diferentemente de Chiquinha, Lina não tem uma vida pública tão acentuada quanto à de sua conterrânea, fato que elucida o porquê do seu ostracismo atual. Se pensar que Chiquinha tem a coragem, na época, de assumir sua carreira, tocar em público, e ter uma vida independente numa sociedade patriarcal cheia de preconceitos em relação à conduta dos artistas em geral e de regras morais em relação às mulheres em particular, é possível compreender as razões que levam Lina a viver de forma mais recatada. De todo modo, ela aparece, segundo a pesquisa de Anna Paes e Mauricio Carrilho, como uma das mais proeminentes compositoras entre as 123 listadas. Isso porque, do número total de compositoras levantadas em campo, que somam cerca de 10% dos compositores em geral elencados na pesquisa, apenas 14 foram selecionadas para figurar no CD dedicado às Mulheres do Choro (2002), e entre elas, Lina Pesce. Outra hipótese considerável é que uma parcela de sua obscuridade está relacionada com o fato de ter se casado com um dos maiores editores musicais do Brasil, o que pode ter limitado a circulação de suas composições apenas aos territórios controlados por ele.

A repercussão internacional de Lina nos Estados Unidos também pode ser compreendida como fruto de um contexto histórico específico, que é o da política da boa vizinhança de Franklin D. Roosevelt (1933‑1945), responsável, entre outros, pela aparição de personagens como Carmen Miranda e Zé Carioca. Entre as obras mais expressivas de Lina, podem ser citadas Você Gosta de Brincar (marcha, 1937), Bem-Te-Vi Atrevido (choro, 1942), Corruíra Saltitante (choro, 1948, gravado por Heriberto Muraro, ao piano, e por Cópia e Sua Orquestra), Pintassilgo Apaixonado (choro, 1947, por Carioca e Sua Orquestra), Sabiá Feiticeiro (choro, 1950, por Luiz Americano, ao saxofone), Elegante (choro, 1958, por Irani Pinto, ao violino), Onde Estará Meu Amor (samba-canção, 1958, por Agnaldo Rayol), Era uma Vez (samba-canção, 1958, por Carminha Mascarenhas e Morgana) e Eu Sou Assim (samba-canção, gravado em 1958 por Jairo Aguiar e Marion Duarte).

Sua obra não se restringe aos gêneros citados, sua versatilidade é apresentada no disco Ritmos de Lina Pesce, lançado em 1956 pela RGE, em que está registrado até Vamos Dançar Lá Conga, com direção musical do maestro Enrico Simonetti. Ela compõe também um Baião Concertante, o tango Amor de Colombina, o bolero Canción de Mi Alma, Cantiga (Vela Branca), gravada pelos Titulares do Ritmo, e Cantiga de Natal, por Elizeth Cardoso.

Notas 

1. Ambos com arranjos de Lírio Panicalli.

2. DINIZ, Edinha. Mulheres do choro. Encarte do CD.

Outras informações de Lina Pesce:

  • Outros nomes
    • Magdalena Pesce Vitale
  • Habilidades
    • Compositor
    • Pianista

Fontes de pesquisa (8)

  • Aranha, Carla. "E assim nasceu o ritmo brasileiro". Problemas brasileiros, n° 392. São Paulo: SESC, março/abril de 2009. Disponível em: <<http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas_sesc/pb/artigo.cfm?Edicao_Id=334&Artigo_ID=5218&IDCategoria=5981&reftype=1>>. Acesso em 20/12/2012.
  • Cardoso, Sylvio Tullio. Dicionário Biográfico da música Popular. Rio de Janeiro: Edição do autor, 1965.
  • Dicionário Cravo Albin de Música Brasileira. "Lina Pesce". Dicionário Cravo Albin de Música Brasileira. Rio de Janeiro: Instituto Cultural Cravo Albin, 2013. Disponível em: <<http://www.dicionariompb.com.br/lina-pesce/dados-artisticos>>. Acesso em 20/12/2012.
  • Moraes, Sabrina Lôbo de. Arruma o coreto: um estudo de caso do aprendizado musical na roda de choro. Monografia (Licenciatura em Música). Instituto Villa-Lobos, Centro de Letras e Artes. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2011. Disponível em: <<http://www.domain.adm.br/dem/licenciatura/monografia/sabrinamoraes.pdf>>. Acesso em 20/12/2012.
  • Murgel, Ana Carolina Arruda de Toledo. "A canção no feminino". ANPUH. Anais do XXVI Simpósio da Associação Nacional de História. São Paulo: Associação Nacional de História, julho de 2011. Disponível em: <<http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300859244_ARQUIVO_Murgel,AnaCarolinaAT-ACancaonoFeminino.pdf>>. Acesso em 20/12/2012.
  • Vasconcelos, Ari. Panorama da música popular brasileira. Volume 2. Rio de Janeiro: Martins, 1964, p. 131.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antônio Marcondes. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A Canção no tempo I: 85 anos de músicas brasileiras (1901-1957). 2. ed. São Paulo: Editora 34, 1998. v. 1. 366 p. (Ouvido Musical) 

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LINA Pesce. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa633105/lina-pesce>. Acesso em: 18 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7