Artigo da seção pessoas Lima Barreto

Lima Barreto

Artigo da seção pessoas
Literatura / teatro  
Data de nascimento deLima Barreto: 13-05-1881 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 01-11-1922 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
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Recordações do Escrivão Isaias Caminha , 1909 , Lima Barreto
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Biografia

Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro RJ 1881 - idem 1922). Romancista, contista, cronista e jornalista. Filho de pai tipógrafo (João Henriques de Lima Barreto) e mãe professora (Amália Augusto Barreto), o escritor é apadrinhado pelo visconde de Ouro Preto (1836 - 1912), influente ministro do império, que lhe garante uma educação escolar de qualidade. Torna-se órfão de mãe ainda na infância. Ingressa na Escola Politécnica em 1897, mas, reprovado continuamente em diversas matérias e obrigado a sustentar os irmãos, por conta dos problemas psiquiátricos do pai, abandona os estudos. Em 1903, por meio de um concurso público, inicia carreira no setor burocrático da Secretaria de Guerra e também sua intensa colaboração com a imprensa do Rio de Janeiro, publicando artigos e crônicas em periódicos como Correio da Manhã, Jornal do Commercio e A Gazeta da Tarde. Com amigos literatos, funda e dirige a revista Floreal, que tem apenas dois números. Estreia como romancista no ano de 1909, com a publicação de Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Já em 1911, em formato de folhetim, nas páginas do Jornal do Commercio, publica Triste Fim de Policarpo Quaresma, que se torna sua obra mais célebre, editada em livro apenas quatro anos depois. Por essa época já são agudas as crises do escritor relacionadas ao alcoolismo e à depressão que provocam sua primeira internação no hospício, em 1914. De volta à atividade literária, em 1916, passa a colaborar em periódicos de viés socialista. Apesar de sua simpatia ao anarquismo, seus textos de teor político são também publicados na imprensa tradicional. Passados quatro anos dessa primeira internação, seus problemas de saúde persistem e Lima Barreto aposenta-se, por invalidez, do cargo na Secretaria de Guerra. No ano seguinte, 1919, é publicado seu romance Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá. Os períodos de internação no hospício resultam na composição de diversos diários e no romance inacabado O Cemitério dos Vivos, que tem trechos publicados em 1921, mesmo ano em que o autor apresenta sua terceira candidatura à Academia Brasileira de Letras (nas duas tentativas anteriores, é preterido; nesta última, o próprio escritor desiste antes das eleições). Com a saúde cada vez mais debilitada, Lima Barreto falece no dia primeiro do mês de novembro de 1922, em decorrência de um colapso cardíaco. Muitos dos seus escritos, tais como O Cemitério dos Vivos, Diário Íntimo e parte da correspondência pessoal, são publicados postumamente.

Análise

Muitos críticos apontam que a obra literária de Lima Barreto ora alcança altos níveis de criatividade e realização estética, ora abdica de maiores preocupações artísticas para se assumir como panfleto ou meio de documentação social, política e histórica. Antonio Candido (1918), por exemplo, observa que a concepção literária de Lima Barreto (que enxerga a literatura como um dos meios para uma possível intervenção na sociedade) "de um lado favoreceu nele a expressão escrita da personalidade", "de outro pode ter contribuído para atrapalhar a realização plena do ficcionista". Desse modo, o crítico ressalta o valor de sua "inteligência voltada com lucidez para o desmascaramento da sociedade e a análise das próprias emoções", mas também afirma ser ele um escritor que não atingiu toda a sua potencialidade como narrador, sendo algumas vezes malsucedido na transposição de uma ideia numa realização literária criativa.

Atento a interpretações como essas, muito recorrentes em diversas análises da obra de Lima Barreto, o romancista e crítico Osman Lins (1924 - 1978), em seu longo e profundo estudo da produção do escritor carioca, procura superar essa leitura - que busca estabelecer hierarquias no interior dessa produção -, afirmando que, para além de realizações estéticas desiguais, há "certas características de ordem literária e humana que atravessam todos os seus livros - ou, até, todas as suas páginas -, dando-lhes grande homogeneidade", concluindo que "sua obra tão variada é um bloco coerente e em toda ela reconhecemos, inconfundível, nítida, a personalidade do autor".

Definida pelo próprio Lima Barreto como "militante", sua produção literária está quase inteiramente voltada para a investigação das desigualdades sociais, da hipocrisia e da falsidade dos homens em suas relações dentro dessa sociedade. Em muitas obras, como no seu célebre romance Triste Fim de Policarpo Quaresma e no conto O Homem que Sabia Javanês, o método escolhido por Lima Barreto para tratar desses temas é o da ironia, do humor e do sarcasmo. No romance, narra-se a história de Policarpo Quaresma, homem de inteligência mediana, mas de nacionalismo e boa-fé inabaláveis. Agindo de modo a valorizar e popularizar ideais do que ele julga ser a verdadeira cultura brasileira, Quaresma obtém da sociedade uma resposta sempre dura, sendo classificado como louco (ora inofensivo, ora perigoso). Desse modo, como observa Osman Lins, esse "é um romance sobre o desajuste entre o imaginário e o real, entre a idealização e a verdade, entre a ideia que o personagem-título faz do seu país e o que o seu país é realmente". No decorrer da obra, o autor também procura ridicularizar o apego da sociedade aos títulos, sobretudo o de bacharel, bem como as instituições políticas da época, sua burocracia e sua inoperância. Já em O Homem que Sabia Javanês é apresentado o caso de uma pessoa que, afirmando dominar o idioma javanês sem na realidade conhecê-lo, consegue enganar boa parte da sociedade carioca da época e até mesmo ascender na carreira política, acadêmica e diplomática com base nessa mentira; a certa altura, o personagem declara: "Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios", trecho que representa uma crítica contundente à predominância das aparências nos meios sociais e políticos do período retratado.

Esses mesmos temas, quase sempre de ordem social, apresentam abordagens distintas em outras obras. No conto Nova Califórnia, por exemplo, a escrita de Lima Barreto ganha certos contornos macabros ao narrar a história dos habitantes de uma pequena cidade que, ao descobrirem que se poderia fabricar ouro a partir de ossos humanos, esquecem todos os seus supostos valores éticos e morais, de extrato cristão, e cometem profanações e assassinatos em função da possibilidade de riqueza e ascensão social.

Lima Barreto declara diversas vezes não aprovar nenhum tipo de preciosismo na escrita literária. Critica seu contemporâneo Coelho Neto afirmando que "não posso compreender que a literatura consista no culto ao dicionário" e declarando que a Beleza literária "não é um caráter extrínseco da obra, mas intrínseco, perante o qual aquele pouco vale. É a substância da obra, não são suas aparências" - declarações, sobretudo esta última, que indicam como eram indissociáveis a estética buscada e a ética preconizada pelo autor, que procura despir tanto a literatura quanto a sociedade de suas falsas aparências. Dessa postura, cria-se uma literatura marcada pelo coloquialismo, por um vocabulário pouco rebuscado e pela expressão direta - o que não significa desleixo ou pouca preocupação formal, mas a adequação do modo de expressão àquilo que se deseja demonstrar.

Essa crueza estilística, no caso de um romance de teor autobiográfico como Recordações do Escrivão Isaías Caminha, é a ideal para a representação dos percalços e dos preconceitos de ordem social e racial enfrentados por seu personagem em busca de ascensão na profissão de jornalista. O mesmo acontece em O Cemitério dos Vivos, dura descrição da loucura e da internação em um hospício. É sobretudo nessa força e nessa tentativa de construir uma obra cujos preceitos estéticos são tão pouco disseminados na literatura brasileira, ainda afeita aos ideais de Beleza do parnasianismo, que reside a singularidade da arte de Lima Barreto.

Outras informações de Lima Barreto:

  • Outros nomes
    • Afonso Henriques de Lima Barreto
  • Habilidades
    • escritor
    • jornalista
    • Romancista
    • Cronista
    • Contista

Obras de Lima Barreto: (3) obras disponíveis:

Espetáculos (5)

Exposições (1)

Eventos relacionados (1)

Fontes de pesquisa (1)

  • Programa do Espetáculo - Policarpo Quaresma - 2010 Não catalogado

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LIMA Barreto. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa6209/lima-barreto>. Acesso em: 17 de Out. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7