Artigo da seção pessoas Casé

Casé

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deCasé: 03-08-1932 Local de nascimento: (Brasil / Minas Gerais / Guaxupé) | Data de morte 30-11-1978 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia
José Ferreira Godinho Filho (Guaxupé, Minas Gerais, 1932 - São Paulo, São Paulo, 1978). Saxofonista, clarinetista, arranjador e compositor. Numa família de oito filhos, quase todos os irmãos tocam algum instrumento: trombone, banjo, bateria, percussão, trompete e saxofone. Casé se interessa por trombone, mas o pai o convence a estudar saxofone. Passa a ter aulas com o irmão mais velho, Clóvis, que toca saxofone e clarinete. Aos 7 anos, Casé leva uma vida itinerante com a família, que monta o Circo Teatro Irmãos Martins. Na década de 1940, morando em São Paulo, tem o maior aprendizado musical assistindo às apresentações do irmão Clóvis em bailes e boates com variados conjuntos e orquestras. Posteriormente, tem aulas com o clarinetista Antenor Driussi e estuda harmonia com Hans-Joachim Koellreuter. Em 1949, ele, com 17 anos, e o irmão são destaques na Orquestra da Rádio Tupi. Casé faz sua primeira viagem internacional em 1953. Embarca para Bagdá, ao lado do pianista e acordeonista belga (radicado em São Paulo) Rudy Wharton, da cantora Sonia Batista e do baixista Johnny, e depois o grupo passa por Londres e Bruxelas. Grava um disco em 78 rpm, com as músicas Feitiço da Vila (Noel Rosa e Vadico) e At Last (Mack Gordon e Harry Warren).

Retorna ao Brasil em 1954 e convive, em São Paulo, com o instrumentista João Donato e o trombonista Edson Maciel. Em 1955, muda-se para Assis, São Paulo, e toca na orquestra local. No ano seguinte, volta para São Paulo e participa, no Teatro Cultura Artística, de um show que resulta no primeiro LP de 12 polegadas feito no país: Jazz after Midnight (reeditado em 1978 com o título Dick Farney Plays Gershwin). Em agosto desse ano, no mesmo local, toma parte da gravação dos discos Jazz Festival nº 1 - com as faixas Pennies from Heaven, Blues e Out of Nowhere - e História do Jazz em São Paulo. Toca na orquestra de Sylvio Mazzuca de 1957 a 1961. Participa de discos de Walter Wanderley, Dick Farney, Claudete Soares, além de se apresentar com a cantora no programa O Fino da Bossa. Com o conjunto Brazilian Octopus, se apresenta no show Momento 68, com Raul Cortez, Walmor Chagas, Gilberto Gil, Caetano Veloso, texto de Millôr Fernandes e direção musical de Rogério Duprat. Faz os arranjos e grava algumas faixas do disco A Onda É Boogaloo, do cantor Eduardo Araújo, em 1969. A partir de 1970, faz diversos jingles e trilhas para filmes publicitários. Em 1974, compõe a trilha do filme A Virgem de Saint Tropez, de Beto Ruschel e Hareton Salvanini. Na década de 1970, afasta-se da gravação de discos, recusando convites de orquestras e artistas renomados.

Análise da trajetória
Existem poucos registros fonográficos deixados por Casé. Hoje em dia, discos que contêm gravações suas são encontrados com dificuldade em sebos e vendidos como raridades. Temperamental, recusa propostas de shows e cachês, mantendo-se no anonimato até o fim da vida. Exigente e perfeccionista, dispensa convites para integrar orquestras renomadas no Rio de Janeiro - local de grande efervescência musical e com mais oferta de trabalho nos anos 1960 -, mantendo uma rotina nômade pelas boates de São Paulo e em pequenas excursões pelo interior do estado. Capaz de fazer primeiras leituras de partituras complexas, acrescentando novidades e reparando erros em relação ao original, arranjando as composições de outros autores no primeiro contato, Casé é influência para vários instrumentistas brasileiros. Considerado um dos saxofonistas mais importantes da história do Brasil, ao lado de Severino Araújo e Moacir Santos, ele se torna referência para saxofonistas e clarinetistas como Paulo Moura e Nailor Azevedo, o Proveta, da Banda Mantiqueira. Ele também inspira outros instrumentistas conceituados, como João Donato, Amilton Godoy, Rubinho Barsotti, Raul de Souza.

Na biografia Casé - Como Toca Esse Rapaz, de Fernando Licht Barros, sua habilidade é definida em trecho que cita reportagem de Zuza Homem de Mello, na época da morte do saxofonista, dimensionando as qualidades do músico: "Era um extraordinário leitor de partituras à primeira vista. Conta-se que muitas vezes transportava a parte do sax tenor para a do sax alto na primeira leitura. Casé tinha um sopro suave, como a sua maneira de falar. [...] Mesmo os estrangeiros que o conheceram ficaram admirados de suas qualidades. [...] Era capaz de deixar, num pobre cabaré do interior, sons inesquecíveis, dignos das maiores salas de concerto".

Entre os poucos registros fonográficos de Casé merecem destaque os realizados com a orquestra de Silvio Mazzuca. Em 1958, suas principais gravações estão nos LPs Baile de Aniversário, com a orquestra do maestro, e Coffee and Jazz (Columbia), com o Brazilian Jazz Quartet, editado pelo selo Gravações Tupi Associados (GTA), em 1979, com o título Casé in Memorian, em que o saxofonista participa de um quarteto ao lado do pianista Moacyr Peixoto, do baixista Luiz Chaves e do baterista Rubinho Barsotti, tocando standards norte-americanos. Além disso, ao lado do baixista Major Holley, do baterista Jimmy Campbell e de Moacyr Peixoto, Casé impressiona com a limpidez de suas notas e com fraseados originais e velozes em The Good Neighboors Jazz, lançado pela Columbia, em 1958, resultado de jam sessions na boate Michel. Em 1960, o selo colombiano Hi-Fi Variety lança o LP Samba Irresistível, divulgado no Brasil pelo selo Beverly, com Casé e seu conjunto - um dos pouquíssimos trabalhos em que o instrumentista tem o nome assinado na capa de um álbum. No grupo, artistas como Heraldo do Monte, na guitarra, e Paulinho Preto, no piano. No repertório, Saudade da Bahia (Dorival Caymmi), Esse Teu Olhar (Tom Jobim), Palpite Infeliz (Noel Rosa), além de Ensaio de Bossa, de autoria do próprio Casé.

Mesmo tendo recebido os melhores ensinamentos teóricos na juventude, Casé nunca deixa de estudar, aprimorando sua técnica e leitura. A evolução de sua concepção de arranjo e do domínio interpretativo pode ser observada com clareza no disco A Onda É Boogaloo, de Eduardo Araújo, de 1970. O LP, com repertório de versões Tim Maia, Eduardo Araújo e Chil Deberto para canções de Ray Charles (Come Back Baby), James Brown (Cold Sweet), além de composições de Tim Maia, como Você, é o embrião do primeiro disco lançado pelo cantor no ano seguinte. Outras gravações que demonstram a versatilidade de Casé no saxofone - não apenas interpretativa, mas também de escolha de repertório - são Copacabana (João de Barro, o Braguinha/Alberto Ribeiro), no disco The Good Neighbors Jazz, de 1958; Feitio de Oração (Noel Rosa/Vadico) e Ensaio de Bossa, tema que evidencia também a capacidade de composição de Casé, no disco Samba Irresistível, de 1960; Don't Get Around Much Anymore (Duke Ellington/ Bob Russell), do álbum Coffee & Jazz, de 1958; e Summertime (George Gershwin/Ira Gershwin), em Meu Baile Inesquecível, de 1963, com Casé e seu conjunto, mostrando toda a familiaridade e o apreço do instrumentista pelo jazz e pela música norte-americana.

Outras informações de Casé:

  • Outros nomes
    • José Ferreira Godinho Filho
  • Habilidades
    • Saxofonista
    • Clarinetista
    • Compositor
    • Arranjador

Fontes de pesquisa (6)

  • BARROS, Fernando Lichti. Casé: Como Toca Esse Rapaz!. São Paulo: Nova Ilusão Edições, 2010.
  • GRYNBERG, Halina. Paulo Moura: Um Solo Brasileiro. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011.
  • MARIANO, César Camargo. Solo - César Camargo Mariano - Memórias. São Paulo, Editora Leya, 2011.
  • MUGGIATI, Roberto. Improvisando Soluções. São Paulo. Best Seller, 2008.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A Canção no tempo I: 85 anos de músicas brasileiras (1901-1957). 2. ed. São Paulo: Editora 34, 1998. v. 1. 366 p. (Ouvido Musical) 
  • WISNIK, José Miguel. O Som e o Sentido - Uma Outra História das Músicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CASÉ . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa617009/case>. Acesso em: 20 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7