Artigo da seção pessoas Angela Lago

Angela Lago

Artigo da seção pessoas
Literatura  
Data de nascimento deAngela Lago: 1945 Local de nascimento: (Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte) | Data de morte 22-10-2017 Local de morte: (Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte)

Biografia

Angela Maria Cardoso Lago (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1945 - idem, 2017). Autora e ilustradora de narrativas e de poemas dedicados ao público infantil. Passa a infância em sua cidade natal, estudando nos colégios Sion, Santa Marcelina e Sacré-Coeur de Jesus até terminar o colegial, em 1963. Forma-se na Escola de Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG), em 1968, na qual leciona no ano seguinte. Tendo recebido bolsa de estudo, passa três meses em Denver, Colorado, Estados Unidos, para fazer um curso de psicopedagogia infantil. Vive fora do Brasil na década de 1970, em razão do trabalho do marido. Na Venezuela, onde permanece de 1970 a 1973, trabalha como professora da Escola de Serviço Social da cidade de Puerto Ordaz. Em seguida, após alguns meses em Londres, transfere-se para Edimburgo, e frequenta o curso de artes gráficas no Napier College, de 1973 a 1975. De volta ao Brasil, começa a se dedicar à literatura infantil, atividade em que reúne sua experiência com crianças e a produção literária, iniciada com poemas publicados no Suplemento Literário de Minas Gerais, dirigido por Murilo Rubião (1916-1991). Em 1980, são lançados os dois primeiros livros com textos e ilustrações de sua autoria: O Fio do Riso e Sangue de Barata. Em 1985, depois de dez anos de atividade, fecha seu ateliê de programação visual para publicidade. Ainda no fim da década de 1980, incorpora o computador a seu processo de criação, diversificando as técnicas usadas na produção de ilustrações, que incluem bico de pena e tinta acrílica. Nos anos 1990, quando lança mais de dez livros - entre os quais Festa no Céu (1995) e ABC Doido (1999) -, trabalha como artista convidada em faculdades da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Desde então, dedica-se com exclusividade à literatura, tendo publicado cerca de 30 títulos, além daqueles em que atua apenas como ilustradora. Algumas de suas obras são lançadas primeiramente no exterior, como é o caso de João Felizardo, o Rei dos Negócios, editado em 2006 no Brasil, após ter sido publicado no México em 2003.

Análise

Dialogando com artistas plásticos consagrados e compondo narrativas inspiradas na tradição popular brasileira, Angela Lago produz livros, sobretudo a partir de 1986, em que as ilustrações não se limitam a explicar o texto: a superposição dos elementos gráficos ultrapassa a temporalidade e a espacialização sugeridas pela palavra, ampliando as possibilidades interpretativas.

O diálogo com a cultura tradicional estrutura a obra de Angela desde O Fio do Riso (1980), sua estreia, em que a ilustração está ainda a serviço do texto. Nesse título, Nina, a protagonista, sozinha e entediada em sua casa, decide telefonar para um número aleatório. É atendida pela fada Plimpinar, que transporta a menina para o seu fantástico mundo, sob única condição: que não ria do que ali encontrar, ou a viagem se encerrará. Trata-se da mesma restrição imposta a Orfeu, que para resgatar a amada Eurídice do reino de Hades não pode ceder à tentação de encará-la durante a viagem.

A garota, contudo, ri - passando a ocupar, aos olhos da cozinheira Maria, a posição de quem é vítima da risada: " 'Que menina engraçada, / esta que sonha acordada.' / Nina ficou zangada: / 'Não me faça de piada' ". O aprendizado implicado no desfecho revela outra característica estruturante do trabalho de Angela: a combinação entre espaço real e onírico que amplia os limites da narrativa.

As fontes eruditas estão sempre ao lado das populares - sendo estas patentemente presentes em Uni, Duni e Tê (1982). Trata-se, desde o título, de uma retomada de textos infantis. A narrativa apresenta a procura de uma comunidade por um assaltante que invade as casas para comer salame e sorvete, deixando um bilhete em código: "Uni duni e tê / Salamê minguê / um sorvete colorê / uni duni e tê". Os personagens são todos extraídos de fontes semelhantes: Zé do Cravo, que briga com a namorada Rosa; Dona Xica, em cujo gato um pau é atirado; Samba Lelê, apelido do delegado Lelevaldo, que fica doente e com a cabeça "quebrada".

O jogo metalinguístico vai além da presença do intertexto, passando a determinar também o comportamento do narrador. Embora se trate de um observador, e não de alguém que participa da trama, ele invade a história e dialoga com os personagens. A certa altura, por exemplo, uma das moradoras da vizinhança, durante discussões sobre a autoria do crime, diz aos personagens: "Espera aí". O subtítulo que inaugura o trecho seguinte da narrativa se chamará "Vamos esperar".

Em 1986, a autora publica Chiquita Bacana e Outras Pequetitas. Nesse livro, uma garota recebe visitas noturnas dos personagens-título, que lhe roubam objetos diversos, e por isso decide aprisioná-los. Chiquita, entretanto, não é capturada: à medida que se desenvolve a busca por ela, dentro da casa, outros elementos narrativos vão sendo revelados.

Na profusão de detalhes, o próprio tempo indicado - "uma noite de lua cheia" - é posto em questão: há pinturas na parede do quarto que, de uma página para a outra, se modificam, compondo narrativas paralelas e baseadas em andamento temporal particular. Uma delas retoma a fábula João e o Pé de Feijão, ilustrando o crescimento da planta. Outra, inspirada na sequência L'Enfant au Pigeon, de Pablo Picasso, mostra uma menina camponesa que, observando a liberdade dos pássaros, começa a voar. Há ainda, entre outros, imagens que retomam Chapeuzinho Vermelho.

A soberania da narrativa verbal é também posta em xeque, pois as estrofes em que se conta a história são impressas em páginas de livros trazidas pelas pequetitas. Os versos se tornam, dessa maneira, fio condutor para a leitura dos detalhes.

Os procedimentos são intensificados em O Cântico dos Cânticos (1992), versão ilustrada de Angela para o poema bíblico. Inspirada nos quadros do holandês Maurits Cornelis Escher (1898-1972), a artista transpõe a narrativa dos encontros e desencontros entre os amantes para figuras labirínticas em que não há orientação espacial ou linear.

O livro pode ser percorrido da primeira página à última ou da última à primeira: o encontro entre o casal ocorre nas imagens centrais, de modo a fundir o labirinto da amante, retratado sempre nas páginas pares, ao labirinto do amado, nas ímpares. O júbilo da realização amorosa é simbolizado pela irradiação, a partir de um centro onde está o casal, de luminosidade intensa e de uma força que faz sacudir páginas fictícias contidas nas páginas de fato.

A adaptação inclui ainda a transformação do cenário descrito nos versos da Bíblia em elementos que compõem as molduras das imagens. Pássaros, árvores, fontes tornam-se detalhes das bordas, que trazem também detalhes referentes ao Oriente Médio, como parreiras e arabescos, em uma retomada da atmosfera predominante no texto original.

Os exemplos ilustram a intrincada estrutura das obras de Angela Lago. Os abundantes elementos secundários - sejam detalhes gráficos ou personagens distantes da trama central - atuam na valorização e amplificação dos elementos centrais, inaugurando percursos diversos para a leitura.

Outras informações de Angela Lago:

  • Outros nomes
    • Angela Maria Cardoso Lago
  • Habilidades
    • escritora
    • ilustradora

Obras de Angela Lago: (40) obras disponíveis:

Todas as obras de Angela Lago:

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Fontes de pesquisa (6)

  • COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira: séculos XIX e XX. 4. ed. São Paulo: Edusp, 1995.
  • CORTEZ, Mariana. Palavra e imagem: diálogo intersemiótico. Dissertação (Mestrado em Semiótica e Linguística Geral) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001.
  • CUNHA, Maria Zilda da. Matrizes de linguagem e pensamento na literatura infantil e juvenil: a tessitura dos signos em obras de Angela Lago e Octaviano Correia. Tese (Doutorado em Estudos Comparados de Literatura Portuguesa) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. 
  • LAGO, Angela. Entrevista concedida a Luisa Destri. São Paulo, 21 de setembro de 2010.
  • MENDES, André. O amor e o diabo em Angela Lago: a complexidade do objeto artístico. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.
  • PIRES, Pablo. Artista Angela Lago morre aos 71 anos. UAI, Belo Horizonte, 22 out. 2017. Disponível em: < https://www.uai.com.br/app/noticia/artes-e-livros/2017/10/22/noticias-artes-e-livros,215561/artista-angela-lago-morre-aos-71-anos.shtml >. Acesso em: 22 out. 2017.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ANGELA Lago. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa6168/angela-lago>. Acesso em: 21 de Mar. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7