Artigo da seção pessoas Tom Jobim

Tom Jobim

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deTom Jobim: 25-01-1927 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 08-12-1994 Local de morte: (Estados Unidos / Nova York / Nova York)

Biografia
Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (Rio de Janeiro, 1927 – Nova York, Estados Unidos, 1994). Compositor, pianista, arranjador, cantor e violonista. Seu interesse pela música surge por influência de dois tios, um violonista erudito, outro popular, universos que se fundem em sua obra. Já toca violão e gaita quando, com cerca de 14 anos, tem suas primeiras aulas de piano com o compositor alemão Hans Joachim Koellreutter (1915-2005), que leciona no Colégio Brasileiro de Almeida, propriedade de sua mãe, dona Nilza Jobim. Órfão de pai muito cedo, recebe do padrasto Celso Frota Pessoa grande incentivo para estudar música, evoluindo rapidamente.

Em 1946, alterna o primeiro ano da faculdade de arquitetura com o trabalho de pianista em boates de Copacabana e Ipanema, mas logo abandona os estudos em prol da música. Aperfeiçoa-se no piano com Lúcia Branco e Tomás Terán, além de estudar orquestração, harmonia e composição. Trabalha em boates até 1952, quando é contratado como pianista e arranjador na gravadora Continental, acompanhando artistas como Dalva de Oliveira (1917-1972), Orlando Silva (1915-1978) e Dick Farney (1921-1987). Em 1953, tem suas primeiras composições gravadas: "Pensando em Você"  e "Faz Uma Semana", por Ernâni Filho (1920), e Incerteza, parceria com Newton Mendonça, por Mauricy Moura (1926-1977). Em 1955, rege na Rádio Nacional sua primeira composição sinfônica, "Lenda". No ano seguinte, inicia duradoura parceria com o poeta Vinicius de Moraes (1913-1980), orquestrando, regendo e compondo parte da trilha da peça Orfeu da Conceição.

Em 1958, produz o LP Canção do Amor Demais, de Eliseth Cardoso (1920-1990). Além da faixa-título, parceria com Vinicius de Moraes, o disco traz entre outras duas composições de Jobim: "Chega de Saudade", também com letra de Vinicius, e "Outra Vez", que registram pela primeira vez a batida característica do violão de João Gilberto (1931). João, no mesmo ano, regrava "Chega de Saudade" em voz e violão, num 78 RPM que contém "Bim Bom" na face e é considerado o marco inicial da bossa nova. A canção Desafinado, parceria de Jobim com Newton Mendonça, é incluída no primeiro LP do cantor baiano, "Chega de Saudade" (1959). O álbum seguinte, O Amor, o Sorriso e a Flor (1960) traz diversas canções suas, entre elas o "Samba de Uma Nota Só". Em 1960, por ocasião dos festejos de inauguração da capital, compõe "Brasília, Sinfonia da Alvorada". No mesmo ano, "Orphée Noir" (Marcel Camus, 1959), versão cinematográfica de Orfeu da Conceição, ganha a palma de ouro em Cannes e vence o Oscar de filme estrangeiro.

Em 1962, escreve com Vinicius de Moraes "Garota de Ipanema", que logo alcança grande sucesso nos Estados Unidos. No mesmo ano, a versão instrumental de Stan Getz (1927-1991) e Charlie Byrd (1925-1999) para "Desafinado" leva a gravadora Audio Fidelity, com apoio do Itamaraty, a promover um concerto de bossa nova no Carnegie Hall, em Nova York, onde Jobim passa alguns meses. Ali lança seu primeiro álbum solo, The Composer of Desafinado Plays, em 1963. A partir de então, divide-se entre o Brasil e os Estados Unidos, num trânsito que lhe rende a gravação de oito LPs, incluindo Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim (1967), contratos para atuar no cinema e na TV, além de diversos Grammys. Muitas de suas composições, traduzidas para o inglês, integram o repertório de importantes artistas do universo pop e do jazz.

Fixa-se no Brasil em 1968, ano em que sua canção "Sabiá", parceria com Chico Buarque (1944), vence o 3º Festival Internacional da Canção. Lança os álbuns Matita Perê (1973), Urubu (1975) e Terra Brasilis (1980). Em 1984, funda a Banda Nova, formada por amigos e parentes, com a qual excursiona por diversos países até o fim da vida. Com ela grava seus últimos discos: Passarim (1987) e Antonio Brasileiro (1994).

Ao longo da carreira, recebe inúmeras homenagens e honrarias. Compõe a trilha de filmes nacionais (Porto das Caixas, 1961; Tempo de Mar, 1970; A Casa Assassinada, 1971; Eu te Amo, 1981; Gabriela, 1983, Fonte da Saudade, 1984; Para Viver um Grande Amor, 1983) e estrangeiros (Orphée Noir, 1959; The Adventurers, 1970) e da minissérie O Tempo e o Vento (1985). Além de Vinicius de Moraes, com quem escreve cerca de 50 canções, tem parcerias com grandes nomes da música brasileira, como Dolores Duran ("Estrada do Sol", "Por Causa de Você", "Se É por Falta de Adeus"), Chico Buarque (Sabiá, Retrato em Branco e Preto", "Anos Dourados", entre outras) e Billy Blanco ("Sinfonia do Rio de Janeiro", "Teresa da Praia", entre outras).

Análise


Ao lado do violonista e cantor João Gilberto e do poeta Vinicius de Moraes, Tom Jobim integra o tripé fundador do movimento musical conhecido como bossa nova. Surgido no auge do desenvolvimentismo, o estilo bossanovista vem reforçar um imaginário modernizante que se torna hegemônico no Rio de Janeiro dos anos 1950, espelhando as transformações por quais passava a capital. De um lado, a diminuição dos contatos e trocas entre os estratos mais baixos da população, isolados na zona Norte, e as camadas médias, que passam a se concentrar na beira-mar, cria na cidade novas formas de sociabilidade.

Reunidos nos apartamentos de Ipanema, jovens cariocas começam a compor uma música de caráter camerístico e intimista, que vem substituir o tradicional samba de morro como principal símbolo identitário do Rio de Janeiro. De outro lado, o bombardeamento ideológico da Guerra Fria, claramente perceptível na publicidade do período, divulga e valoriza o american way of life, segundo o qual o grau de felicidade de cada indivíduo seria diretamente proporcional ao seu poder de compra. No mundo do consumo, tudo o que é novo e moderno passa a ser dotado de uma alta carga de positividade. Nesse contexto, a expressão bossa nova passa a designar não apenas um tipo de música, mas um novo estilo de vida, moderno e arrojado, que transparece não só na poética das canções bossanovistas, mas também na sobriedade de seu estilo interpretativo e na imprevisibilidade de suas harmonias. O epíteto atribuído a Juscelino Kubitchek, o presidente bossa nova, reforça a identidade entre a estética do movimento e a ideologia política dominante.

Considerada um verdadeiro manifesto, a canção Desafinado, parceria de Tom Jobim com Newton Mendonça gravada no primeiro LP de João Gilberto, condensa os principais procedimentos da bossa nova. Fundindo a temática amorosa, recorrente nas canções bossanovistas, à problemática do fazer musical moderno, a letra da canção brinca com uma das principais características do novo estilo: o uso frequente de notas estranhas ao campo harmônico, o que provoca uma sensação de desafinamento (“se você disser que eu desafino, amor/ saiba que isso em mim provoca imensa dor [...] eu mesmo mentindo devo argumentar/ que isto é bossa nova/ que isto é muito natural”). De fato, os acordes tocados pelo violão, repletos de notas acrescentadas (quartas, sextas, nonas, quintas diminutas e aumentadas, sétimas maiores e diminutas, décimas primeiras e décimas terceiras), soam dissonantes para ouvidos ainda habituados à harmonia tradicional, além de serem encadeados de modo inabitual, fundindo os campos maior e menor – procedimentos bastante utilizados no jazz e na música erudita, mas pouco usuais na música brasileira até então.

O conteúdo da letra de Desafinado também transparece na melodia, que nas palavras “desafino, amor” incorpora notas estranhas ao campo harmônico, reforçando musicalmente o desafinamento citado no verso. Esse procedimento atribui à canção um isomorfismo entre texto verbal e linguagem musical que se nota em várias outras composições bossanovistas. Em "Chega de Saudade", por exemplo, os versos “colado assim/ calado assim” são cantados sobre uma mesma melodia, porém com uma diferença de meio tom entre um verso e outro, reproduzindo musicalmente a paronomásia1 da letra. O mesmo se nota em "Samba de Uma Nota Só", cuja melodia da primeira estrofe, inteiramente cantada sobre a nota si, reitera o conteúdo da letra (“eis aqui este sambinha/ feito de uma nota só”), para depois, sobre a nota mi, comentar a entrada de uma segunda nota (“esta outra é consequência/ do que acabo de dizer”).

A tudo isso vem se somar uma orquestração perfeitamente integrada ao canto, em que madeiras, metais e cordas fazem um contraponto à linha melódica, enquanto o violão faz o acompanhamento rítmico-harmônico sobre uma batida de samba. Afastando-se dos efeitos grandiosos, às vezes piegas, utilizados nas orquestras de disco e rádio até então, Tom Jobim cria um estilo de orquestração singular e original, observável também em sua obra sinfônica.

Todas essas características revelam a forte permeabilidade que marca sua obra, a um só tempo popular e sofisticada, mesclando samba e jazz, canção e música instrumental, oralidade e cultura letrada. Contribuem para isso dois elementos: de um lado, sua larga experiência como pianista de boate e como arranjador na Continental, onde põe no pentagrama composições de músicos populares que não dominam a grafia musical. De outro, sua formação erudita, fortemente influenciada por Villa-Lobos, de quem herda a capacidade de desenvolver, a partir de motivos simples, linhas melódicas profundamente expressivas.

A centralidade da construção melódica nas canções bossanovistas de Jobim, que procuram reproduzir na melodia a espontaneidade da fala, distingue-as do jazz, que é essencialmente harmônico. A batida de samba, que nessas canções aparece não só no acompanhamento rítmico-harmônico do piano ou do violão, mas também nas síncopas da melodia, cujos acentos raramente caem nos tempos fortes do compasso, vem reforçar essa distinção. Apesar disso, o compositor foi acusado por alguns críticos da época de “jazzificar” a música brasileira,1 sendo mesmo recriminado por um suposto plágio, em "Samba de Uma Nota Só", da introdução de "Night and Day", de Cole Porter (1891-1964). Num contexto de forte polarização ideológica, em que as esquerdas atribuíam o subdesenvolvimento nacional ao imperialismo ianque, tais acusações baseiam-se antes em teorias sociológicas de cunho marxista do que numa crítica de cunho propriamente musical.

Premido, talvez, pela agudização ideológica dos tempos da ditadura, a partir dos anos 1970 as temáticas bossanovistas (“o amor, o sorriso, a flor”) cedem espaço à valorização atemporal da natureza brasileira. Essa fase, conhecida como mateira, transparece em canções como "Águas de Março", que contrapõe a força da natureza (a “chuva chovendo”) a elementos da vida cotidiana (a “conversa ribeira”), ou ainda "Passarinhada"  e "O Boto", cheias de referências a pássaros. Ainda assim, Jobim não abandona de todo a música romântica, compondo clássicos como "Lígia", "Ângela", "Luiza" e "Bebel".

Simples e sofisticada, marcada por influências estrangeiras e pelo nacionalismo musical brasileiro, sinfônica e cancional, a música de Tom Jobim traça um painel dos caminhos e conflitos da música brasileira do século XX.

Notas
1 Figura de linguagem que explora a semelhança fonética de palavras ou frases que, no entanto, possuem significados diversos.

2 TINHORÃO, José Ramos. O samba agora vai...: a farsa da música popular no exterior. Rio de Janeiro: JCM Editores, 1969.

Outras informações de Tom Jobim:

  • Outros nomes
    • Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim
    • Antonio Carlos Jobim
  • Habilidades
    • Arranjador
    • Regente/maestro
    • Instrumentista
    • Compositor
    • Pianista

Obras de Tom Jobim: (11) obras disponíveis:

Espetáculos (4)

Fontes de pesquisa (12)

  • BÉHAGUE, Gerard. "Jobim, Antônio Carlos." Grove Music Online. Oxford University Press. Disponível em: <www.oxfordmusiconline.com/subscriber/article/grove/music/44182>. Acesso em: 03 jun. 2013.
  • CABRAL, Sérgio. Antônio Carlos Jobim: uma biografia. Rio de Janeiro: Lumiar, 1997.
  • CAMPOS, Augusto de (org.). Balanço da Bossa e outras bossas. 5a. ed. São Paulo: Perspectiva, 2005.
  • CASTRO, Ruy. Chega de saudade: a história e as histórias da Bossa Nova. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antônio Marcondes. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998. R780.981 M321e 2.ed.
  • GAVA, José Estevam. A linguagem harmônica da Bossa Nova. São Paulo: Ed. Unesp, 2002.
  • JOBIM, Antonio Carlos. A vida de Tom Jobim: depoimento. Rio de Janeiro: Rio Cultura, Faculdades Integradas Estácio de Sá, 1983.
  • JOBIM, Paulo (org.). Cancioneiro Jobim: Obras completas. Rio de Janeiro: Jobim Music, Casa da Palavra, 2000.
  • MACHADO, Cacá. Tom Jobim. São Paulo: Publifolha, 1998. (Coleção Folha Explica, 77).
  • Orfeu. Disponível em: http://www.showbras.com.br/orfeu Acessado em: 22/08/2012 Não Catalogado
  • Programa do Espetáculo - TBC Apresenta Arena-Opinião - 1965 Não catalogado
  • SÁNCHEZ, J. L. Tom Jobim: a simplicidade do gênio. Rio de Janeiro : Record, 1995.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • TOM Jobim. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa6060/tom-jobim>. Acesso em: 26 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7