Artigo da seção pessoas Aldir Blanc

Aldir Blanc

Artigo da seção pessoas
Teatro / música / literatura  
Data de nascimento deAldir Blanc: 02-08-1946 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Aldir Blanc Mendes (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1946). Letrista, poeta e escritor. Nasce no Bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, onde vive a maior parte da infância. Mais tarde, reside em Vila Isabel e no Largo da Segunda-Feira e, finalmente, muda-se para o Bairro da Tijuca. Em 1966, ingressa na faculdade de medicina, forma-se e se especializa em psiquiatria, mas abandona a profissão médica em 1973.

Aos 18 anos, ganha uma bateria e, tempos depois, forma o grupo Rio Bossa Trio. Em 1968, conhece o parceiro Sílvio da Silva Júnior (1947). Dois anos mais tarde, a primeira composição dessa dupla, Amigo É pra Essas Coisas, é gravada pelo conjunto vocal MPB-4. Na mesma época, ao lado de outros compositores, como Ivan Lins, Gonzaguinha e Marco Aurélio, funda o Movimento Artístico Universitário (MAU), e torna-se conhecido por criar e integrar associações ligadas à defesa dos direitos autorais. É um dos fundadores da Sociedade Musical Brasileira (Sombras) - responsável pela arrecadação de direitos autorais -, da Sociedade de Artistas e Compositores Independentes (Saci) e da Associação dos Músicos, Arranjadores e Regentes (Amar).

Ela, sua composição em parceria com César Costa Filho (1944), é gravada por Elis Regina (1945-1982), em 1971. No ano seguinte, a cantora grava Bala com Bala, parceria com João Bosco (1946), e a canção Agnus Sei é lançada no Disco de Bolso, compacto que acompanha o jornal O Pasquim. A intérprete registra diversos temas de Bosco e Blanc, como O Caçador de Esmeralda, Agnus Sei, Cabaré e Comadre, em 1973.  Em 1974, em outro LP, ela emplaca sucessos da dupla como O Mestre-Sala dos Mares, Caça à Raposa e Dois pra Lá, Dois pra Cá.

Com João Bosco, na década de 1970, Blanc tem algumas canções na trilha de abertura de novelas e séries, como Doces Olheiras (na novela Gabriela, da TV Globo, em 1975, dirigida por Gonzaga Blota e Walter Avancini), Visconde de Sabugosa (para o seriado O Sítio do Pica-Pau Amarelo, em 1977), Coração Agreste (em Tieta, de 1979, com direção de Ricardo Waddington, Luiz Fernando Carvalho e Reynaldo Boury), Confins (em Renascer, de 1993, dirigida por Luiz Fernando Carvalho e Mauro Mendonça Filho), Suave Veneno (em novela homônima, de 1999, com direção de Alexandre Avancini, Moacyr Góes e Marcos Schechtman), Chocolate com Pimenta (tema de novela homônima, em 2003, com direção de Jorge Fernando), Bijuterias (para a minissérie O Astro, no remake de 2011, direção de Mauro Mendonça Filho).

Em junho de 1979, Elis Regina grava O Bêbado e a Equilibrista no disco Elis, Essa Mulher. A canção, uma paródia com a estrutura de um samba-enredo e com todas as suas metáforas para falar do período de forte repressão militar, é adotada como o hino da anistia aos presos políticos. A parceria ainda se mantém, embora ocasionalmente, até o disco Ai, Ai, Ai de Mim (1987), de João Bosco, e posteriormente no disco Não Vou pro Céu, mas já Vivo no Chão (2009).

Na década de 1980, os maiores destaques em termos musicais do letrista se dão ao lado de Maurício Tapajós (Querelas do Brasil, Colcha de Retalhos, Universos e Muy Amigos) e Moacyr Luz (Anjo da Velha-Guarda, Aquário, Centro do Coração, Choro das Ondas, Flores em Vida e Gotas de Luz). A partir de 1991, Blanc escreve uma série de composições elogiadas pela crítica após registros em discos do também carioca Guinga (Baião de Lacan, Canibaile, Catavento e Girassol, Vô Alfredo, Choro pro Zé, Chá de Panela, Nem Cais, Nem Barco, O Coco do Coco, Orassamba e Sete Estrelas). Grava em 1996 o disco Aldir Blanc - 50 Anos, com participação de Edu Lobo (1943), Nei Lopes (1942), Ed Motta (1971), Nana Caymmi (1941), Danilo Caymmi (1948), Leila Pinheiro (1960), Ivan Lins (1945), MPB-4 e Paulinho da Viola (1942).

Em 2005, lança Vida Noturna e, em 2010, é convidado pelo jornalista e escritor Ruy Castro (1948) para compor, ao lado de Carlos Lyra (1939), a trilha do musical Era no Tempo do Rei, com direção geral de João Fonseca (1964) e direção musical de Délia Fischer.

Análise

Aldir Blanc é considerado um dos melhores letristas do Brasil ao lado de Chico Buarque (1944), Paulo César Pinheiro (1949) e Vinicius de Moraes (1913-1980). Compositor desde os 18 anos de idade, tem cerca de 500 temas gravados, entre samba, choro, valsa, baião, bolero, fox, frevo, por ele e por intérpretes como Elis Regina, Clara Nunes (1943-1983), Simone (1949), Gilberto Gil (1942), Chico Buarque, Edu Lobo, Nana Caymmi, Leila Pinheiro, Ivan Lins, Djavan (1949), Paulinho da Viola, MPB-4 e Elizeth Cardoso (1920-1990). Entre suas criações, pelo menos dez músicas em novelas (Tieta, Suave Veneno, Chocolate com Pimenta e Gabriela).

Tem estilo de cronista urbano e, na maioria de suas letras, usa um tom jocoso e escrachado para descrever histórias e situações corriqueiras do cotidiano. Exemplos disso são as composições Canibaile, Par ou Ímpar, Mingus Samba e O Coco do Coco (com Guinga), A Nível de..., Bala com Bala, De Frente pro Crime, Incompatibilidade de Gênios e Kid Cavaquinho (com João Bosco), Mandingueiro (com Moacyr Luz) e Entre o Torresmo e a Moela (com Maurício Tapajós).

Blanc tem facilidade de compor a letra de canções cuja melodia, harmonia e ritmo sugiram ideias, climas e atmosferas completamente diferentes entre si. Ele consegue versar em bolero, como Dois pra Lá, Dois pra Cá, contando a história de uma jovem em um baile, assim como as imagens duras do cerco da ditadura militar em samba, como O Bêbado e a Equilibrista (citando Betinho, "o irmão do Henfil" e as "Marias e Clarisses", fazendo referência a Clarisse, viúva do jornalista assassinado Wladimir Herzog), ou em choro-canção, como Catavento e Girassol, e baião, como Baião de Lacan e Chá de Panela.

Sua versatilidade é aprimorada com o tempo, mas é atribuída pelo próprio compositor principalmente ao fato de ele desde pequeno ter frequentado terreiros de candomblé e, ainda jovem, ter aprendido a tocar bateria. A prática no instrumento lhe rende bagagem rítmica e noções sobre gêneros e divisões de compassos. Anos depois, quando se torna compositor, ter de lidar com parceiros de estilos diferentes fica mais fácil. Isso explica, em parte, como consegue trabalhar a métrica com perfeição e encaixar versos em melodias sinuosas e complexas feitas por compositores como Guinga e João Bosco. Blanc é o letrista mais gravado por Elis Regina.

Em outro aspecto de sua obra, a linguagem, prima pela pluralidade de recursos. Desde jovem, tem o hábito de ler autores de diferentes estilos da literatura, entre clássicos, contemporâneos e até mesmo de livros técnicos de medicina, em que é formado. O tratamento refinado e o conhecimento de um vocabulário vasto não são utilizados apenas no ofício de letrar melodias. No decorrer de sua carreira, além de escrever para jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo, Blanc publica livros de estilos diferentes, em prosa e poesia, como Rua dos Artistas e Transversais (2006), a compilação de seus livros de crônicas Rua dos Artistas e Arredores (1978) e Porta de Tinturaria (1981), com textos também escritos para o Jornal do Brasil, O Pasquim e a revista Bundas.

Como letrista, Blanc compõe com frequência, geralmente escrevendo versos sobre temas instrumentais que lhe são entregues pelos parceiros. Embora tenha bastante rigor com a escolha das palavras e zelo com a adequação estética para seguir o que as melodias "pedem", em muitos casos já chegou a letrar músicas "de cabo a rabo, em uma sentada só", como ele mesmo define.

Outra característica de destaque em seu estilo está o extenso vocabulário, que lhe dá subsídios para escrever sobre melodias longas, que muitas vezes podem chegar a 70 versos, como algumas composições de Guinga (1950), que em alguns casos pede ao letrista que não repita frases. Exemplos disso são letras suas para canções do parceiro violonista, como Catavento e Girassol (com 61 versos sem nenhuma repetição), Nítido e Obscuro (44 versos sem repetições), além de parcerias com Sílvio da Silva Júnior, como Amigo É pra Essas Coisas (63 versos sem repetições), e outras com versos extensos, como Linha de Passe, com João Bosco.

Tudo isso, o Bardo da Tijuca, apelido que ganha dos amigos devido à ligação com o bairro carioca, faz pendulando com naturalidade entre o rebuscamento e o coloquial. Nessa linha, um dos exemplos mais clássicos de seu cancioneiro é Catavento e Girassol (parceria com Guinga), em que ele consegue citar versos como "entre o escancaro e o contido / eu te pedi sustenido e você riu bemol" e "é fuck you, bate bronha / e ninguém mete o bedelho", tudo na mesma canção.

Ponto marcante também na obra de Blanc é a capacidade de criar letras imagéticas para os ouvintes, descrevendo de forma cinematográfica cenas do cotidiano, das mais insólitas às mais banais. Por sua vivência, grande parte de suas letras é formada por crônicas urbanas do dia a dia fluminense. Mais do que cantar o Rio, Blanc se notabiliza em diversos momentos por eternizar passagens da história do Brasil. A temática sentimental é outra face conhecida de suas letras, destacando as canções Resposta ao Tempo, Paixão Descalça, Neblinas e Flâmulas e Dois pra Lá, Dois pra Cá.

Outras informações de Aldir Blanc:

  • Outros nomes
    • Aldir Blanc Mendes
  • Habilidades
    • jornalista
    • Poeta
    • Compositor
    • médico
    • escritor
    • Produtor musical
    • diretor artístico

Espetáculos (1)

Fontes de pesquisa (6)

  • ECHEVERRIA, Regina. Furacão Elis. Rio de Janeiro: Editora Nórdica. 1985.
  • Entrevistas com Aldir Blanc, João Bosco e Guinga, para o Caderno2, do jornal O Estado de S. Paulo (Feitas por Lucas Nobile).
  • MARQUES, Mario. Guinga - Os mais belos acordes do subúrbio. Rio de Janeiro: Gryphus, 2002.
  • NESTROVSKI, Arthur (Org.). Música popular brasileira hoje. São Paulo: Publifolha, 2002.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A Canção no tempo II: 85 anos de músicas brasileiras (1958-1985). São Paulo: Editora 34, 1998. v. 2. (Ouvido Musical)
  • SOUZA, Tárik de. Tem mais samba: das raízes à eletrônica. São Paulo: Editora 34, 2003.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ALDIR Blanc. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa5973/aldir-blanc>. Acesso em: 11 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7