Artigo da seção pessoas Monteiro Lobato

Monteiro Lobato

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Literatura  
Data de nascimento deMonteiro Lobato: 18-04-1882 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / Taubaté) | Data de morte 04-07-1948 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)
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Idéias de Géca Tatú , 1919 , Monteiro Lobato
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Biografia

José Bento Renato Monteiro Lobato (Taubaté, São Paulo, 1882 - São Paulo, São Paulo, 1948). Contista, editor, romancista, jornalista e crítico literário. Filho do fazendeiro José Bento Marcondes Lobato e Olímpia  Monteiro Lobato, filha do visconde de Tremembé. Em 1889, frequenta colégios em Taubaté e escreve os primeiros contos para jornais escolares. Aos 11 anos muda seu nome para José Bento por causa das iniciais gravadas na bengala do pai, J.B.M.L.. Em 1896, é aprovado nos exames para o Instituto Ciências e Letras e muda-se sozinho para São Paulo, passando três anos como interno. No instituto, participa das sessões do Grêmio Literário Álvares de Azevedo.

Em 1900, pressionado pelo avô, ingressa na Faculdade de Direito de São Francisco. Ali, funda com colegas a Arcádia Acadêmica, da qual torna-se presidente em 1902. Colabora com artigos sobre teatro no jornal Onze de Agosto, também publicado por estudantes da faculdade. Formado em 1904, retorna a Taubaté onde trabalha na promotoria pública. No mesmo ano, vence um concurso literário com o conto Gens Ennuyex.

Em 1911, com a morte do avô, Monteiro Lobato herda a fazenda Buquira e dedica-se à modernização da lavoura e da criação. No entanto, insatisfeito com a vida na fazenda, planeja em 1913 explorar comercialmente o Viaduto do Chá em parceria com o poeta Ricardo Gonçalves (1893-1916), amigo dos tempos da faculdade. No ano seguinte passa a escrever artigos para o jornal O Estado de S. Paulo e, em 1916, colabora com a recém-fundada Revista do Brasil. Transfere-se com a família para São Paulo em 1917 e escreve um artigo desfavorável sobre a exposição da pintora Anita Malfatti (1889-1964). Em 1918, compra a Revista do Brasil e publica seu primeiro livro, Urupês. Um dos contos do livro, Os Faroleiros, serve de argumento para o filme homônimo dos cineastas Antônio Leite e Miguel Milani, em 1920.

Funda a editora Monteiro Lobato & Cia. e lança o primeiro livro infantil, A Menina do Narizinho Arrebitado, em 1920. Em 1925, sua editora vai à falência mas, em sociedade com o editor Octalles Marcondes, cria a Companhia Editora Nacional. Candidata-se a uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1926, mas não é eleito.

Em 1927, torna-se adido comercial nos Estados Unidos e transfere-se para Nova York. Com a quebra da bolsa de 1929 é obrigado a vender sua participação na Companhia Editora Nacional. Retorna ao país em 1931 e funda a Companhia de Petróleo do Brasil, dedicando-se durante essa década à campanha pelo petróleo. Em 1940, recusa o convite do presidente Getúlio Vargas (1882-1954) para dirigir o Ministério de Propaganda e, no ano seguinte, é preso durante três meses por suas críticas ao governo1. Desmotivado, recusa a indicação para a ABL em 1944 e, no ano seguinte, o convite para ingressar no Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Em 1946, a convite de Caio Prado Júnior (1907-1990), torna-se sócio da editora Brasiliense. Como capital para sociedade, Lobato leva o direito de publicação de sua obra completa, que tem seus 30 títulos lançados pela editora. No mesmo ano muda-se para a Argentina para tratar-se de um cisto no pulmão. Regressa a São Paulo em 1947.

Análise

Desde a infância, Monteiro Lobato demonstra grande interesse pelas artes: escreve pequenos contos para os jornais da escola, participa de grêmios e academias literárias, pratica técnicas de desenho e pintura, etc. Mas para muitos críticos, Lobato começa a despontar como autor em 1917 quando publica o estudo O saci pererê - resultado de um inquérito, uma pesquisa minuciosa das origens, características e manifestações culturais do personagem do folclore brasileiro. No mesmo ano, publica no jornal O Estado de São Paulo um artigo "Paranoia ou mistificação?" criticando duramente a exposição das obras da pintora Anita Malfatti (1889 - 1964) influenciada pelas vanguardas europeias. Na década seguinte, Lobato mantém-se crítico em relação ao movimento modernista polemizando com escritores como Oswald de Andrade (1890-1954), seu amigo pessoal.

Outra polêmica surge com a publicação de sua primeira obra literária, o volume de contos Urupês, de 1918. Seu personagem Jeca Tatu, um caboclo caipira da zona rural de São Paulo, é representado de maneira realista em oposição a visão idealizada do homem do campo na literatura da época. Nas estórias de Urupês, o Jeca aparece como um sujeito preguiçoso e avesso à civilização. Lobato identifica o personagem como um problema nacional em contraponto à imagem do sertanejo de um livro como Os Sertões do jornalista Euclides da Cunha (1866-1909). Entretanto, ao longo das décadas, a visão do próprio autor sobre seu personagem Jeca Tatu passa por diversas transformações, culminando na obra Zé Brasil, de 1943, em que o Jeca torna-se um boia fria oprimido pelo latifúndio. Um dos contos de Urupês, "Os faroleiros", serve de argumento para um filme dos cineastas Antônio Leite e Miguel Milani em 1920. Em 1926, Monteiro Lobato escreve seu único romance, O presidente negro: uma ficção científica, com influências do escritor britânico H. G. Wells (1866-1946), na qual se relata a eleição de um homem negro à presidência dos Estados Unidos no ano de 2228. Morando à época no país, Lobato pretende traduzir seu romance para o inglês, mas não encontra nenhuma editora interessada em publicá-lo. Segundo relato do próprio autor, os editores estrangeiros consideram sua obra "ofensiva à dignidade americana" por tratar de temas controversos.

Monteiro Lobato encontra seu maior êxito na literatura infantil. Em 1920 surge A menina do nariz arrebitado, estória inicialmente escrita para ser publicada no jornal mas que, devido ao sucesso de público, é transformada em livro. Nos anos seguintes, o escritor continua elaborando estórias com a menina Narizinho e outros personagens, como o menino Pedrinho e a boneca Emília, criando a saga do Sítio do Pica-Pau Amarelo. São 26 títulos com a turma do Sítio dentre os quais se destacam Reinações de Narizinho, Caçadas de Pedrinho, Chave do tamanho, Memórias de Emília e Histórias de Tia Anastácia. No Sítio do Pica-Pau Amarelo seres humanos (Dona Benta, avô de Narizinho e Pedrinho, e a empregada Tia Anastácia) convivem com seres mágicos - a boneca falante Emília e a espiga de milho Marquês de Sabugosa. Lobato utiliza-se de muitas referências culturais na elaboração dos livros infantis. Nas estórias do Sítio percebe-se a presença de lendas brasileiras como Saci, mitos gregos (Hércules e Minotauro), fábulas europeias (Pinóquio) e mesmo personagens de desenhos americanos (Gato Félix e Popeye). Além disso, o Lobato traduz e adapta para crianças obras da literatura universal como Robinson Crusoé do romancista britânico Daniel Defoe (1660-1731). O Sítio do Pica-Pau é adaptado para televisão em 1952 pela primeira vez. O programa é produzido por Tatiana Belinsky (1919) para a TV Tupi. Depois disso, a série de Lobato recebe mais quatro adaptações para televisão - sem contar as peças de teatro, as revistas em quadrinho, etc. O próprio autor participa da montagem de uma opereta intitulada Narizinho arrebitado, para a qual elabora um libreto em 1947.

Além disso, Monteiro Lobato possui um importante trabalho como editor. Inova e propõe mudanças fundamentais na produção gráfica dos livros através de capas coloridas e ilustrações de artistas famosos. Na da Companhia Editora Nacional, aposta em novos escritores e traduz obras polêmicas, por exemplo A luta pelo petróleo do jornalista russo Essad Bey (1905 - 1942). Suas inovações no campo editorial são prolongadas pelo trabalho do editor Ênio Silveira (1925-1996) que, desde o final da década de 1940, está a frente da Civilização Brasileira, anteriormente parte da editora de Lobato.

Monteiro Lobato acredita que um dos maiores motivos para a falta de leitores no Brasil é a pouca atratividade dos livros e por isso trata-os como objeto de consumo em grandes campanhas publicitárias. Curiosamente, é dos poucos autores brasileiros que recebem uma boa quantia por sua obra literária, tendo vivido alguns anos com os ganhos de direitos autorais das traduções de obras famosas e das estórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Nota

1. Durante o período do Estado Novo (1937-1945), o presidente Getúlio Vargas promove o fechamento do Congresso Nacional e extingue os partidos políticos. A imprensa e as artes sofrem censura.

Outras informações de Monteiro Lobato:

  • Outros nomes
    • José Bento Monteiro Lobato
    • Hélio Bruma
    • Rodanto Cor de Rosa
    • Guy d'Hã
    • Miguel P. Garcia
    • Lobatoyewscky
    • Josbem
    • JBML
    • Nhô Dito
    • Gustavo Lannes
    • Matinhos Dias
    • Olga de Lima
    • Nero de Tal
    • She
    • Demonólogo Amador
  • Habilidades
    • escritor
    • tradutor
    • jornalista
    • editor de livros
    • advogado
    • desenhista
    • caricaturista

Obras de Monteiro Lobato: (25) obras disponíveis:

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Como citar?

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  • MONTEIRO Lobato. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa59/monteiro-lobato>. Acesso em: 24 de Abr. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7