Artigo da seção pessoas Aloysio de Oliveira

Aloysio de Oliveira

Artigo da seção pessoas
Teatro / música / cinema  
Data de nascimento deAloysio de Oliveira: 30-12-1914 | Data de morte 20-02-1995 Local de morte: (Estados Unidos / Califórnia / Los Angeles)

Biografia

Aloysio de Oliveira (Rio de Janeiro, RJ, 1914 – Los Angeles, EUA, 1995). Compositor, cantor, produtor musical e locutor. Aprende tocar violão com o vizinho Hélio Jordão. Mais tarde, Hélio muda-se de bairro e Oliveira conhece os irmãos Armando, Stênio e Afonso Osório, que tocam violão, cavaquinho, pandeiro e tamborim. Juntam-se a eles Ivo Astolfi (violão tenor e banjo) e outros integrantes. Surge o Bloco do Bimbo, conhecido pelos banhos de mar à fantasia na Praia do Flamengo e bailes de Carnaval. Em 1929, formam o conjunto vocal Bando da Lua, reduzido a sete integrantes – Aloysio (violão e voz), Armando Osório (violão), Stênio Osório (cavaquinho), Hélio Jordão Pereira (violão), Ivo Astolfi (violão, tenor e baixo) e Vadeco (pandeiro). Com o cantor Castro Barbosa lançam, em 1931, pela gravadora Brunswick, os sambas Que Tal a Vida? e Tá de Mona, de Mazinho e Maércio Azevedo e, mais tarde, a marcha "Opa... Opa..." (1932), os sambas "Imaginem Só" (1933) e "Abandona o Preconceito" (Maércio e Francisco Matoso, 1934), e a marcha "A Hora É Boa" (1934), parceria de Aloysio com Mazinho.

Em 1930, apresentam-se no Programa Casé (Rádio Sociedade) e acompanham artistas como Noel Rosa (1910-1937), Francisco Alves (1898-1952), e Lamartine Babo (1904-1963). Em 1933, assinam contrato com a Rádio Mayrink Veiga. Em 1934, viajam a Buenos Aires acompanhando a cantora Carmen Miranda. Realizam seis temporadas, além de shows no Chile e Uruguai. Em 1936, Oliveira participa de Alô, Alô, Carnaval, dirigido por Adhemar Gonzaga (1901-1978), lançando as marchas "Não Resta a Menor Dúvida", de Noel Rosa e Hervê Cordovil (1914-1979) e "Negócios de Família", de Assis Valente (1911-1958). Também está em "Banana da Terra" (1939), produzido por Wallace Downay (1902-1978). O grupo acompanha Carmen Miranda no Cassino da Urca e em sua estreia nos Estados Unidos, em 1939. Participam do filme Down Argentine Way (1940), dirigido por Irving Cummings.

Oliveira trabalha como consultor e dublador de filmes produzidos por Walt Disney, como Alô Amigos (1942) e Você Já Foi à Bahia? (1944). Presta consultoria musical para os filmes como Romance no Rio (1946) e Interlúdio (1946), de Alfred Hitchcock (1899-1980). É locutor dos programas de ondas curtas transmitidos ao Brasil Fala Hollywood e Hollywood Bowl, promovidos pelo Coordinator of Inter-American Affairs. Em 1949, reintegra o Bando da Lua com os dissidentes do grupo Anjos do Inferno. De volta ao Brasil, assume a direção artística da gravadora Odeon, lançando o LP Chega de Saudade, de João Gilberto (1959).

Em 1961, produz os shows Skindô, com Silvia Telles, Odete Lara, Trio Iraquitã e Moacir Franco; e Tio Samba, com Chocolate, Trio Mariá e José Tobias. Funda o selo Elenco que, de 1963 a 1966, edita cerca de 60 títulos, a maioria de autores e intérpretes de bossa nova,comoTom Jobim, Nara Leão (1942-1989) e Baden Powell (1937-2000).

Vende o selo para a Philips e retoma essa linha de trabalho no selo Evento, em 1974, na Odeon, com discos de Carmem Miranda e o Bando da Lua, Maysa (1936-1977) e Luís Eça (1936-1992), mas o selo não prospera. Realiza parcerias com Tom Jobim em músicas como "Dindi" (1959), "Demais" (1959), "Inútil Paisagem" (1964), as quais são regravadas por intérpretes brasileiros e estrangeiros, como Elizeth Cardoso (1920-1990, Sylvia Telles, e Ella Fitzgerald.

Análise

Aloysio de Oliveira atua de maneira decisiva no processo de internacionalização da música popular brasileira. Apreciador desde a juventude de intérpretes e conjuntos norte-americanos, como Bing Crosby e The Mills Brothers, o compositor incorpora estas influências à sua música, de modo a conciliar os ritmos que chegam ao Brasil através do rádio e do cinema – como o foxtrote, o blues e o jazz – com as canções populares nacionais. Esta característica é levada para o Bando da Lua, que, embora tenha um repertório composto predominantemente de marchinhas e sambas, faz um quarteto dentro de suas apresentações para interpretar músicas americanas. A performance do grupo na interpretação de músicas brasileiras se aproxima em seu ritmo à música norte-americana, pois adere à formação das jazz bands, acrescentando às marchinhas carnavalescas o tempo quebrado dos foxtrotes e charlestons – fator que é tão elogiado quanto criticado pela imprensa da época. Mais tarde, este estilo influencia outros grupos vocais, como Anjos do Inferno e Quatro Azes e Um Coringa. E, principalmente, grupos que se utilizam de nomenclatura parecida ao Bando da Lua, como os Namorados da Lua, que revelam Lúcio Alves, e os Garotos da Lua, que revelam João Gilberto.

Contribui para este processo a visão empresarial dos integrantes do Bando da Lua. Todos são jovens de classe média, que investem o que ganham no próprio conjunto: encomendam instrumentos personalizados – os quais trazem uma lua estampada –, elaboram figurino próprio, alugam um apartamento no centro do Rio de Janeiro para funcionar como sede e dividem funções administrativas e artísticas.

O repertório, cuidado por Oliveira, é pensado com vistas a alcançar popularidade. Quando se mudam para os Estados Unidos para acompanhar Carmen Miranda, aproveitam a habilidade da cantora em falar rápido para criar músicas que explorem as sonoridades das palavras que, mesmo incompreensíveis ao público norte-americano, e muitas vezes com letras nonsense, são envolventes, sobretudo pela interpretação da cantora. Assim, asseguram lançar músicas que soem ao mesmo tempo exóticas e deliciosas, mas com uma sonoridade já familiar, ao invés de arriscar com algo novo e desconhecido do público. Fazem versões irreverentes de músicas já populares, como In the Mood (Joe Garland e Andy Razaf), consagrada pela orquestra de Glenn Miller, que pelas mãos de Aloysio se transforma numa espécie de samba orquestrado, chamado "Edmundo" (1954). Isso ocorre também com On the Sunny Side of the Street (Jimmy McHugh e Dorothy Fields), que vira "A Sobrinha da Judite" em gravação de Francisco Alves, em 1961. Oliveira também verte canções brasileiras para o inglês, como "Abre Alas", que Sarah Vaughan grava no disco Exclusivamente Brasil, produzido por ele em 1980, com o título The Smiling Hour.

A hibridização de gêneros está presente de maneira ampla nesta fase da produção do compositor. É possível perceber isto nos musicais hollywoodianos em que atua, nos quais predomina a mistura de ritmos latino-americanos, pasteurizando os gêneros e as diferenças culturais: o carioca Bando da Lua não raro utiliza trajes típicos caribenhos e chapéus mexicanos. Em Down Argentine Way (1940), aparecem num palco acompanhando Carmen na marcha "Mamãe Eu Quero" com roupas características do gaucho dos pampas argentinos.  Por outro lado, em That Night in Rio (1941), as músicas dos compositores Harry Warren e Mack Gordon são rearranjadas pelo grupo, com ajuda de Herbert Spencer, arranjador chileno radicado nos Estados Unidos: "Chica Chica Boom" é transformado em um samba. Estas apropriações são permitidas em um momento em que estes trânsitos culturais se fortalecem através da política norte-americana de boa vizinhança com os países da América Latina. Oliveira sabe aproveitar e conseguir êxito destas tendências em favor da criação de uma obra cujo fim é entreter os espectadores. Sua experiência nos Estados Unidos aparece ainda em suas composições posteriores, entre os anos 1950 e 1960. O samba-canção "Dindi", por exemplo, parceria com o maestro Tom Jobim, inicia com um recitativo, forma comum nos musicais da Broadway.

O compositor também aproveita a experiência adquirida para lançar uma nova e talentosa leva de artistas brasileiros. Através da criação do selo Elenco, revela compositores e intérpretes e produz discos de grande importância para a música popular, como o LP de estreia de Nara Leão. Durante a existência do selo, Oliveira assegura que todos os músicos recebam royalties, embora as tiragens de discos sejam bastante limitadas, pois a Elenco não tem a ajuda de uma grande distribuidora, o que faz com que se restrinja ao mercado do Rio de Janeiro e de São Paulo e justifica a curta duração do empreendimento.

Aloysio de Oliveira protagoniza um longo período da história cultural brasileira, da chamada “era de ouro” do rádio ao reinado da televisão, passando pelo cinema com destaque. Além de conquistar uma posição favorável nesses meios, participa de maneira inovadora e encoraja a produção de novos artistas que mudam significativamente os rumos da música popular.

Outras informações de Aloysio de Oliveira:

  • Habilidades
    • músico
    • Compositor
    • diretor musical
    • diretor artístico
    • Produtor musical
    • empresário
    • locutor
    • dublador
    • Violonista

Espetáculos (1)

Fontes de pesquisa (6)

  • CASTRO, Ruy. Carmen: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. 597p.
  • GARCIA, Tânia da Costa. O "it verde e amarelo" de Carmen Miranda (1930-1946). São Paulo: Annablume: Fapesp, 2004. 252p.
  • GIL-MONTERO, Martha. A pequena notável: uma biografia não autorizada de Carmen Miranda. Rio de Janeiro: Record, 1989. 316p.
  • OLIVEIRA, Aloysio. De banda pra lua. Rio de Janeiro: Record, 1982.
  • VIDAL, Erick de Oliveira. As capas da bossa nova: encontros e desencontros dessa história visual (LPs da Elenco, 1963). 2008. Dissertação (mestrado em história). Juiz de Fora: UFJF, 2008.
  • Programa do Espetáculo - Abelardo e Heloisa - 1971. Não catalogado

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ALOYSIO de Oliveira. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa586430/aloysio-de-oliveira>. Acesso em: 20 de Jun. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7