Artigo da seção pessoas Silvio Caldas

Silvio Caldas

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deSilvio Caldas: 23-05-1908 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 03-02-1998 Local de morte: (Brasil / São Paulo / Atibaia)

Sílvio Narciso de Figueiredo Caldas (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1908 – Atibaia, São Paulo 1998). Intérprete e compositor. Nasce no bairro carioca de São Cristóvão e, desde cedo, tem a música como presença marcante na vida. A formação musical é moldada pela mãe, Alcina Figueiredo Caldas (1882-1975), que cantava em casa, e pelo pai, Antonio Narciso Caldas (1879-1958), afinador de pianos.

Aos 5 anos, faz a primeira apresentação, interpretando um tema brejeiro no Teatro Fênix, no Rio de Janeiro. Canta no bloco Família Ideal, carregado nos ombros de um tio, e impressiona o público, que o apelida de “O Rouxinol da Família Ideal”. Aos 16 anos, forma-se como mecânico e muda-se para São Paulo para trabalhar com automóveis. 

Em 1927, retorna ao Rio de Janeiro e inicia a carreira artística na Rádio Mayrink Veiga. Dois anos depois, atua na Rádio Sociedade. É apenas o ponto de partida para ele, que assina, anos depois, contrato com as principais rádios cariocas.

Em 1930, registra, em dueto com Breno Ferreira (1907-1966), o tema “Tracuá Me Ferrô” e atua no teatro de revista Brasil do Amor, espetáculo de Marques Porto (1870-1910) e Ary Barroso (1903-1964). Desse último compositor, grava “Faceira”, o primeiro grande sucesso da carreira. Até a década de 1940, é considerado “o intérprete de Ary Barroso”, de quem registra diversas canções: “Aquarela do Brasil”, “Na Baixa do Sapateiro”, “Maria” e “Segura Esta Mulher”.

No mesmo período, lança sucessos de outros autores: “Linda Morena”, de Lamartine Babo (1904-1963), e “A-E-I-O-U”, de Lamartine e Noel Rosa (1910-1937); “Velho Realejo”, “Pião” e “Mulher”, de Custódio Mesquita (1910-1945); e “Linda Lourinha”, de João de Barro, o Braguinha (1907-2006).

A partir de 1934, torna-se parceiro regular de Orestes Barbosa (1893-1966), com quem assina “Chão de Estrelas”, o maior sucesso da carreira, lançado em 1937. O cantor intitula a música de “Sonoridade que Acabou”, um dos versos da canção. Por sugestão do poeta Guilherme de Almeida (1890-1969), entretanto, o tema, nascido no histórico Café Nice, recebe o nome pelo qual é conhecido até hoje.

Nos anos 1940, participa dos filmes Tristezas Não Pagam Dívidas (1944) e Luz dos Meus Olhos (1947), de José Carlos Burle (1910-1983), e Não Adianta Chorar (1945), de Watson Macedo (1918-1981). Nas décadas seguintes, lança seis discos, entre eles, Isto É São Paulo (1968), no qual registra temas sobre a cidade. No fim dos anos 1960, anuncia diversas vezes a aposentadoria dos palcos, o que lhe rende o apelido de “Cantor das Despedidas”. Seu últrimo disco é A Estória da Música Popular Brasileira, de 1986.

 

Análise

Nos anos 1930, projetar-se e obter sucesso no cenário musical brasileiro como intérprete é para poucos. Entre as mulheres, diversas cantoras tentam destacar-se e conquistar um papel, ainda que secundário, em teatros de revista e cassinos cariocas. Quase todas, entretanto, são ofuscadas pelo talento de Carmen Miranda. Entre os homens, a concorrência também se mostra acirrada na Era do Rádio. A tarefa só não é difícil para compositores, que tentam emplacar seus sambas, marchinhas, maxixes e valsas. Para os intérpretes, despontar em um ramo com nomes como Orlando Silva (1915-1978), Francisco Alves (1898-1952), Mário Reis (1907-1981), Carlos Galhardo (1913-1985), Baiano (1870-1944) e Vicente Celestino (1894-1968), torna-se missão inglória. Nesse contexto, aparece Sílvio Caldas.

Figura carimbada entre as principais rádios cariocas daquele período, o Caboclinho Querido, apelido que ganha do radialista e amigo César Ladeira (1910-1969), passa a ser disputado pelos principais compositores da época. Depois do sucesso com “Faceira”, de Ary Barroso, em 1931, confiar um tema à voz de Sílvio Caldas é sinônimo de sucesso  e retorno financeiro para gravadoras, empresários e compositores naquele momento. 

Os intérpretes também preocupam-se em fechar bons contratos e garantir adiantamentos. Figura folclórica, Sílvio Caldas tem histórias pitorescas relacionadas a seus ordenados. Em uma delas, talvez a mais emblemática, ele se recusa a cantar em uma edição da Bienal do Samba, promovida pela TV Record, justamente em homenagem a Ary Barroso, o homem que o revela para a cena musical. Como o programa é gravado, podendo ser exibido e explorado diversas vezes depois, Sílvio exige um cachê maior. Na mesma noite, para registrar seu aborrecimento, canta de graça em um asilo para idosos no bairro de Santana, na zona norte de São Paulo.

Ao longo da carreira, Sílvio Caldas entoa temas de nomes consagrados, como Noel Rosa, Lamartine Babo, Custódio Mesquita, João de Barro, Mário Lago (1911-2002), Nássara (1910-1996), Benedito Lacerda (1903-1958), Herivelto Martins (1912-1992), Ismael Silva (1905-1978), Heitor dos Prazeres (1898-1966), Sinhô (1888-1930), Ataulfo Alves (1909-1969), Joubert de Carvalho (1900-1977), Francisco Mignone (1897-1986), J. Cascata (1912-1961), Henrique Vogeler (1888-1944), Luiz Peixoto (1889-1973), Bide (1902-1975) e Marçal (1902-1947). 

Cantor versátil, passeia por diferentes gêneros e estilos da canção. Em 1938, ganha o título de Cidadão Samba, depois de registrar a marcha “As Pastorinhas”, de Noel Rosa e Braguinha. Na década de 1930, mesmo cantando a obra de outros autores renomados, passa a ser conhecido como “o intérprete de Ary Barroso”, devido à identificação com as composições de seu padrinho artístico.

Na linha do tempo dos intérpretes da música popular brasileira, Sílvio Caldas é classificado como um dos ícones do bel-canto. Surgido nos primórdios das gravações discográficas no país, é dono de uma voz potente, capaz de emitir o famoso “dó de peito”, como classificam críticos, especialistas e pesquisadores. 

Com mais de 300 composições gravadas em discos de 78 rpm e LPs, ele e outros pares de sua época servem de influência para cantores que despontam mais tarde. João Gilberto (1931-2019), tido como expoente da bossa nova, reconhece que, no início da carreira, tenta imitar o jeito de cantar de Orlando Silva. Francisco Alves, Mário Reis (este, embora, com um estilo mais contido) e Carlos Galhardo também servem de inspiração para cantores da geração seguinte, como Johnny Alf (1929-2010), Dick Farney (1921-1987) e Lúcio Alves (1927-1993).

Sílvio Caldas conquista lugar cativo entre os maiores intérpretes do país de todos os tempos. Nos anos 1930, não satisfeito apenas com o papel de intérprete, passa a compor, revelando igual talento como autor. Assina temas ao lado de nomes como Cartola (1908-1980), Ataulfo Alves, Mário Lago, J. Cascata, Billy Blanco (1924-2011), Wilson Batista (1913-1968), Cristóvão de Alencar (1910-1983) e Newton Teixeira (1916-1990). Entretanto, é a partir de 1934, em parceria com Orestes Barbosa, que Sílvio Caldas entra para a história do cancioneiro nacional como autor de destaque. A qualidade das melodias e dos versos assinados pela dupla é notável e perdura na memória musical brasileira, como o clássico “Chão de Estrelas”, que confere ao cantor o apelido de Seresteiro do Brasil. Na época dessa canção, o Sílvio Caldas vangloria-se pelo fato de ter composto com versos decassílabos, “enquanto os outros só cantavam em quadras e sextilhas”. Os mesmos rigor e beleza estão presentes em composições como “Arranha-Céu”, “Meu Erro”, “Santa dos Meus Amores”, “Serenata”, “Sem Você”, “Suburbana”, “Torturante Ironia” e “O Vestido das Lágrimas”.

Na voz de Sílvio Caldas, muitos temas tornam-se clássicos da música popular brasileira e são regravados por intérpretes célebres. Em 1996, Maria Bethânia (1946) registra “Chão de Estrelas”; em 1988, “Cabelos Cor-de-Prata” aparece na voz de Nelson Gonçalves (1919-1998) e, em 2006, na de Bebeto Castilho (1939) e “Andorinha” é regravado por Elizeth Cardoso (1920-1990), em 1971, em dupla com Sílvio Caldas.

Outras informações de Silvio Caldas:

  • Outros nomes
    • Sílvio Antônio Narciso de Figueiredo Caldas

Fontes de pesquisa (3)

  • GIRON, Luis Antonio. Mario Reis: o fino do samba. São Paulo: Editora 34, 2001.
  • MARQUES, Carlos. Sílvio Caldas: o seresteiro do Brasil. Fortaleza: Editora UFC, 2008.
  • SÍLVIO CALDAS. A música brasileira deste século por seus autores e intérpretes – Sílvio Caldas. Produção de J. C. Botezelli. [São Paulo]: Sesc/SP, 2003. 1 encarte de CD.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • SILVIO Caldas. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa557253/silvio-caldas>. Acesso em: 13 de Abr. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7