Artigo da seção pessoas Fred Zero Quatro

Fred Zero Quatro

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deFred Zero Quatro: 26-06-1962 Local de nascimento: (Brasil / Pernambuco / Recife)

Biografia

Fred Rodrigues Montenegro (Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, 1962). Jornalista, cantor, compositor, violonista, cavaquinista e guitarrista. Aprende piano com uma professora particular entre os seis e os sete anos e chega a participar de alguns saraus. Atraído pela jovem guarda, torna-se fã de Roberto Carlos (1941) e também se interessa por Tim Maia (1942-1998). Por influência dos irmãos, passa a ouvir bandas de rock como Creedence Clearwater Revival, Beatles e Rolling Stones. Mais tarde, conhece os discos Samba Esquema Novo (1963) e A Tábua de Esmeralda (1974), de Jorge Ben (1942). Ganha um violão de presente do pai e aprende alguns acordes com um vizinho. Autodidata, passa a compor músicas aos 13 anos.

Em 1980, na ocasião em que começa a cursar jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Fred Zero Quatro participa intensamente de passeatas durante uma greve geral da entidade. É convidado a integrar o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), mas declina. Cria o codinome Zero Quatro a partir dos últimos dois números de sua carteira de identidade.

Influenciado pelo movimento pós-punk, funda sua primeira banda, Trapaça. Tem contato com o punk da periferia de São Paulo por meio do jornalista Renato Lins, o que dá origem ao grupo Serviço Sujo, focado em hardcore. O músico integra ainda o Câmbio Negro H.C. como guitarrista, compositor e vocalista. Tempos depois, decide fundar uma banda que não tenha uma concepção ideológica egressa do punk, mas que misture a sonoridade punk com MPB, samba e samba-rock. Surge, em 1984, o Mundo Livre S/A.

Torna-se um dos principais mentores do manguebit ao escrever o manifesto "Caranguejos com Cérebro" ao lado do jornalista Renato Lins. O texto, de julho de 1992, é impresso e enviado a redações de todo o país, até ser veiculado pela primeira vez na MTV durante uma reportagem sobre o movimento, exibida em janeiro de 1993. "Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip hop, moda, Jackson do Pandeiro (1919-1982), rádio, Josué de Castro, sexo não-virtual, música de rua, conflitos étnicos, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência", diz um trecho do manifesto.

Em 1994, o Mundo Livre S/A estreia com o álbum Samba Esquema Noise. Em seguida lança Guentando a Ôia (1996), com participação do então percussionista Otto, que também toca no trabalho anterior do grupo. Carnaval na Obra, gravado em 1998, é premiado como melhor do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Por Pouco, lançado em 2000, traz uma versão para Mexe-Mexe, de Jorge Ben. O Outro Mundo de Manuela Rosário, de 2004, gira em torno de uma personagem fictícia. O álbum Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa sai em 2011. Em 2013, o Mundo Livre S/A lança um álbum pela Deck em parceria com a Nação Zumbi, em que uma banda toca músicas da outra.

Além de jornalista e músico, Fred Zero Quatro exerce outras funções. Em 2001, é conselheiro municipal de cultura em Recife. É convidado para o cargo de secretário de cultura, mas não aceita. De junho de 2008 a junho de 2010 atua como assessor técnico da Secretaria da Cultura na capital pernambucana.

Análise

Fred Zero Quatro faz parte de uma geração de bandas pernambucanas que nos anos 1990 são fortemente influenciadas pelos grupos de rock paulistas, ingleses e norte-americanos, porém, assim como outros músicos de parte baixa das cidades pernambucanas de Olinda, Recife e Jaboatão, que privilegiam a fusão desse gênero importado com gêneros musicais brasileiros, como o samba, choro, maracatu e outros ritmos regionais.

É o caso do Mundo Livre S/A. No título o primeiro trabalho da banda, Samba Esquema Noise, lançado em 1994 pela Banguela Records, faz referência ao primeiro disco de Jorge Ben, Samba Esquema Novo, de 1963. A sonoridade criada pelo compositor carioca no álbum, assim como em A Tábua de Esmeralda, 1974, outra forte influência para Zero Quatro, permeia toda a discografia do Mundo Livre, que mistura o suingue de Benjor com o rock de poucos acordes e muitas distorções da banda punk The Clash, surgida na Inglaterra nos anos 1970. A primeira demo do grupo, de 1987, faz uma inusitada junção de Fio Maravilha, com Big Mouth Strikes Again, do grupo inglês The Smiths, e recebe o nome de Jorge Ben Tries it Again.

O fato de Samba Esquema Noise ter o lançamento no mesmo ano de Da Lama ao Caos (primeiro trabalho de Chico Science & Nação Zumbi) ajuda a demarcar Recife como uma nova referência no cenário cultural. Sem empresário nem produtor, o Mundo Livre faz seu próprio marketing, criando manifesto, visual e suas próprias gírias.

Para o produtor Carlos Eduardo Miranda, a maneira livre de criar que muitas bandas têm hoje é influência em parte dos Mutantes, em parte do manguebit. Algo parecido acontece com o cinema. Um dos principais exemplos é o filme Baile Perfumado (1996), primeiro longa de Lírio Ferreira (1965) e Paulo Caldas (1964), que reflete o período de resgate de autoestima pela qual passa a capital pernambucana na época da criação do movimento.

Se, musicalmente, Fred Zero Quatro reverencia o suingue de Jorge Ben, suas letras refletem o interesse por assuntos políticos e por cultura pop. O disco O Outro Mundo de Manuela Rosário, de 2004, é o trabalho mais politizado que o grupo tem em sua carreira. O álbum gira em torno da personagem fictícia Manuela Rosário, uma cineasta mexicana simpatizante dos zapatistas. A banda lança um olhar aguçado sobre assuntos como o assassinato do líder da tribo Xucuru por latifundiários na zona da mata pernambucana, retratado em O Outro Mundo de Xicão Xucuru.

Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa, de 2011,traz temas contemporâneos, como a biopirataria,a exemplo de Cabôcocopyleft, uma alusão à discussão sobre direitos autorais.

No imaginário de Fred Zero Quatro há espaço para os mais estranhos personagens, como o marginal americano Caryll Chessman que, preso e condenado à pena de morte nos Estados Unidos, luta pela liberdade escrevendo quatro livros que vendem milhões de exemplares mundo afora. Luz Vermelha, como fica conhecido, é homenageado pelo compositor na música "Homero, o Junkie", com participação de Nasi, vocalista do Ira!, também admirador da história de Chessman. Numa época em que a música pop feita no Brasil passa por uma crise de bom-mocismo, essa galeria de figuras bizarras é inserida em rocks, sambas e funks não menos incomuns.

Assim como Jorge Benjor, Zero Quatro também faz uma interpretação ímpar do universo feminino em suas letras. As mulheres aparecem em canções de todos os álbuns, como em Tentando Entender as Mulheres (Guentando a Ôia), Maroca (Carnaval na Obra), Meu Esquema e Melô das Musas (Por Pouco) e Ela é Indie (Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa).

Outras informações de Fred Zero Quatro:

  • Outros nomes
    • Fred Rodrigues Montenegro
    • Fred 04

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Fontes de pesquisa (6)

  • MUNDO Livre S.A. Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Disponível em:  www.dicionariompb.com.br/mundo-livre-sa/dados-artisticos. Acesso em: 19 fev. 2013.
  • NEY, Thiago. "Hoje o mangue beat não passaria de duas comunidades no Orkut". Ilustrada, Folha de S. Paulo. 18 set. 2009.
  • NOGUEIRA, Lígia. "Da Lama ao Caos, álbum essencial do mangue beat, faz 15 anos". Portal G1. 18 set. 2009.
  • NOGUEIRA, Lígia. "É quase proibido questionar a internet". Portal G1. 27 set. 2009.
  • NOGUEIRA, Lígia. Entrevista com Fred Zero Quatro. 15 fev. 2013.
  • TELES, José. Do Frevo ao Manguebeat. São Paulo, Editora 34. 1ª edição. 2000.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • FRED Zero Quatro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa541341/fred-zero-quatro>. Acesso em: 19 de Nov. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7