Artigo da seção pessoas Moacyr Scliar

Moacyr Scliar

Artigo da seção pessoas
Literatura / teatro  
Data de nascimento deMoacyr Scliar: 23-03-1937 Local de nascimento: (Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre) | Data de morte 27-02-2011 Local de morte: (Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre)

Biografia

Moacyr Jaime Scliar (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1937 - idem 2011). Romancista, contista, cronista e autor de histórias infantojuvenis. Filho de judeus emigrados, em 1904, da Bessarábia, sul da Rússia, passa boa parte da infância e a adolescência em Bom Fim, bairro judeu de Porto Alegre, cujos habitantes têm o hábito de se reunir para contar histórias relacionadas a suas origens. Ainda menino, convive com Erico Verissimo (1905-1975) e Jorge Amado (1912-2001). Amigo de seu primo, o artista plástico Carlos Scliar (1920-2001), Jorge Amado é frequentemente hospedado pela família. Alfabetizado pela mãe, ingressa na Escola de Educação e Cultura, conhecida como Colégio Iídiche, em 1943, transferindo-se, cinco anos depois, para o católico Colégio Rosário. Forma-se pelo Colégio Estadual Júlio de Castilhos, onde inicia a militância política, que nos anos de faculdade o leva ao Hashomer Hatzair, movimento de jovens judeus socialistas. Gradua-se em medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1962, ano de lançamento de Histórias de um Médico em Formação, contos baseados em sua experiência durante estágio na Santa Casa de Misericórdia. Em 1968, entretanto, publica o que reconhece como seu primeiro livro, O Carnaval dos Animais. Tendo iniciado a carreira médica no Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (Samdu) e se especializado em saúde pública como sanitarista, realiza pós-graduação em Israel, em 1970. Atua em um hospital de Jerusalém, onde convivem judeus e palestinos. De volta ao Brasil, publica, em 1972, A Guerra do Bom Fim, seu primeiro romance, e inicia duradoura colaboração para a imprensa, com contos, crônicas e ensaios: até o fim da vida, atua como colunista do Zero Hora e da Folha de S.Paulo. Aposenta-se pelo serviço público no fim da década de 1990, deixando a medicina e passando a se dedicar exclusivamente à literatura. As relações entre as duas profissões são tema do curso que ministra, em 1993, na Brown University, nos Estados Unidos. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2003, tem mais de 70 títulos publicados.

Análise

Retratando sistematicamente o tema da imigração judaica, a obra de Moacyr Scliar parte das colônias estabelecidas no Brasil para refletir sobre as condições políticas e sociais de todo o país. Desde o início, sua produção se sustenta sobre os dois traços, recorrendo ora ao fantástico, ora à história objetiva a fim de questionar a tradição judaico-cristã e a realidade social da classe média urbana.

Em A Majestade do Xingu, de 1997, as temáticas centrais do autor se articulam de modo exemplar. O narrador-protagonista, judeu vindo ao Brasil em 1921, conta sua história enquanto, no leito de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), espera a morte. A medida de sua existência, contudo, é o sucesso alcançado por outro. Embora se trate de um relato em primeira pessoa, o foco recai sobre o médico sanitarista Noel Nutels (1913-1973), cuja carreira, desenvolvida com índios brasileiros na Amazônia, é retratada nessa ficção.

O procedimento não apenas recupera o que havia ocorrido em Sonhos Tropicais (1992), em que o personagem fictício, um médico desempregado, narra a vida de figura histórica, o sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917), como também revela certo determinismo na trajetória que cada personagem cumpre: para o narrador, lidar com o próprio fracasso e com a admiração por Nutels é dar continuidade às diferenças havidas entre as famílias desde antes da partida da Rússia.

Erige-se, entre a frustração da primeira pessoa e a realização de Nutels, um monólogo estruturado sobre o conflito básico da obra de Scliar: o confronto entre um mundo idealizado, que os personagens não deixam de desejar, e uma realidade injusta e rebaixada, a qual jamais logram superar. É sobretudo a partir dessa dicotomia que o tratamento da questão judaica cede lugar ao retrato das mazelas sociais. O retorno à Terra Prometida associa-se ao desejo de ascensão social: ambos impelem a busca dos personagens e figuram cada vez mais intensamente como horizonte inalcançável por obra das condições objetivas da realidade.

Em A Guerra no Bom Fim (1972), romance que resgata a memória dos judeus instalados em Porto Alegre, a ação avança de 1943 ao crescimento das crianças da comunidade. Da lembrança de pais aterrorizados pelo nazismo durante a Segunda Guerra Mundial, os personagens chegam ao enfrentamento do inimigo contemporâneo, a pobreza. Se, entretanto, a ameaça atinge a todos, aos judeus é possibilitada a ascensão, ao contrário do que ocorre aos negros, cujas precárias condições jamais são superadas.

O protagonista, formado dentista, cumpre destino que permite ao romance desenhar amplo painel histórico. A relação com a questão judaica se modifica de acordo com as diferentes etapas de seu amadurecimento. Quando adulto, viaja a Israel, em um movimento narrativo que, tendo partido do nazismo, chega às guerras com os árabes e aos problemas envolvendo os refugiados.

Para a articulação entre a história brasileira e a judaica, são vários os procedimentos literários empregados. Para além da transposição, para o Brasil, de marcantes episódios como a Segunda Guerra Mundial, a exemplo do que ocorre no romance de 1972, Scliar vale-se de material bíblico e cabalístico e de recursos do realismo mágico, construindo alegorias do Bem e do Mal, encarnados respectivamente nas figuras do dominado e do dominador.

Os traços valem igualmente para a numerosa ficção juvenil do autor, a exemplo do que ocorre em No Caminho dos Sonhos (1988): Marcelo, o protagonista, enfrenta o legado de seus antepassados, que enfrentaram a Segunda Guerra e a ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945). Já a recriação com base na narrativa bíblica pode ser ilustrada por Um Menino Chamado Moisés (2004), que a partir da infância do personagem conta a história dos hebreus e sua libertação da escravidão.

Quanto à narrativa fantástica, é exemplar o conto Metamorfoses da Terra Trêmula, em que o crescimento descomunal da empregada Gertrudes simboliza a relação estabelecida com seus empregadores. Seu corpo, que já não cabe na casa da família, torna-se fonte de incômodo para os patrões. Quando ela mesma assume o relato, os fatos se apresentam de maneira diversa: "A história que eu conto é de quatro bichinhos que passeavam pelo meu corpo, me picando, me mordendo, me tirando sangue". A estrutura das relações sociais transforma-se, dessa maneira, em ferimentos fisicamente infligidos à personagem.

As narrativas curtas de Scliar são povoadas por tipos genéricos, representantes de modelos de ação e comportamento, cuja intimidade não chega a ser retratada. Sem que se explorem aspectos psicológicos, e frequentemente empregando o insólito, os contos dedicam-se ao testemunho do crescente individualismo e da implacável lógica social que minam as relações humanas. A preocupação com a bestialidade do homem está presente desde o livro de estreia do autor. O Carnaval dos Animais, de 1968, escrito sob o cerceamento da ditadura militar brasileira, traz contos alegóricos que equiparam o homem, por seu poder de destruição, aos animais.

Outras informações de Moacyr Scliar:

  • Outros nomes
    • Moacyr Jaime Scliar
    • Moacir Scliar
  • Habilidades
    • Crítico literário
    • Romancista
    • Contista
    • Cronista
    • ensaísta
    • médico
  • Relações de Moacyr Scliar com outros artigos da enciclopédia:

Espetáculos (3)

Eventos relacionados (2)

Fontes de pesquisa (3)

  • MOACYR Scliar: biografia. Academia Brasileira de Letras. Rio de Janeiro, s/d. disponível em http://www2.academia.org.br/. Acesso em 20 de setembro de 2010.
  • SCLIAR, Moacyr. O texto, ou: a vida. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
  • VOGT, Carlos. "A solidão dos símbolos: uma leitura da obra de Moacyr Scliar". In: FICÇÃO em debate e outros temas. São Paulo: Livraria Duas Cidades; Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 1979. p 71 - 80, v 1.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • MOACYR Scliar. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa5359/moacyr-scliar>. Acesso em: 16 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7