Artigo da seção pessoas Luiz Antônio

Luiz Antônio

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deLuiz Antônio: 16-04-1921 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 01-12-1996 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Antônio de Pádua Vieira da Costa (Rio de Janeiro, RJ, 1921 - Rio de Janeiro, RJ, 1996). Compositor e oficial do exército. Passa boa parte da infância e juventude nessa instituição. Depois de ingressar no Colégio Militar do Rio de Janeiro, transfere-se para a Escola Militar do Realengo, de onde sai aspirante em 1944. Sua vocação musical começa a aflorar dentro do quartel, quando aos 14 anos compõe os hinos cantados nas competições esportivas dos cadetes. Gradua-se tenente em 1945 e no mesmo ano viaja com a Força Expedicionária Brasileira para a Europa, onde participa da Segunda Guerra Mundial.

Começa a carreira como compositor profissional em 1948, quando seu samba-canção Somos Dois, parceria com Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, também militares, é gravado por Dick Farney. A música inspira um filme homônimo estrelado pelo cantor, para o qual os parceiros na música compõem a trilha sonora. Faz grande sucesso em 1951 com o samba carnavalesco Sapato de Pobre, com Jota Junior, na interpretação da cantora Marlene, e passa, então, a compor uma série de canções para o Carnaval na década de 1950.

Na década de 1960, compõe sambas românticos, a maioria lançada pelo amigo e cantor Miltinho, que se torna o principal intérprete de suas canções, como Recado e Mulher de Trinta. Em 1973, Elizeth Cardoso grava o que viria a ser seu último sucesso popular, a clássica parceria com João do Violão Eu Bebo Sim.

É graduado coronel do exército e afasta-se aos poucos do meio artístico. Ingressa no funcionalismo público e vai trabalhar no Museu do Carnaval, no Sambódromo do Rio de Janeiro. Memória viva do Carnaval, passa a transmitir seus conhecimentos a estudantes e pesquisadores. Morre no Rio de Janeiro em 1996, vítima de parada cardíaca durante uma cirurgia.

 

Comentário crítico

Compositor desde os 14 anos, a carreira artística de Luís Antônio pode ser dividida em três fases distintas. A primeira começa ainda na adolescência e transcorre durante os anos de formação militar, dedicada exclusivamente aos hinos da caserna. A segunda etapa começa em 1948 e vai até a metade da década de 1950, período em que compõe para o Carnaval e transforma-se em um dos principais autores do gênero. A terceira, do fim dos anos de 1950 e na década de 1960, é voltada aos sambas românticos e para o que a crítica batiza de sambalanço, mais urbano e sofisticado.

O feito mais notório da primeira fase é o Hino da Escola Militar, de sua autoria, obra executada até os dias de hoje, e também Aí Vem a Marinha, gravado até pelo Conjunto Farroupilha, em 1961. Depois de realizar a trilha sonora para o filme Somos Dois, estrelado pelo cantor Dick Farney em 1948, Luís Antônio compõe uma sequência de sucessos na década de 1950. Seu samba carnavalesco "Sapato de Pobre", parceria com Jota Junior (Joaquim Antônio Candeias Júnior), é gravado em 1951 pela cantora Marlene, então no auge da fama, e torna-se um dos mais executados no Carnaval, filão que Luís Antônio passa a explorar, formando com Jota Junior uma das raras duplas de talento surgidas nos anos de 1950 a se dedicar ao repertório carnavalesco.

Em 1952, consolida seu prestígio como autor de marchinhas, verdadeiras crônicas urbanas que contam a história da cidade e as características de seu povo, quase sempre utilizando-se do deboche e da malícia. Emplaca no Carnaval deste ano dois grandes sucessos, "Sassaricando" (com Zé Mario¹ e Oldemar Magalhães) e "Lata d'Água na Cabeça" (com Jota Junior). A primeira, feita por encomenda para a peça teatral Jabaculê de Penacho (que, por conta do bom resultado da marchinha teve seu título mudado para Eu Quero Sassaricar), de Walter Pinto, e gravada pela vedete carioca Virgínia Lane, destaca no título o verbo sassaricar, que em português arcaico significa sassar, peneirar, separar. Relacionada ao movimento de quem sacode a peneira, a expressão ganha o sentido de rebolar, dançar e divertir-se: "Sassaricando, todo mundo leva a vida no arame / Sassaricando, a viúva, o brotinho e a madame". O verbo cai na boca do povo e, 35 anos depois, a Rede Globo exibe a novela Sassaricando, de Sílvio de Abreu, para a qual Rita Lee regrava a famosa marchinha para a sua abertura.

Muitas de suas composições nessa época expressam também a preocupação com os menos favorecidos e retratam a dura vida nos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro. "Lata d'Água na Cabeça" é inspirada por uma cena de morro presenciada pelos autores, na ocasião capitães do exército. Através de uma linguagem cinematográfica, a música faz um retrato da vida de uma lavadeira do morro: "Lata d'água na cabeça / Lá vai Maria / Lá vai Maria / Sobe o morro não se cansa / Pela mão leva criança / Lá vai Maria". O samba recebe arranjo primoroso do maestro Radamés Gnattali e obtém grande êxito popular.

Luís Antônio repete o êxito no Carnaval de 1953, quando a cantora Marlene grava com sucesso sua música "Zé Marmita" (parceria com Brasinha), que novamente trata de um tema social, fato constante em seu universo de compositor. O samba aborda o drama dos operários da construção civil que se levantam de madrugada para viajar para o trabalho pendurados nos vagões dos trens e, além de tudo, têm de comer a comida que sobrou do jantar. Essa é a música mais cantada e executada do ano. Luís Antônio, porém, compõe também a música mais injustiçada desse mesmo Carnaval. "Barracão" (com Oldemar Magalhães), interpretada por Heleninha Costa, passa quase despercebida, e assim ficaria até que, em 1968, em gravação ao vivo no Teatro João Caetano, Elizeth Cardoso, acompanhada por Jacob do Bandolim e Conjunto Época de Ouro, recupera a canção que entra para a história da música popular brasileira como um dos maiores sambas de Carnaval de todos os tempos. A música oferece uma visão ambígua e complexa sobre o morro. Em tom de lamento, aponta a pobreza infeliz da favela, mas ressalta o barraco como "uma tradição do meu país".

Entre 1959 e 1962, vem a fase do sambalanço, tipo de samba surgido nas boates do Rio de Janeiro, cadenciado e sofisticado, situado entre a bossa nova e o samba-canção. As letras passam a enfatizar temas mais românticos, como "Recado", um dos mais gravados em 1959, com registros de Maysa, Luis Claudio, Luiz Bandeira e Miltinho. Compõe também Mulher de Trinta e Poema do Adeus, gravadas por Miltinho. Seu principal parceiro nesta fase é Djalma Ferreira, com quem compõe Cansei, Destinos, Fala Amor e Murmúrio, além de Recado, Lamento, Cheiro de Saudade, registradas com grande sucesso pelo cantor Miltinho, que com sua voz nasalada, afeita aos sambas de teleco-teco e às canções românticas, se torna o principal intérprete da obra de Luís Antônio.

Apesar de não desfrutar de muita popularidade, Luís Antônio é autor de alguns dos maiores clássicos do samba. Sempre carinhoso com os companheiros de trabalho, mas com vida social praticamente nula, faz questão de viver no anonimato, talvez para preservar sua condição de militar, tendo sido oficial do gabinete militar do presidente João Goulart, cassado pela ditadura.

 

Nota
¹ Zé Mario = Jota Junior. Os compositores eram ligados a diferentes sociedades arrecadadoras de direitos autorais. Devido a isso, naquela época, Jota Junior não podia assinar com Oldemário Magalhães e Luís Antônio.

Outras informações de Luiz Antônio:

  • Outros nomes
    • Antônio de Pádua Vieira da Costa
  • Habilidades
    • compositor

Fontes de pesquisa (4)

  • ALBIN, Ricardo Cravo. Dicionário ilustrado da música popular brasileira. Rio de Janeiro: Paracatu, 2006.
  • ANDRADE, Mário de. Pequena história da música. 6ª ed. São Paulo: Martins,1967. 
  • HIRAN, Araújo. História do carnaval. Rio de Janeiro: Liesa, 2004. 
  • VASCONCELOS, Ary. Panorama da música popular brasileira vol. 2. Rio de Janeiro: Martins, 1965.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LUIZ Antônio. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa531059/luiz-antonio>. Acesso em: 23 de Set. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7