Artigo da seção pessoas Luiz Tatit

Luiz Tatit

Artigo da seção pessoas
Música / artes visuais  
Data de nascimento deLuiz Tatit: 23-10-1951 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Luiz Augusto de Moraes Tatit (Pinheiros, São Paulo, 1951). Compositor, cantor, violonista, professor universitário, semioticista. Autodidata, começa a tocar violão aos 12 anos, tirando de ouvido as músicas que escuta no rádio. Na época do colégio, influenciado principalmente pelos Beatles, compõe suas primeiras canções, com as quais vence um concurso interno do Instituto de Educação Fernão Dias Paes (Bairro de Pinheiros, São Paulo), e o 2º Concurso de Música Estudantil, em 1970, com a canção Espelho Dourado, em parceria com Roberto Lazzarini (estudante de piano erudito).

Ingressa na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) em 1971. Nesse momento, não domina nem teoria nem a grafia musical, tampouco tem familiaridade com o repertório erudito, conhecimentos exigidos para o ingresso no recém-criado curso de música. Porém, possui bom ouvido, o que lhe garante, no fim do primeiro ano da graduação em artes, uma vaga na carreira escolhida. Na ECA, entra em contato com as ideias do compositor de vanguarda Willy Correia de Oliveira. De um lado, elas o seduzem por seu caráter revolucionário, incutindo-lhe o valor da inovação na arte e a importância da forma na construção de novos conteúdos. De outro, desconsideram o objeto que o havia levado a ingressar no curso: a canção. A essa altura, porém, intui que a melodia das canções não tem origem propriamente musical, mas deriva da própria musicalidade da fala. Para entender melhor o componente linguístico da canção, ingressa em 1973 no curso de letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH), que frequenta paralelamente ao de música.

No ano seguinte, com outros universitários, funda o grupo Rumo da Música Popular (1972-1992), logo rebatizado como Rumo. É formado por Hélio Ziskind (1955) (violão, flauta, sax e gaita), Akira Ueno (baixo, guitarra e bandolim), Geraldo Leite (vocal), Paulo Tatit (violão e arranjos), Gal Oppido (bateria e percussão) e, a partir de 1987, Fábio Tagliaferri e Ricardo Breim e Zecarlos Ribeiro (vocal). A eles se juntam mais tarde Ciça Tuccori (piano), Ná Ozzetti e Pedro Mourão (vocais). Em 1979, o grupo passa a se apresentar no Teatro Lira Paulistana, tornando-se um dos principais representantes da chamada vanguarda paulista, ao lado de Arrigo Barnabé (1951), Itamar Assumpção (1949-2003), Língua de Trapo e Premeditando o Breque. Tatit compôs 46 músicas para o grupo, gravadas nos sete discos lançados entre 1972 e 1992. O CD Rumo ao Vivo é premiado pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) como a melhor produção de 1992.

No fim dos anos 1970, inicia suas pesquisas acadêmicas sobre a canção. No mestrado, em 1982, utiliza conceitos da semiótica para propor um modelo analítico da canção, para compreender como o entrosamento entre melodia e letra atua na construção de sentidos. Tal proposta é desdobrada no doutorado, concluído em 1987. No ano seguinte, torna-se professor do Departamento de Linguística da FFLCH/USP e, em 2002, obtém o cargo de professor titular na área de teoria e análise do discurso nesse departamento. Em 1994, defende a livre-docência.

Nos anos 1990, passa a compor em parceria com vários artistas, entre eles José Miguel Wisnik (1948). É autor das letras das canções Estopim, Terra à Vista e Dentro e Fora que dão a Dante Ozetti a vitória no Prêmio Visa de 2000. Com Fábio Tagliaferri, compõe Show, canção finalista do Festival de Música Brasileira promovido pela Rede Globo de Televisão em 2000. Em 1997, grava seu primeiro disco solo, Felicidade, seguido de O Meio (2000), Ouvidos Uni-Vos (2005), Rodopio (2007) e Sem Destino (2010). Volta a se reunir com os membros do Rumo em 2004, no show de relançamento dos álbuns do grupo pela gravadora Trama e, em 2010, no disco Sopa de Concha.

Análise

Embora Luiz Tatit negue haver relação entre sua atividade de cancionista e a de pesquisador, é nítida a influência de suas reflexões teóricas nas canções que compõe. Essa proximidade é mais evidente no início da carreira, quando, após os shows do grupo Rumo, são realizados debates para explicar ao público os processos de composição. Nessa época, segundo palavras do próprio músico, suas canções são "demasiadamente experimentais", preocupadas mais com o conceito que as havia gerado do que com a fruição do ouvinte. Ao mesmo tempo, suas experimentações artísticas nos anos 1970 parecem ter determinado a escolha do objeto de estudo a que dedica toda sua vida acadêmica: os diferentes "modos de dizer" presentes no cancioneiro brasileiro.

Nas canções que faz para o Rumo, Luiz Tatit explora uma dicção mais próxima da palavra falada, levando ao extremo a ideia-chave de sua teoria, segundo a qual a entoação (desenho melódico da fala) está na base de toda canção. É o que se nota em Verdadeiro Amor, gravada por Ná Ozzetti no LP Rumo, de 1981: "Você mexe nos momentos meus / Que já estavam tão longe / E traz tudo de volta / E agora o que é que eu faço com / Isso tudo aqui?". O texto, sozinho, não diz muita coisa, beirando a banalidade. Porém, ao ser entoado pela intérprete, com acompanhamento de violões, flautas e percussão, adquire uma força enorme, que repousa justamente no mimetismo da fala. Os dois primeiros versos giram em torno de uma mesma nota, com pequenas oscilações (semitons), até chegar à palavra "longe", cantada numa região mais aguda, enfatizando a distância evocada na letra. Os próximos três versos são quase falados, numa linha continuamente descendente, só interrompida pela subida na palavra "aqui", que reforça o sentido interrogativo da frase. As estrofes seguintes se iniciam repetindo o mesmo desenho da anterior, demonstrando que há, sim, uma melodia na canção. Esta, porém, logo se envereda por novos caminhos, sempre repousando sobre determinadas notas, insistentemente repetidas. Do ponto de vista harmônico, percebe-se a ausência de um centro (é impossível definir em que tom a música está). As sensações de tensão e repouso, portanto, não se dão pela sucessão de acordes, mas pela própria melodia e suas inflexões. O ritmo também oscila, caracterizado pela ausência de uma batida constante.

O uso desses procedimentos faz com que essas composições sejam consideradas pela imprensa dos anos 1980 como "não canções" ou "anticanções". Luiz Tatit, entretanto, prefere chamá-las de "essenciais" ou "radicais". Com efeito, elas acentuam um procedimento já explorado por sambistas dos anos 1920 e 1930, como Noel Rosa, Lamartine Babo e Sinhô, cujas canções também se aproximam da fala (é o que se nota, por exemplo, na conhecida Conversa de Botequim, de Noel Rosa). Não é à toa que, em 1974, o grupo relê a obra dos três compositores no projeto intitulado Rumo aos Antigos, gravado em disco homônimo.

O recurso do canto falado, empregado por Luiz Tatit, tem dois desdobramentos inesperados. Primeiro, o humor.¹ De acordo com o compositor, "só o fato de ouvir alguém cantando e ao mesmo tempo falando já provocava risos na plateia. Quando a letra ainda discorria sobre longos episódios em que o intérprete participava como personagem e externava seus desejos e seus conflitos subjetivos, os ouvintes gargalhavam com as histórias como se fossem números de humor". Inicialmente estranhado pelos intérpretes, esse efeito logo passa a ser explorado pelo grupo, inclusive com intervenções cênicas. Outra consequência do canto falado é que ele torna a música mais figurativa e, portanto, mais próxima do público infantil. A boa aceitação das canções do Rumo pelas crianças leva o grupo a gravar, em 1988, o LP Quero Passear, pelo selo Eldorado, dedicado a elas. Trata-se do modelo de canção que é explorado futuramente por Paulo Tatit, irmão de Luiz, em parceria com Sandra Peres, no grupo Palavra Cantada.

Do ponto de vista poético, as canções de Luiz Tatit geralmente tratam de aspectos do cotidiano, em especial a separação amorosa entre os personagens ou crises existenciais, com foco na posição subjetiva do enunciador, como se pode notar na já citada Verdadeiro Amor. É uma reação à música engajada que domina a cena dos anos 1960 e parte dos 1970, impondo palavras de ordem e determinando o que deveria ser dito (geralmente, temas ligados à realidade política e social). A revolução proposta por Luiz Tatit encontra-se não tanto no conteúdo da letra, mas sobretudo na forma como se organiza - forma que expressa, em si mesma, um conteúdo. Nesse sentido, ele parece ter assimilado as lições da vanguarda musical que conhece na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP).

Outro assunto recorrente em sua obra, confirmando a íntima relação entre as pesquisas e a atividade de compositor, é a canção em si, como resultado singular da associação entre melodia e letra. Esse tema aparece, por exemplo, em sua Canção Bonita, gravada no LP Rumo, de 1981: "E uma canção dessas / Não se pode mandar por carta / Pois fica faltando a melodia / E ele explicou isso pro homem: / 'Olha, fica faltando a melodia!' " Ou ainda em Batuqueiro, gravada no CD O Meio, de 1997: "Quanta previsão / A melodia faz / Quantas intenções / Ela anuncia [...] Quanta precisão / E improviso / Vem alguém e diz / Que é feliz / E não sabia / É que demorou / Para encontrar / A melodia".

Com o passar do tempo, o recurso do canto falado vai cedendo espaço a linhas mais melodiosas, embora a imprevisibilidade e as notas paradas continuem recorrentes nas composições de Luiz Tatit. Abre-se, assim, espaço para o tradicional. Sua canção De Favor, do CD Sem Destino, de 2010, por exemplo, lembra as melodias beatlenianas que inspiram suas composições de adolescente, renegadas em sua fase mais experimental.

Com canções gravadas por importantes intérpretes da MPB, como Daúde (Ah!, 1995), Ney Matogrosso (Depois Melhora, 1998) e Zélia Duncan (Capitu, 2004; A Companheira, 2008; Felicidade, 2009) - esta responsável pela popularização do compositor -, Luiz Tatit figura entre os principais cancionistas brasileiros. Tem parcerias com diversos artistas, como Itamar Assumpção, José Miguel Wisnik, Fabio Tagliaferri, Dante Ozzetti, Kristoff Silva e Ná Ozzetti, os dois últimos também responsáveis pela gravação de várias de suas canções.


Nota
1. Tatit, Luiz. Todos entoam. São Paulo: Publifolha, 2007. p. 50.

Outras informações de Luiz Tatit:

  • Outros nomes
    • Luiz Augusto de Moraes Tatit
  • Habilidades
    • professor
    • Letras
    • Música

Obras de Luiz Tatit: (6) obras disponíveis:

Exposições (4)

Eventos relacionados (7)

Fontes de pesquisa (8)

  • HELIO Ziskind,. Entrevista concedida pelo músico ao site Gafieiras. São Paulo, 21 de setembro de 2004. Disponível em: <www.gafieiras.com.br>. Acesso em: 10 maio 2010.
  • LUIZ Tatit. In: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Disponìvel em: http://www.dicionariompb.com.br/luiz-tatit. Acesso em: 19 maio de 2010 .
  • LUIZ Tatit. Site Oficial do artista. Disponível em: <www.luiztatit.com.br>. Acesso em: 10 maio 2010.
  • NÁ Ozzetti. Site não oficial dedicado à artista. Disponível em: <http://www.mpbnet.com.br/canto.brasileiro/na.ozzetti>. Acesso em: 10 maio 2010.
  • TATIT, Luiz. Todos entoam. São Paulo: Publifolha, 2007.
  • OLIVEIRA, Laerte Fernandes de. Em um porão de São Paulo: o Lira Paulistana e a produção alternativa. São Paulo: Annablume , 2002.
  • TATIT, Luiz. O cancionista: composição de canções no Brasil São Paulo: Edusp, 1996.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LUIZ Tatit. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa5220/luiz-tatit>. Acesso em: 24 de Abr. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7