Artigo da seção pessoas Olga Reverbel

Olga Reverbel

Artigo da seção pessoas
Teatro  
Data de nascimento deOlga Reverbel: 1917 Local de nascimento: (Brasil / Rio Grande do Sul / São Borja) | Data de morte 01-12-2008 Local de morte: (Brasil / Rio Grande do Sul / Santa Maria)

Biografia
Olga Garcia Reverbel (São Borja RS 1917 - Santa Maria RS 2008). Teórica, autora e professora. Pioneira nos estudos e práticas das relações entre teatro e educação no Brasil e autora de diversas publicações sobre tema, Olga é considerada nacionalmente uma das precursoras do movimento conhecido como Teatro e Educação, alinhado às questões da cena e da educação contemporâneas, presentes nos debates sobre ensino de teatro.

Em 1936, na cidade de Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, conclui os estudos de magistério e inicia carreira docente, ao conduzir uma classe de alfabetização.

Estabelecida em Porto Alegre, desde 1939, transfere-se para o quadro docente do Instituto de Educação General Flores da Cunha e passa a lecionar a disciplina de teatro na educação, no curso de formação de professores. À frente dessa disciplina, oferecida inicialmente em caráter facultativo, Olga promove atividades teatrais com um grupo de 18 estudantes normalistas. Em 1940, as inscrições na matéria ampliam-se significativamente e, por conseguinte, ela é introduzida no currículo do curso normal, numa iniciativa inédita e precursora de inclusão das artes no meio escolar (configurada como lei somente em 1971, na Reforma do Ensino).

Olga viaja para a França, em companhia do marido, o escritor, jornalista e correspondente Carlos Reverbel, em 1946. Em Paris, estuda dramaturgia e literatura na Université Paris - Sorbonne e é convidada a lecionar em cursos de graduação e pós-graduação. Na condição de observadora, acompanha o processo de trabalho de diversos grupos de teatro franceses, o que lhe possibilita aprofundar aspectos da prática teatral e desenvolvê-los na sala de aula.

No retorno a Porto Alegre, reassume as atividades docentes no Instituto de Educação General Flores da Cunha e, em 1956, cria um programa de formação de professores para a escola primária, o Laboratório de Teatro e Didática. O programa baseia-se na sua preocupação com a prática teatral tradicionalmente voltada às "festinhas de colégio", nas quais as crianças se expõem sem naturalidade, com vozes e gestos estereotipados, e fundamenta-se na convicção de que o teatro na escola deve partir da ação espontânea da criança. A experiência resulta no Teatro Infantil Permanente do Instituto de Educação - Tipie, uma agremiação de cunho didático, dirigida por estudantes do curso normal que se ocupam de todos os detalhes da encenação, desde o preparo até a apresentação. O Tipie incentiva a prática do teatro na escola em estreita ligação com as outras disciplinas, e anuncia espetáculos semanais nas colunas de teatro dos jornais de Porto Alegre, reunindo um público de crianças e jovens vindos de diversas instituições de ensino locais e de municípios vizinhos.

Segundo o teórico Fernando Peixoto, entre os acontecimentos que marcam o avanço do teatro infantil em Porto Alegre, em 1956, destaca-se a criação do Clube de Teatro, idealizado por Olga, que "dá início a um movimento dos mais fascinantes do Brasil em busca da renovação e do aprofundamento do teatro para crianças".1

No ano da criação dos cursos de teatro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, em 1958, Olga integra a primeira turma de estudantes do curso de cultura teatral. Entre os aspectos de sua formação em artes cênicas destaca-se o permanente envolvimento com a dramaturgia do seu tempo. Envolvimento esse explícito de maneira diversa mas sobretudo através da participação ativa em eventos teatrais e artísticos de expressão e importância tanto local quanto internacional, de palestras a espetáculos. Outro ponto é o permanente interesse detido no trabalho de estudiosos e outros profissionais, de modo geral, do teatro brasileiro ou mundial que protagonizaram mudanças e inovações em suas respectivas áreas de atuação. A exemplo disso está seu acompanhamento do movimento de teatro estudantil, efervescente na Porto Alegre da década de 1950, em particular, com o trabalho dos grupos Teatro do Estudante e Comédia da Província. Tudo motivado e apoiado de modo contundente por sua mestra Maria Clara Machado.

Olga passa a lecionar as disciplinas de evolução do espetáculo, improvisação e direção (teatro infantil), no curso de arte dramática da UFRGS, em 1969. Posteriormente, vincula-se à Faculdade de Educação da UFRGS, na disciplina de didática e prática de ensino de arte dramática e no trabalho com estudantes de 1º e 2º graus do Colégio de Aplicação da UFRGS; e ao Instituto de Letras da UFRGS, nas disciplinas de literatura dramática e dramaturgia.

A larga experiência de Olga como professora de teatro é relatada em diversas obras de sua autoria, que permitem compreender sua concepção de teatro e de educação e acompanhar as fases do seu trabalho. Técnicas Dramáticas Aplicadas à Escola, sua primeira publicação, posterior a 1966, apresenta resultados obtidos em dez anos, 1956-1966, de trabalho no Tipie com estudantes do ensino primário, ginasial e normal. Na obra, considerada pelo escritor Erico Verissimo uma série de aulas vivas de "admiráveis qualidades lúdicas",2 a autora reflete sobre o teatro como recurso didático para a aprendizagem de diversas disciplinas do conhecimento. Teatro na Sala de Aula, de 1978, oferece ao professor orientações no trabalho em teatro como instrumento de aprendizagem, mediante a sistematização de experiências com alunos de 1º e 2º graus, na disciplina de teatro, no Colégio de Aplicação da UFRGS.

Outras publicações trazem os fundamentos do seu trabalho com teatro na escola. Em Jogos Teatrais na Escola, apresenta uma listagem de palavras-chaves, referentes à prática dos jogos teatrais, e fornece sugestões de atividades dramáticas direcionadas a diferentes níveis de escolarização e orientações para o professor. No prefácio, Maria Clara Machado refere-se à obra e à autora com grande entusiasmo: "Quando Olga Reverbel apareceu no Tablado, na década de 1950, pedindo idéias, buscando tudo aquilo que a enriqueceria no ensino das artes cênicas, pressenti que era uma das pessoas que sabem se entregar generosamente a uma idéia, e assim foi: estudando, praticando, perguntando, Olga chegou com este livro a uma síntese completa do ensino teatral. (...) Esta obra vem desempenhar um importante papel na literatura da escola".3

Nos anos 1980, alguns aspectos enfatizados na obra de Olga dão margem a críticas por parte dos seus contemporâneos, mas a avaliação contextual e o sentido de totalidade da obra tendem a minimizá-los, ou mesmo a convertê-los, em prol do dimensionamento histórico da sua contribuição.

Numa reconstituição histórica da legitimação do teatro infantil no Brasil, Maria Lúcia de Souza Barros Pupo destaca a contribuição de três entre os principais grupos dedicados a esse tipo de teatro: o Teatro Escola de São Paulo - Tesp, fundado em 1949 e dirigido por Tatiana Belinky e Julio Gouveia; o Tablado, criado no Rio de Janeiro, em 1951, ligado ao nome de Maria Clara Machado; e o Teatro Infantil Permanente do Instituto de Educação General Flores da Cunha - Tipie, em Porto Alegre, coordenado por Olga. Segundo Maria Lúcia, nas "décadas de 1960 e 1970, o Tipie se responsabilizaria por apresentações semanais de espetáculos infantis abertos ao público, como parte integrante das atividades da disciplina de teatro, cursada pelas normalistas daquela instituição".4

O ator Paulo Autran considera o papel preponderante de Olga na formação do público porto-alegrense: "Como tivemos ocasião de comprovar, pessoalmente, em várias temporadas, Olga Reverbel tornou-se também responsável pelo alto nível de grande parte do público jovem de Porto Alegre, onde vem trabalhando há tantos anos, contribuindo para a formação de uma platéia capaz de entender, discutir, criticar e, sobretudo, apreciar os espetáculos que lá se apresentam".5

Entrevistada pela revista Aplauso, em 2000, a inquieta Olga (então, com 83 anos) refere-se à decisão de mudar-se de Porto Alegre, onde vive durante 61 anos, para Santa Maria, Rio Grande do Sul, e justifica a escolha desta cidade pelas possibilidades de conviver com a família, receber amigos, apreciar o pôr-do-sol e ouvir música. Sobre os projetos para o futuro, comenta: "Sonho em escrever um outro livro. Já escrevi 18 e tenho um romance pronto, esperando para ser editado. Eu sonho também em ter bisnetos... a gente sempre sonha...".6


Notas
1. PEIXOTO, Fernando. Um teatro fora do eixo. São Paulo: Hucitec, 1997. p. 76.

2. VERISSIMO, Erico. Apresentação. In: REVERBEL, Olga. Técnicas dramáticas aplicadas à escola. São Paulo: Editora do Brasil S.A., s.d.

3. MACHADO, Maria Clara. Prefácio. In. REVERBEL, Olga. Jogos teatrais na escola: atividades globais de expressão. São Paulo: Scipione, 1989. p. 5.

4. PUPO, Maria Lúcia de Souza Barros. No reino da desigualdade: teatro infantil em São Paulo nos anos setenta. São Paulo: Perspectiva, 1991. p. 20-21.

5. AUTRAN, Paulo. Apresentação. In: REVERBEL, Olga. Técnicas dramáticas aplicadas à escola. São Paulo: Editora do Brasil S.A., s.d. p. 8.

6. CORREA, Ademir. Mil vezes Olga. In: Aplauso, vol. 3, n. 22, 2000, p. 11.

Outras informações de Olga Reverbel:

  • Outros nomes
    • Olga Garcia Reverbel
  • Habilidades
    • professor
    • autor

Espetáculos (13)

Fontes de pesquisa (16)

  • AUTRAN, Paulo. Apresentação. In: REVERBEL, Olga. Técnicas dramáticas aplicadas à escola. São Paulo: Editora do Brasil S.A., s./d. p. 8.
  • BARBOSA, Ana Mãe. Prefácio. In: REVERBEL, Olga. Um caminho do teatro na escola. São Paulo: Scipione, 1988. p. 9-10.
  • CORREA, Ademir. Mil vezes Olga. In. Aplauso. vol. 3, n. 22 (2000), p. 9-11.
  • DESGRANGES, Flávio. Pedagogia do teatro. São Paulo: Hucitec, 2006.
  • MACHADO, Maria Clara. Prefácio. In: REVERBEL, Olga. Jogos teatrais na escola: atividades globais de expressão. São Paulo: Scipione, 1989. p. 5.
  • PEIXOTO, Fernando. Um teatro fora do eixo. São Paulo: Hucitec, 1997.
  • PUPO, Maria Lúcia de Souza Barros. No reino da desigualdade: teatro infantil em São Paulo nos anos setenta. São Paulo: Perspectiva, 1991.
  • REVERBEL, Olga. A chave perdida. Porto Alegre: L&PM, 1995.
  • VERÍSSIMO, Érico. Apresentação. In: REVERBEL, Olga. Técnicas dramáticas aplicadas à escola. São Paulo: Editora do Brasil S.A., s/d.
  • ______. Jogos teatrais na escola: atividades globais de expressão. São Paulo: Scipione, 1989.
  • ______. O texto no palco. Porto Alegre: Kuarup, 1993.
  • ______. Teatro na sala de aula. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1978.
  • ______. Técnicas dramáticas aplicadas à escola. São Paulo. Editora do Brasil S.A., s./d.
  • ______.  Um caminho do teatro na escola. São Paulo: Scipione, 1989.
  • ______.  Perfil. Protagonista na vida
    Disponível em: http://www.sinpro-rs.org.br/extra/nov98/perfil.htm. Acesso em: 06 set. 2008.
  • ______. Teatro: uma síntese em atos e cenas. Porto Alegre: L&PM, 1987.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • OLGA Reverbel. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa513967/olga-reverbel>. Acesso em: 28 de Jun. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7